obra: mulheres negras de barro escultor: Irineu Ribeiro
Olha a negra
descendo o morro
cabelo sarará desgrenhado
casa de joão-garrancho
pixaim ninho de guacho
negra fulô
negra do andor
negra do despacho
rebola a negra
barriga de fora
cheiro de alho e cebola
lá vai a negrinha
e mais ninguém
mexe as ancas
vai e vem
negra do beco
negra do morro
Lourdes, Sebastiana
Joana, Maria do Socorro
apanha do marido
apanha da vida
cozinheira lavadeira
faxineira parideira
vida sem eira nem beira
Lá vai a negra feinha
arrasta as chinelas
a caminho da feira
só anda sozinha
mastiga casca de canela
a negrinha brejeira
sofre a negra
mas não se entrega
no esmeril da vida se esfrega
esquece que não é de ferro
é de barro
Úrsula Avner