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* Tear *

Tela : Maurício Barbosa

na rua cansada
mulheres salivam
conversa (a)fiada
no tear
da ilusão
pra que tanta
conversa (des)fiada ?
Fio de navalha
a penetrar o coração
a alma indigesta

porém
sem conversa
não há festa
nem motivação
palavras viram
novelos, atam nós
calejam a língua

sem conversa
a alma mingua
feito a lua
mulher vaidosa
que também adora
uma prosa
com quem a chama de sua

Úrsula Avner

* Pontuação subjetiva *

arte : Mulher
By: Renné Magritte


Não me defino
pois quando
não estou
entre parênteses
estou entre aspas
exclamação perene
interrogação absoluta
atolada em reticências
adjetivada entre vírgulas
levito nas entrelinhas
até me reduzir ao ponto final
ou não...

Úrsula Avner

" Transito em meu íntimo como quem navega em águas marítimas profundas. Segredo abissal. Quando na superfície, a cada linha alcançada, avisto mais uma... Horizontes abertos em mim. "

Úrsula Avner


* Singela homenagem ao dia Internacional da Mullher

Um leque...

Mulher com um leque – P. Picasso


Ela fecha e abre o leque

Protege-se

Ela abre e fecha a boca

Critica-se

Ela fecha e abre os olhos

Adapta-se

Ela abre e fecha os braços

Envolve-se

Ela fecha e abre as mãos

Solta-se

Ela abre e fecha o coração

Engana-se

Ela fecha e abre as pernas

Entrega-se

Ela abre e fecha o leque

Apropria-se

...dela.



by Wania Victoria

Mulheres tônicas

CÂNDIDA, A MÉDICA

Era a tímida típica, estrábica, pálida e asmática. Espírito ético, pródigo.
Engolia críticas e sapos pétricos. Máscara pacífica.
Apesar da sólida clínica, lágrimas a faziam líquida. Náufraga sem fôlego.
Morreu de cálculo nefrético crônico. Trágica estatística, a propósito.

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ÂNGELA, A MÍSTICA

Nasceu católica, cresceu evangélica. Tornou-se esotérica, taróloga e astróloga. Numeróloga, confundia-se nos dígitos, nada econômica em dívidas e dúvidas.
A análise de arquétipos e horóscopo custava uma fábula de cédulas.
Num dia úmido e fatídico, caiu-lhe um satélite no fígado.
Simbólico e meteórico término para uma vida caótica.

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EURÍDICE, A MÍTICA

Beleza helênica, âmago hermético.
Métodos esdrúxulos: para escapar do lúgubre ômega mitológico, namorou homens com H maiúsculo: Hércules, Hipólito, Hermócares...
Casou-se com Ícaro.
Eurídice e cônjuge sobrevoaram, como pássaros, o Etna. Vôo panorâmico. Túmulo vulcânico.

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FÁTIMA, A MÚLTIPLA

Ótima em Física, Química e Matemática, Fátima era pouco prática.
Optou por Gramática, Semântica, Linguística, sem êxito: péssima retórica.
Estudou Música: voz inelástica e cântico tétrico.
Tráfego célere: um ônibus elétrico atropelou-lhe a sina ilógica.

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BÁRBARA, A ÚLTIMA

Romântica e utópica, Bárbara era um fenômeno trágico-cômico, de ímpetos cíclicos, cáusticos e histéricos. Os músculos, flácidos.
A vida passara qual relâmpago, sem Príncipe para preencher seus côncavos. Haja ginástica!
Átila, o personal trainer, era único: rústico, másculo, carnívoro.
A jovem máquina tântrica ressuscitou em Bárbara colágeno e espírito.
Mágica clássica. Melhor que plástica.

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* Pré e pós conceito *

obra: mulheres negras de barro
escultor: Irineu Ribeiro

Olha a negra
descendo o morro
cabelo sarará desgrenhado
casa de joão-garrancho
pixaim ninho de guacho
negra fulô
negra do andor
negra do despacho

rebola a negra
barriga de fora
cheiro de alho e cebola
lá vai a negrinha
e mais ninguém
mexe as ancas
vai e vem

negra do beco
negra do morro
Lourdes, Sebastiana
Joana, Maria do Socorro
apanha do marido
apanha da vida
cozinheira lavadeira
faxineira parideira
vida sem eira nem beira

Lá vai a negra feinha
arrasta as chinelas
a caminho da feira

só anda sozinha
mastiga casca de canela
a negrinha brejeira

sofre a negra
mas não se entrega
no esmeril da vida se esfrega
esquece que não é de ferro
é de barro


Úrsula Avner