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* quando se abre a flor *

vestes de um novo tempo

cobrem a nudez do chão

revelam a dança do corpo


trepida paixão incólume


deliram flores folhas


e o corpo se contorce


estende-se raio de sol


até a noite sentir vontade


de valsar em vestes claras


Úrsula Avner

* em homenagem ao meu novo amor...

Prenúncio



de tudo há sinais:
amor que veste colete
caminha pro cais.


A despedida se inicia bem antes do fim. (Twitter)


Publicado em 15 de abril no Doce de Lira.

* Do interior *

fonte da imagem : google- sem informação de autoria

súbito estrala
o som dos meus sonhos
perscrutam os seus
um brilho de pérola
perpassa a menina
dos meus olhos
que observa calada
o rio aflito das horas

soube do amor
provado em gomos
laranja lima
em tempo amargo
do que fomos
paladar distante e raro

Úrsula Avner

* Arranque *

amei-te
com força de raiz

arrancado da terra
o amor não morreu
por um triz

sobrevive
como se ainda se sentisse
seguro e feliz

Úrsula Avner

Lírica



Sexo se faz com tão pouco:
corpo,
intenção,
movimento.

Amor é bem mais complexo:
alma,
atenção,
alimento.

Fato a que não se atravessa:
sexo sem amor é ato,
amor com sexo é peça.


Renata de Aragão Lopes


Publicado em 25 de agosto no Doce de Lira.

* Mera contemplação *




arte : Freedom of my soul
by : Mel Gama

quando estiver diante de um poema

esteja inteiro

como mar aberto ao horizonte

olhar de marinheiro


não reduza o poema

a um significado temporal

a um sentimento tosco

a um pensamento marginal


encontre nele o que preciso for

absorva seu cheiro sinta seu sabor

mergulhe em seu corpo

veja nele campo fecundo ou sopro


não lance ao vazio o que é

lágrima carpida ou sentida

riso solto ou dosado


talvez seja canto de amor

canto do que foi amado

do que se entende ser

do que ainda será (entoado)


Úrsula Avner


Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Renata de Aragão Lopes


Poema publicado anteontem no Doce de Lira.

Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.

Coração



Que fazer com o pingente,
quando a corrente
perde um elo?


Renata de Aragão Lopes

Pretérito-Perfeito...





Mãe e Filho – detalhe do quadro As Três Idades da Mulher – G. klimt


Gerei, pari
Olhei, amei
Segurei, cuidei
Alimentei, provi
Eduquei, errei
Mostrei, convenci
Chorei, sorri
Cresceram, cresci


by Wania Victoria



Bendito Cansaço



Fecho-te as pálpebras com meu beijo.
Pálpebras quase pretas do cansaço
Da longa jornada, tal
borboleta em asas
Leves, mas cansadas, e repousas no meu
Abraço.

Minha boca beija muda a tua mão
Não como bênção, mas em reverência
À tua ânsia de trabalhar para conseguir
Pintar teu sonho, lapidar em negro carvão
O almejado descanso.

Pronto.
Deixa-te dormir, fluir...
e num pouso manso
.......... eu velo teu sonho!

* Simplesmente azul *


há um azul abstrato
que se deita na claridade
ora discreto cordato
ora repleto de vaidade

azul que lateja entre estrelas
sobeja no mar á luz do sol
azul da chama de muitas velas
da luz que emite o farol

o azul das veias constrange
em dias azulados de inverno
um olho azul petrifica o instante
o corpo azulado fica quente e terno

a pétala azul é poliglota
a geleira azul da montanha o sabe
o azul do jeans que desbota
cobre as águas em contornos de ave

a língua azulada saliva
o amor que ficou no azul
do tempo do breve momento
do vagão que leva hálito sedento

É azul a cor de dentroCor do texto


Úrsula Avner

* imagem do google- sem informação de autoria

Momento retrô


O velho violinista - Picasso, 1903


"Amor condusse noi ad una morte" Dante, Inferno



o que mais me dói agora
é ver esse infinito amor findado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
( perdido, posto, finado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
( meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada fria
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar o sentir que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente

.

Quer dançar comigo?




Renoir: imagem Google


Sonhei que dançavas comigo

Como se presa fosse, ao desejo

De enlaçar-te no doce sabor

Que a dança se faz no ensejo


O ritmo, não mais importa

O coração a bater, abre a porta

No frenético ritmo de estar

Colada ao teu corpo, te abraçar


Conduz meu corpo com tem calor

Sigo a trilha que mais te agradar

Vem, dança comigo, só essa vez

Pode ser a última dança,... talvez



APRESENTAÇÃO: "Elas cantam amor"



NUNCA eu tivesse querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido...

(Cecília Meireles. Canção, in: Viagem: 1939)


Uma das qualidades da poesia feminina é a externalização sincera dos sentimentos do eu-emotivo.

Com maior ou menor intensidade, é observável que o “amor” é um dos temas que perpassa a lírica feminina. Seja o amor sensual e/ou metafísico, a poesia realizada por mulheres se reveste de múltiplos sentidos e expressa a ânsia de completude, a saudade, a inquietação física e as dores do vivido e/ou não-vivido.

Em razão das comemorações alusivas ao dia dos namorados, o “Maria Clara: simplesmente poesia” traz uma seleta de textos intitulada: “Elas cantam amor”, dividida em quatro partes que expressam as singularidades do universo poético feminino no tocante à externalização da afetividade, às idéias e às sensações que lhes são pertinentes.

Na primeira parte da postagem, destacam-se poemas onde o eu-emotivo proclama o desejo de realização e/ou busca por uma compreensão aos sentimentos de amor. Comportando textos das poetisas Adrianna Coelho, Solange Maia, Mirse Souza e Úrsula Avner.

Na segunda parte, os poemas tematizam o amor sensual, aquele que, como diria o poeta, “arde sem se ver”... Nesse bloco destacam-se textos da poetisa portuguesa Mariab e das brasileiras Mercedes Lorenzo e Beatriz.

Na terceira parte, a postagem comporta poemas que tratam da saudade, do retorno às amáveis lembranças e aos motivos que levam o eu-lírico ao canto amoroso, destacando-se poemas das nordestinas Lou Vilela e Hercília Fernandes, e da portuguesa Graça Pires.

Na quarta parte da matéria, a postagem tematiza as inquietações, turbulências e adversidades pertinentes às relações afetivas, onde se apresentam poemas das poetisas Adriana Godoy, Nina Rizzi, Líria Porto e Adriana.

A postagem comporta, ao todo, 14 textos poéticos. Sintam-se convidados a uma viagem onírica pelos labirintos do amor através das impressões digitais das belas vozes femininas in destaque.


Amáveis Saudações,

Maria Clara...