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*Mutação *

tela: anjo torto- Gabriela Bouechat

ainda que eu busque contemplar o belo
a imagem do espelho me revela
um ser em transformação
momento único, singelo
mutação

cuidados me consomem
dor aguda de pérola
forma estranha no recôndito da ostra
onde segredos se aninham e dormem
deserto que na concha se prostra

quero desbastar certezas
(nada é mais incerto que viver)
agigantar o olhar sobre a pequenez
quebrar defesas
encarar as vigas da tez

nada me distrai das indagações
que fermentam em mim
dos pensamentos em ondas revoltas
até a arrebentação... por fim

Úrsula Avner

* Do interior *

fonte da imagem : google- sem informação de autoria

súbito estrala
o som dos meus sonhos
perscrutam os seus
um brilho de pérola
perpassa a menina
dos meus olhos
que observa calada
o rio aflito das horas

soube do amor
provado em gomos
laranja lima
em tempo amargo
do que fomos
paladar distante e raro

Úrsula Avner

* Caminhante *

imagem : Autumn
autor : Duy Huynh

moça vidente
ia despejando encanto
ao longo da estrada
moinho de vento
afugentava a passarada

entendia de clarear
o caminho
andando descalça
até o pernoite

era sol o que luzia
na face alva
de vagar pela noite

se pudesse
nascer de novo
viria com asas

Úrsula Avner

* Sina Dobrada *


imagem : Diego Rodrigues da Silva


arroz munguzá

caldo de fubá

carne assada e feijão
comida fumega no fogão

Dona Maria

cheira a alho

cebola e açafrão

macarrão incha

na panela

pede uma pitada

de manjericão


Dona Maria

pega a tijela

transpira tosse

torce e retorce

o pano de prato

sabe quando o bolo

está no ponto exato


cozinha Dona Maria

Dona Maria cozinha


******//******


Mulher

na máquina de costura

cosia

quando á beira do fogão

cozia não

dormia



Úrsula Avner

Postagem simplesmente poesia (20)



LOU VILELA, A MENSAGEIRA DO VENTO





Hoje, 14 de março de 2010, é um dia especial para todos aqueles que se dedicam à atividade poética. Para nós, integrantes do Maria Clara: simples mente poesia, o 14 de março contém um sabor memorável, comporta duplamente poèisis: além de ser o "dia nacional da poesia", é a "data natalícia da querida poetisa Lou Vilela".
Lou Vilela, natalense de origem e residente na cidade do Recife-PE, é poetisa de grande sensibilidade imagística e habilidade semântica. Posta, regularmente, poemas e breves textos em prosa em seu espaço virtual Nudez poética, direcionado à acepção literária adulta. E desenvolve, na Blogosfera, um trabalho voltado ao leitor infanto-juvenil, especialmente às crianças, no blog Ritmos e rimas. Vejamos alguns traços de sua poesia.
Uma das qualidades da voz poética de Lou Vilela é a expansão - em versos oníricos, breves e musicais -, de temáticas profundas e ambíguas. A poeta, fazendo da “pena moinho”, anuncia/denuncia a vida das "gentes esquecidas” espalhadas à margem do tecido social. Nordestinos, mulheres, crianças são protagonistas em seus versos, oferece voz a grupos considerados “minorias”; muitas vezes expostos a múltiplas violências nas práticas sociais cotidianas.
Essas considerações podem ser apreciadas em os versos de Simbiose e Um conto sem réis. Leiamos os dois poemas:

em terra seca
de ninguém
sou nada

imprescindo d’água
e na face inundada
provo das gentes

meu sertão..., mal cabe na garganta:
as gentes, escorrem-me pelos dedos
(in: Simbiose).


***

Naquele pardieiro
ecos paredes rachadas
de risos de bocas
esfomeadas
vazamentos incontidos
profundo (a)mar
(in: Um conto sem réis).

Os poemas de Lou Vilela, além de profundidade temática, contêm intensidade lírica e apresentam belas imagens femininas associadas a contextualizações, metalinguagens, ambiguidades e sinestesias várias. Onde transbordam, em versos sugestivos e sensuais, frescores que remetem ao atordoamento e, por isso, alagam/alargam sentidos. Sensações que se podem experimentar a partir de os versos de Reflexos:

é esse teu olhar invasivo
que atordoa...

essa tua tatuagem olfativa
que embriaga...

tuas unhas que marcam,
tua saliva que cura.

são os teus trejeitos que ins.piro,
os teus trajetos que invado
entre mentes dentes dedos e falo.

enquanto transbordas
me alago.
(in: Reflexos).

No tocante à poesia infantil, a voz de Lou Vilela desenvolve temas como a dor, a perda e a morte; o cotidiano das crianças com suas brincadeiras, jogos e linguagens; a natureza e a temática animal; além de assuntos pertinentes à vida de um ser em desenvolvimento, como a alimentação.
Por meio do jogo e do ludismo, da imagística, da simplicidade na linguagem, da rima e figuras sonoras, a poetisa expande valores que se apresentam coerentes a um leitor em formação; e convida a criança a adentrar no mundo das letras, da imaginação e a construir conceitos.
Através do sentir/fazer poético, Lou Vilela propõe jogos de linguagem e desafios semânticos que contribuem para inquietar e remeter os leitores à plurissignificação textual, promovendo a construção de sentidos através do desvendar de pistas, combinações, sugestões de signos e imagens.
A sua poesia infantil oferece espaço para a livre significação, o que demonstra o respeito da autora às especificidades e à imaginação da criança; apresentando-lhes temas que, sem imposições moralísticas, portam consistência nos conteúdos de mensagem que, poeticamente, levam à reflexão das coisas existentes na natureza física e social-humana.
Leiamos mais dois poemas de Lou Vilela. Neles, a poetisa sopra belas imagens ligadas à natureza e se apresenta à criança - também ao leitor adulto - como "mensageira do vento"; anunciando a função da poesia e do poeta. E, posteriormente, convida o leitor a pensar a morte e a perda, valores que perpassam a vida humana:



vem pulsar uma viola sob
noite enluarada,
ouvir grilos, vagar lume?

há dias em que até as pedras
cantam poemas: a natureza
explode em exuberância!

e o poeta (in)venta
: faz da pena um moinho.



............................................a Gabriel, in memoriam

O vovô de Iago,
Mateus e Aninha
fechou os olhinhos,
esqueceu a idade:

partiu sem adeus,
sem mochila...
na hora de fazer
traquinagem.

No céu uma estrela
que brilha e acena.
Sorrindo, encena
deixando saudades.



Notas:

[1] Texto escrito por Hercília Fernandes.
[2] Arte: Catavento, de Luciana Teruz (Brasil, 1961).
[3] Poemas extraídos dos blogs da autora: Nudez poética e Ritmos e rimas.
[4] Foto: Lou Vilela.
[5] Texto revisitado em 16 de março de 2010.


* Pontuação subjetiva *

arte : Mulher
By: Renné Magritte


Não me defino
pois quando
não estou
entre parênteses
estou entre aspas
exclamação perene
interrogação absoluta
atolada em reticências
adjetivada entre vírgulas
levito nas entrelinhas
até me reduzir ao ponto final
ou não...

Úrsula Avner

" Transito em meu íntimo como quem navega em águas marítimas profundas. Segredo abissal. Quando na superfície, a cada linha alcançada, avisto mais uma... Horizontes abertos em mim. "

Úrsula Avner


* Singela homenagem ao dia Internacional da Mullher

Novas participações em o Maria Clara


Arte: Pierre-Auguste Renoir


O maria clara: simplesmente poesia, comemorando um ano de abundante "intersubjetividade poética", tem o prazer de comunicar que estão sendo introduzidas mais “quatro” vozes femininas em seu celeiro virtual, totalizando 12 autoras; cujas atuações dar-se-ão sempre às “segundas”, “quartas” e, agora, “sábados” de cada ciclo poético.

As novas vozes participantes apresentam notória expressividade literária na web, demonstrando em suas composições fortuna imagística, semântica, beleza e múltiplos conhecimentos nos valores expressos.

Os nomes das meninas recém-chegadas, conforme os leitores e as leitoras identificarão, são sinônimos de literariedade. São elas: (por ordem alfabética)


Lara Amaral, do Teatro da vida;

Renata Aragão, do Doce de lira;

Talita Prates, do História da minha alma;

e, Wania Victoria, do Encantaventos.


O maria clara sente-se honrado com a adesão das poetisas e convida os leitores e leitoras a acompanharem as estreias das autoras, mediante especificação do cronograma: (por ordem de adesão)


(23/01 - amanhã): Wania Victoria;

(30/01): Lara Amaral;

(06/02): Talita Prates;

(13/02): Renata Aragão.


Além da participação das meninas no espaço, o maria clara tem vislumbrado uma série de perspectivas para 2010.

O quadro, então existente, “Simplesmente Poesia”, geralmente incluindo voz masculina com apontamentos críticos, será mensal, se realizando sempre a cada fechamento de ciclo poético.

Ademais, vislumbra-se a realização de um sonho, mas isso é uma outra história, requer mais laudas...



Saudações poéticas,

Hercília Fernandes.


Gênese da escrita



versos ralos
lacônico poema
aqui e ali
saltitam palavras
carpidas burlescas

- miscigenação -

algum eflúvio
de rima
no ar

lira exumada


Úrsula Avner

* imagem disponível no google - sem informação de autoria.

* Quem a vê... não a sabe


arte : Pino Daeni


Quem a vê


terna e pacata


meiga e cordata


olhar sereno


não a conhece



Quem a vê


sobre a sacada


em sonhos debruçada


gesto ameno


sente que não desfalece



Seios proeminentes


escondem pulsações


olhares intermitentes


guardam rios de emoções



Quem a vê


em trajes comportados


sorriso discreto e são


desconhece que provou


o gosto doce do figo


nas vestes naturais de Adão



Úrsula Avner




* Simplesmente azul *


há um azul abstrato
que se deita na claridade
ora discreto cordato
ora repleto de vaidade

azul que lateja entre estrelas
sobeja no mar á luz do sol
azul da chama de muitas velas
da luz que emite o farol

o azul das veias constrange
em dias azulados de inverno
um olho azul petrifica o instante
o corpo azulado fica quente e terno

a pétala azul é poliglota
a geleira azul da montanha o sabe
o azul do jeans que desbota
cobre as águas em contornos de ave

a língua azulada saliva
o amor que ficou no azul
do tempo do breve momento
do vagão que leva hálito sedento

É azul a cor de dentroCor do texto


Úrsula Avner

* imagem do google- sem informação de autoria

* Facetas femininas do Éden *




Fonte da imagem: vidapimentada.blogspot.com ( sem informação de autoria )



O que se entende ser mulher

é gota em abissal oceano

mistério trancado a sete chaves

oculto atrás de véus e panos


a degustação do fruto proibido

lançou a sorte

definiu a direção da libido

de Maria, Ana, Teresa

daquela que tira e põe a mesa


da que ama em desvario

doidivana no cio

da que agoniza

em silêncio de arpão

no breu da solidão


daquela que faz da família

seu porto seguro

da que caminha sozinha

tateando da vida o muro


daquela que é prenhe de ideias

da que contempla numa tela vazia

um campo de azaleias


O salário do pecado é a morte

dor no ventre

sangra o corte

clamor nas entranhas

rasgadura na pele e na alma

reza de benzedeira

agonia de parideira



Úrsula Avner


* O verso "O salário do pecado é a morte" é bíblico

* Postagem Simplesmente Poesia (13)


A poesia feminina no divã ou o contrário?


tela: Nudez feminina reclinada no divã ( 1825-1826)
autor:
Eugéne Delacroix


* Na surdina *

( Cris de Souza)
In: Trem da lira

O silêncio me habita
Não é meu esse delírio
E nele me burilo

A rever gestos
Que se espaçam
Nesse mundo vadio

O silêncio me habita
Não é meu esse martírio
E nele me exilo

A romper restos
Que se esgarçam
Nesse fundo vazio


* Latente *

( Rita Costa )
In : Alma de Poesia

Quando mergulhei
no silêncio dos gestos
senti que pairava no ar
a essência do poema
E foi pela intenção oculta,
ritmada... dos versos
que, urgentemente, desejei
o cessar das palavras




Tela: Salvador Dali


* Parti *

( Taninha Nascimento )
In: No Rastro da Poesia

Sim, há uma ausência.

E como quem procura a lógica
saio ao encontro
da possível existência de mim.

Sem mais,
parti.


*Pensamentos de raiz *

( Úrsula Avner)
In: A Alma da Poesia


Sou planta de raiz profunda
caule cravado em terra úmida
o que sei de mim
é mera especulação
gotas que caem
no cochicho das folhas
na aridez do chão
na fluidez do vento da incerteza
no salivar da imaginação


* Itinerário do silêncio *

( Graça Pires)
In: Ortografia do Olhar


À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão
multiplicando as sombras.
Peregrina de outras luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


Estraga prazer :
notas de explicação que ninguém pediu:

Caros(as) Leitores(as),

O objetivo da presente postagem, longe de pretender uma análise literária dos textos apresentados, é propiciar uma reflexão sobre a influência das manifestações psíquicas do inconsciente na linguagem poética feminina, à luz da psicanálise e da própria poesia, observando a interlocução entre os textos e as imagens da postagem .

Na piscanálise, entende-se que a linguagem do inconsciente se dá por meio de expressões metafóricas, observadas nos sonhos, chistes, atos falhos, entre outras manifestações psíquicas, que possibilitam a emergência de conteúdo latente. Na criação poética, a linguagem também é metaforizada e transmuta a realidade através das entrelinhas, das figuras ou símbolos linguísticos.

O(a) poeta(isa) deixa vir à tona aspectos de sua subjetividade, permitindo, assim como na psicanálise, que seja expresso, parte do que está oculto, submerso, tal qual o corpo de um iceberg, em que apenas uma pequena parte é vista sobre as águas, enquanto, a maior parte do bloco de gelo está oculto. Dentro de tal analogia, a parte maior é o inconsciente, enquanto a parte menor é a consciência.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, entendia a poesia , entre outras formas de expressão artística, como "um domínio intermediário entre a realidade que nos nega o cumprimento de nossos desejos e o mundo da fantasia que procura sua satisfação."

Gaston Bachelard, filósofo, poeta, epistemólogo, tendo se aproximado da fenomenologia e da psicologia , considerava que a imaginação é a própria força criadora do psiquismo que se expressa por meio de um devaneio poético que exige disciplina : "poeta é aquele que fala no âmago".

Apesar das diferenças conceituais entre Bachelard e Freud, talvez se possa afirmar que ambos concebem a poesia como um modo específico de acesso ao inconsciente, ao lugar mais íntimo e misterioso do ser.

Na linguagem poética da notável escritora e poetisa mineira Adélia Prado, por exemplo, podemos contemplar a relação nítida entre a poesia e as questões do psiquismo no viés da psicanálise :

" Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus
pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor,
estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo... Como um
pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H
nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado. "


( In: Quero minha mãe - Rio de Janeiro: Record, 2005 )


" Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim "
( Sigmund Freud )


Bibliografia:

* FREUD, Sigmund. Obras Completas. Ed. Standart Brasileira, 1974.

* GASPAR, Ana Maria Mendes. " O lugar da psicanálise na obra de Gaston Bachelard. " Lisboa: CFCUL. Tese de Mestrado em História e Filsofia das Ciências, 2008.

*http://www.consciencia.org/

* http://pt.wikipedia.org/

* sugestão de leitura do livro : "Quando nem Freud explica, tente a poesia!", de Ulisses Tavares. Ed. Francis.

* Pré e pós conceito *

obra: mulheres negras de barro
escultor: Irineu Ribeiro

Olha a negra
descendo o morro
cabelo sarará desgrenhado
casa de joão-garrancho
pixaim ninho de guacho
negra fulô
negra do andor
negra do despacho

rebola a negra
barriga de fora
cheiro de alho e cebola
lá vai a negrinha
e mais ninguém
mexe as ancas
vai e vem

negra do beco
negra do morro
Lourdes, Sebastiana
Joana, Maria do Socorro
apanha do marido
apanha da vida
cozinheira lavadeira
faxineira parideira
vida sem eira nem beira

Lá vai a negra feinha
arrasta as chinelas
a caminho da feira

só anda sozinha
mastiga casca de canela
a negrinha brejeira

sofre a negra
mas não se entrega
no esmeril da vida se esfrega
esquece que não é de ferro
é de barro


Úrsula Avner

Perdição


Adão e Eva: Gustav Klimt



........................Afã!

................se fez

.........compota

....quando lua

............inteira

............-mente

..................torta

.....................maçã...


(07/09/09)


Pedra na lua*



Quando digo que não mais te quero

É a ti que eu venero.

Quando finjo um meio sorriso

É porque meu riso ainda é sincero.


Quando rasgo o véu e digo:

― O mel de tão doce virou fel.

Não me estranhes!

É porque ainda cobiço o teu céu.


Quando te escandalizo

E devoro o mito

Deformando Narciso

É para, logo depois, cometer suicídio.


Quando te esqueço,

E aquela voz velada aqueço

Me comprometo, rezo um terço

E me converto ao teu desejo.


Quando não te digo nada

E faço do silêncio a minha causa

É porque as palavras têm cauda

E já não me resta nenhuma lauda...


Quando me enfeito de diva

E repito: ― Sou eu tua Marília.

Não acredites, é tudo mentira!

Apesar do nome me fazer bem à rima.


Quando não sei quem sou

E te peço socorro

Não me dê a mão

Porque não te quero morto

Em meu coração.


Quando estou naqueles dias

A ponto de jogar pedra na lua

Me leves a sério, me leves pra rua

Me faças mulher, me deixes ser tua.

Mesmo que eu diga: ― Não!

Deixe a chuva cair

Pra lua reluzir de paixão.


Quando o tempo mudar:

― Me esqueças! E desapareças!

Porque o vento levou a contemplação...


by Hercília Fernandes




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A poetisa e professora universitária Adriana Karnal deixou-me abundantemente emocionada com o ensaio crítico: A poesia subjetiva de Hercília Fernandes. Aproveito o post para agradecer o belo gesto da poetisa e a convidar os amigos à leitura do artigo.


*Poema extraído do livro: Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 61).


Ah! Se.......


Arte: Renoir


Gostaria de ter a engenhosidade métrica de João Cabral,
Ou proclamar pedras e a natureza como Manoel de Barros.
Um pouco de sensualidade, também não me faria mal
Inspirar em meus poemas as inquietações de Clarisse
Voltaire, Bachelar, Balzac, Pessoa, Mário de Andrade...
No entanto, seria apenas um sonho a se tornar realidade.

Talvez pudesse cantar estrelas, invadir o mar com rosas
Ter em mim um pedacinho que fosse de Guimarães Rosa.
Mas simples em meu dizer, contradigo o reverso e vivo
No adverso do eu que pretendia ser, como uma pedra
Que dilata a solitude, a tristeza e ofusca a luz , onde crivo
Poemas que crio e revejo o que não queria dizer e digo.

Creio em mim como um ser nativo no mar, mas ainda
Envolta em concha, teima em não abrir e arder à palma.
Em metáforas, metonímicas, na semântica que fico a dever
àqueles que meus versos lêem e só encontram uma alma
que ao escrever um poema, acalanto ou prosa, acalma
o espírito, que existe na poeira cósmica de um centrado ser,

Que foi vivendo, e mesmo lendo, chorou e emudeceu.
Me comovo demais e me perco de mim. Assim sou eu.