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Metasaudade



Se saudade é abstrata,
Palavra inexata
Essa eu desconheço
Pois a saudade da qual padeço
Tem corpo, tem peso
Tem gosto de sal
Ora sintagma coeso
Ora texto de chanchada nacional.
Conjunção dos sentidos, sobrenome
Que a meus predicados consome.
Saudade minha, exclusiva,
E ainda assim, plural.
E a tua saudade imprecisa
Mora em que tempo verbal?

Moni Saraiva

In Palavração - III Coletânea Scriptus, 2011.

requerimento


(...) Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus.(...)
Sob Medida - Chico Buarque


Já houve tempo bastante
Completamos dois verões
E o meu amor absoluto
Hoje é verso incessante:
Quero o amor em estado bruto
Que ignora estações.
É o coração buliçoso
Que noves-fora o gozo
É na medida teimoso
Pra reinventar direções.

Moni Saraiva

In Palavração - III Coletânea Scriptus, 2011.

* Mera contemplação *




arte : Freedom of my soul
by : Mel Gama

quando estiver diante de um poema

esteja inteiro

como mar aberto ao horizonte

olhar de marinheiro


não reduza o poema

a um significado temporal

a um sentimento tosco

a um pensamento marginal


encontre nele o que preciso for

absorva seu cheiro sinta seu sabor

mergulhe em seu corpo

veja nele campo fecundo ou sopro


não lance ao vazio o que é

lágrima carpida ou sentida

riso solto ou dosado


talvez seja canto de amor

canto do que foi amado

do que se entende ser

do que ainda será (entoado)


Úrsula Avner


Gênese da escrita



versos ralos
lacônico poema
aqui e ali
saltitam palavras
carpidas burlescas

- miscigenação -

algum eflúvio
de rima
no ar

lira exumada


Úrsula Avner

* imagem disponível no google - sem informação de autoria.

A Mulher e o Dito


Psique - Maurice Denis


Sempre vítima e ludibriada,

assim é a mulher até o presente

Desde a expulsão do Paraíso

Desde os tempos de Dionísio

É ela a chaga, a presa, a impura

Psique, linda, inocente e pura

Ultrapassa a barreira, ascende,

Acende a lamparina para ver,

quem o adorado, quem o amado!

E pela ousadia que transcende

foi levada à morte. Deixa a vitória.


Da vida aos céus, foi sua sorte

A mitologia deixa no mundo

esse perfil desumano, insano

onde a mulher em sua maioria

lidam com essa dita, bendita

maldita, mas real em autoria


O tempo foi fiel ao mito, infiel

à mulher, se é o homem o bendito

O tempo, seu aliado, entorna o fel

na mulher, na amada, no doce sabor

da vida.Tempo não é mel nem licor de.


* Postagem Simplesmente Poesia (13)


A poesia feminina no divã ou o contrário?


tela: Nudez feminina reclinada no divã ( 1825-1826)
autor:
Eugéne Delacroix


* Na surdina *

( Cris de Souza)
In: Trem da lira

O silêncio me habita
Não é meu esse delírio
E nele me burilo

A rever gestos
Que se espaçam
Nesse mundo vadio

O silêncio me habita
Não é meu esse martírio
E nele me exilo

A romper restos
Que se esgarçam
Nesse fundo vazio


* Latente *

( Rita Costa )
In : Alma de Poesia

Quando mergulhei
no silêncio dos gestos
senti que pairava no ar
a essência do poema
E foi pela intenção oculta,
ritmada... dos versos
que, urgentemente, desejei
o cessar das palavras




Tela: Salvador Dali


* Parti *

( Taninha Nascimento )
In: No Rastro da Poesia

Sim, há uma ausência.

E como quem procura a lógica
saio ao encontro
da possível existência de mim.

Sem mais,
parti.


*Pensamentos de raiz *

( Úrsula Avner)
In: A Alma da Poesia


Sou planta de raiz profunda
caule cravado em terra úmida
o que sei de mim
é mera especulação
gotas que caem
no cochicho das folhas
na aridez do chão
na fluidez do vento da incerteza
no salivar da imaginação


* Itinerário do silêncio *

( Graça Pires)
In: Ortografia do Olhar


À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão
multiplicando as sombras.
Peregrina de outras luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


Estraga prazer :
notas de explicação que ninguém pediu:

Caros(as) Leitores(as),

O objetivo da presente postagem, longe de pretender uma análise literária dos textos apresentados, é propiciar uma reflexão sobre a influência das manifestações psíquicas do inconsciente na linguagem poética feminina, à luz da psicanálise e da própria poesia, observando a interlocução entre os textos e as imagens da postagem .

Na piscanálise, entende-se que a linguagem do inconsciente se dá por meio de expressões metafóricas, observadas nos sonhos, chistes, atos falhos, entre outras manifestações psíquicas, que possibilitam a emergência de conteúdo latente. Na criação poética, a linguagem também é metaforizada e transmuta a realidade através das entrelinhas, das figuras ou símbolos linguísticos.

O(a) poeta(isa) deixa vir à tona aspectos de sua subjetividade, permitindo, assim como na psicanálise, que seja expresso, parte do que está oculto, submerso, tal qual o corpo de um iceberg, em que apenas uma pequena parte é vista sobre as águas, enquanto, a maior parte do bloco de gelo está oculto. Dentro de tal analogia, a parte maior é o inconsciente, enquanto a parte menor é a consciência.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, entendia a poesia , entre outras formas de expressão artística, como "um domínio intermediário entre a realidade que nos nega o cumprimento de nossos desejos e o mundo da fantasia que procura sua satisfação."

Gaston Bachelard, filósofo, poeta, epistemólogo, tendo se aproximado da fenomenologia e da psicologia , considerava que a imaginação é a própria força criadora do psiquismo que se expressa por meio de um devaneio poético que exige disciplina : "poeta é aquele que fala no âmago".

Apesar das diferenças conceituais entre Bachelard e Freud, talvez se possa afirmar que ambos concebem a poesia como um modo específico de acesso ao inconsciente, ao lugar mais íntimo e misterioso do ser.

Na linguagem poética da notável escritora e poetisa mineira Adélia Prado, por exemplo, podemos contemplar a relação nítida entre a poesia e as questões do psiquismo no viés da psicanálise :

" Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus
pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor,
estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo... Como um
pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H
nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado. "


( In: Quero minha mãe - Rio de Janeiro: Record, 2005 )


" Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim "
( Sigmund Freud )


Bibliografia:

* FREUD, Sigmund. Obras Completas. Ed. Standart Brasileira, 1974.

* GASPAR, Ana Maria Mendes. " O lugar da psicanálise na obra de Gaston Bachelard. " Lisboa: CFCUL. Tese de Mestrado em História e Filsofia das Ciências, 2008.

*http://www.consciencia.org/

* http://pt.wikipedia.org/

* sugestão de leitura do livro : "Quando nem Freud explica, tente a poesia!", de Ulisses Tavares. Ed. Francis.

Quer dançar comigo?




Renoir: imagem Google


Sonhei que dançavas comigo

Como se presa fosse, ao desejo

De enlaçar-te no doce sabor

Que a dança se faz no ensejo


O ritmo, não mais importa

O coração a bater, abre a porta

No frenético ritmo de estar

Colada ao teu corpo, te abraçar


Conduz meu corpo com tem calor

Sigo a trilha que mais te agradar

Vem, dança comigo, só essa vez

Pode ser a última dança,... talvez



Tormento




Vou reter esse poema
Na memória da parede
Na borda do meu espelho
Verás então, ao se ver
Lágrimas a escorrer

Poema retido sem fala ou escrita
É a minha palavra não dita
É meu sentimento
Em sufocado
Tormento