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*Mutação *

tela: anjo torto- Gabriela Bouechat

ainda que eu busque contemplar o belo
a imagem do espelho me revela
um ser em transformação
momento único, singelo
mutação

cuidados me consomem
dor aguda de pérola
forma estranha no recôndito da ostra
onde segredos se aninham e dormem
deserto que na concha se prostra

quero desbastar certezas
(nada é mais incerto que viver)
agigantar o olhar sobre a pequenez
quebrar defesas
encarar as vigas da tez

nada me distrai das indagações
que fermentam em mim
dos pensamentos em ondas revoltas
até a arrebentação... por fim

Úrsula Avner

* quando se abre a flor *

vestes de um novo tempo

cobrem a nudez do chão

revelam a dança do corpo


trepida paixão incólume


deliram flores folhas


e o corpo se contorce


estende-se raio de sol


até a noite sentir vontade


de valsar em vestes claras


Úrsula Avner

* em homenagem ao meu novo amor...

* Enluarada*

fonte da imagem : Google

hoje me vem
a lua garbosa
a derramar ouro branco
sobre os olhos já nublados
vejo a mulher formosa
a esparramar-se no céu
feito rio onduloso em seu leito

só de olhar a lua
saltam-me bolas no peito
pipocam no ventre
no riso estocado
no lume do desejo

se me abraçasse a lua
em banho de ágata
manjar celeste seria
em bandeja de prata

Úrsula Avner

* Tear *

Tela : Maurício Barbosa

na rua cansada
mulheres salivam
conversa (a)fiada
no tear
da ilusão
pra que tanta
conversa (des)fiada ?
Fio de navalha
a penetrar o coração
a alma indigesta

porém
sem conversa
não há festa
nem motivação
palavras viram
novelos, atam nós
calejam a língua

sem conversa
a alma mingua
feito a lua
mulher vaidosa
que também adora
uma prosa
com quem a chama de sua

Úrsula Avner

* alma flamenca *

tela : danza del fuego - Carlos Carreteiro

passos absolutos
golpeiam o chão
chora a guitarra
pulsa forte
o coração

nas mãos
a leveza da garça
batidas compassadas

sensualidade
paixão
mistério
dramatização

o palco
vermelho
como carmim
olhos marcados
tez franzida
desejos farpados
vibram em mim

Úrsula Avner

* Olá pessoal, sou apaixonada por dança flamenca e só agora, após os 40 anos, tive oportunidade de aprender um pouco desta complexa e bela dança originária da Espanha.
O poema é uma homenagem aos (ás) dançarinos (as) de flamenco.
Carlos Carreteiro é um pintor espanhol que reside em B.H e juntamente com sua mulher, é dono do La Taberna onde podemos saborear típica comida espanhola e assistir a belas apresentações de dança flamenca. Um abraço !

Úrsula

* Do interior *

fonte da imagem : google- sem informação de autoria

súbito estrala
o som dos meus sonhos
perscrutam os seus
um brilho de pérola
perpassa a menina
dos meus olhos
que observa calada
o rio aflito das horas

soube do amor
provado em gomos
laranja lima
em tempo amargo
do que fomos
paladar distante e raro

Úrsula Avner

* Que venha... *

imagem : Duy Huynh

que me venha
a poesia
segredada
ao ouvido
que a reconhece
música cantada
á língua
que só experimenta
a palavra falada

que me venha
a poesia
se.gre.ga.da
partida em
pedras de cristal
feito luz
múltipla em cores
feito som natural
de fonte
de rio
de silêncio
preso em cada
canção não entoada

Úrsula Avner

* Caminhante *

imagem : Autumn
autor : Duy Huynh

moça vidente
ia despejando encanto
ao longo da estrada
moinho de vento
afugentava a passarada

entendia de clarear
o caminho
andando descalça
até o pernoite

era sol o que luzia
na face alva
de vagar pela noite

se pudesse
nascer de novo
viria com asas

Úrsula Avner

* Momentos *


arte : Nanduxa


em momentos absolutamente meus
vejo-me ancorada ás areias do mar
facetas navegam em escunas
sentimentos aportados em dunas

nuvens esculpem no céu
aquilo que reconheço em mim
grãos de areia se agrupam
desenham rostos disformes
que as águas sugam

esquadrinho meu íntimo
encontro-me congelada no tempo
como se fora um ser que as águas salgaram
inerte vida que o mar e o vento emolduraram

Úrsula Avner

* Cativeiro *

arte : Gustav Klimt

o rio
ficou preso
em meus olhos
tão fundo em mim
tossiu tossiu
até engasgar

conheci um homem da lua
não me quis
casou-se com Maria Clara
escura como trovão

sou escrava do rio
( ou foi ele que cravejou cá dentro ?)
nunca mais
sairá de mim

Úrsula Avner

* Mera contemplação *




arte : Freedom of my soul
by : Mel Gama

quando estiver diante de um poema

esteja inteiro

como mar aberto ao horizonte

olhar de marinheiro


não reduza o poema

a um significado temporal

a um sentimento tosco

a um pensamento marginal


encontre nele o que preciso for

absorva seu cheiro sinta seu sabor

mergulhe em seu corpo

veja nele campo fecundo ou sopro


não lance ao vazio o que é

lágrima carpida ou sentida

riso solto ou dosado


talvez seja canto de amor

canto do que foi amado

do que se entende ser

do que ainda será (entoado)


Úrsula Avner


* Sina Dobrada *


imagem : Diego Rodrigues da Silva


arroz munguzá

caldo de fubá

carne assada e feijão
comida fumega no fogão

Dona Maria

cheira a alho

cebola e açafrão

macarrão incha

na panela

pede uma pitada

de manjericão


Dona Maria

pega a tijela

transpira tosse

torce e retorce

o pano de prato

sabe quando o bolo

está no ponto exato


cozinha Dona Maria

Dona Maria cozinha


******//******


Mulher

na máquina de costura

cosia

quando á beira do fogão

cozia não

dormia



Úrsula Avner

* Canção noturna *



o homem

da rua sem poste

esgueira-se do dia

tatua no corpo

o sol da meia noite

sombra estirada

na lápide do lume


olhos que veem

mãos que apalpam

sem a clarividência do sol

sem o estrondo do cotidiano

o homem da rua sem poste

há de viver cem (sem) anos


Úrsula Avner

* Esse poema foi postado no meu blog há um tempo atrás e hoje resolvi postá-lo aqui no Maria Clara... Um abraço a todos e todas.

* Desprendimento *

uma a uma
caem as flores ao chão
olhos coloridos
bem abertos
enxergam agora
de um novo lugar
ampliada visão
vento brinca ao redor

as flores
apenas observam


senil é o sonho
que se esconde
atrás das montanhas
cavalga incólume
no dorso do tempo
sem a dor do chicote
sem marcas de esporas

as flores
apenas observam


Úrsula Avner

* Pontuação subjetiva *

arte : Mulher
By: Renné Magritte


Não me defino
pois quando
não estou
entre parênteses
estou entre aspas
exclamação perene
interrogação absoluta
atolada em reticências
adjetivada entre vírgulas
levito nas entrelinhas
até me reduzir ao ponto final
ou não...

Úrsula Avner

" Transito em meu íntimo como quem navega em águas marítimas profundas. Segredo abissal. Quando na superfície, a cada linha alcançada, avisto mais uma... Horizontes abertos em mim. "

Úrsula Avner


* Singela homenagem ao dia Internacional da Mullher

* Rotina *


velha caquética

não sabe que já caducou


alma esquelética

no tempo estancou


arrasta seu chale puido

sapatos roidos

corpo moido


nas mãos rugosas

cheiro de mofo


nos olhos fracos

réstia de um brilho fosco


catarata



Úrsula Avner

* imagem disponível no google- sem informação de autoria
obs: o objetivo aqui, longe de enaltecer qualquer preconceito em relação ao envelhecimento, é usar elementos linguísticos relacionados socialmente á velhice, que apontam a rotina como algo sem vigor ou prazer, como em alguns casos de envelhecimento.

Gênese da escrita



versos ralos
lacônico poema
aqui e ali
saltitam palavras
carpidas burlescas

- miscigenação -

algum eflúvio
de rima
no ar

lira exumada


Úrsula Avner

* imagem disponível no google - sem informação de autoria.

* Quem a vê... não a sabe


arte : Pino Daeni


Quem a vê


terna e pacata


meiga e cordata


olhar sereno


não a conhece



Quem a vê


sobre a sacada


em sonhos debruçada


gesto ameno


sente que não desfalece



Seios proeminentes


escondem pulsações


olhares intermitentes


guardam rios de emoções



Quem a vê


em trajes comportados


sorriso discreto e são


desconhece que provou


o gosto doce do figo


nas vestes naturais de Adão



Úrsula Avner




* Simplesmente azul *


há um azul abstrato
que se deita na claridade
ora discreto cordato
ora repleto de vaidade

azul que lateja entre estrelas
sobeja no mar á luz do sol
azul da chama de muitas velas
da luz que emite o farol

o azul das veias constrange
em dias azulados de inverno
um olho azul petrifica o instante
o corpo azulado fica quente e terno

a pétala azul é poliglota
a geleira azul da montanha o sabe
o azul do jeans que desbota
cobre as águas em contornos de ave

a língua azulada saliva
o amor que ficou no azul
do tempo do breve momento
do vagão que leva hálito sedento

É azul a cor de dentroCor do texto


Úrsula Avner

* imagem do google- sem informação de autoria

* Facetas femininas do Éden *




Fonte da imagem: vidapimentada.blogspot.com ( sem informação de autoria )



O que se entende ser mulher

é gota em abissal oceano

mistério trancado a sete chaves

oculto atrás de véus e panos


a degustação do fruto proibido

lançou a sorte

definiu a direção da libido

de Maria, Ana, Teresa

daquela que tira e põe a mesa


da que ama em desvario

doidivana no cio

da que agoniza

em silêncio de arpão

no breu da solidão


daquela que faz da família

seu porto seguro

da que caminha sozinha

tateando da vida o muro


daquela que é prenhe de ideias

da que contempla numa tela vazia

um campo de azaleias


O salário do pecado é a morte

dor no ventre

sangra o corte

clamor nas entranhas

rasgadura na pele e na alma

reza de benzedeira

agonia de parideira



Úrsula Avner


* O verso "O salário do pecado é a morte" é bíblico