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cinco marias

 

se eu pudesse pedir...
ao invés de agradecer

pediria o regresso à terra
onde nasci e hei de morrer

como os pedidos foram muitos
os agradecimentos bem poucos

retorno nova mente ao assunto
com os rolling stones em torno

hercília fernandes


para que você declamasse as sementes e as pedras que por dentro é ouro
queria poder retirar todas as perdas do seu caminho

mas quem sou eu para saber das perdas e do signo de touro
quando muito sei das pedras que em silêncio recolhi sozinho

assim vai esse poema alado afeito a teias e perfumes de jasmim
a convidar-te para jogar cinco marias with the rolling stones and dreams

fernando cisco zappa



*Poema a mim ofertado por ocasião de aniversário dos trinta e oito... O texto fora publicado, conjuntamente a outras belas escritas dos amigos poetas, no HF diante do espelho, em abril de 2009.
*Arte localizada em vários blogs da Internet.


acalento ao fim



disseram que o mundo
iria acabar

não restaria pedra sobre pedra
ínfimo grão de areia no ar

nada me surpreendeu!...

a vida, de mim, se perdeu
quando o conheci

desde então acalento o fim
ao que flor rendeu...



Talvez ainda haja o que dizer:

um pássaro uma flor
uma pedra uma dor
uma canção um amor...

As coisas se transformam
Se pensando ando em você

Só o sentimento permanece intacto

:

derradeiro



hercília fernandes

feiúra rósea ou das repetições


e agora José?...
e agora Maria?...

a quantos pés
rés / voltas

trafegas poesia?


quis cicuta
estricnina

repetição cretina:

ora eu
ora você

quis esvair candura
a feiúra rósea

por todos os poros
esporas

a mim
a ti enrijecer



*Imagem localizada aqui.

Nota à frances(c)a



Danou-se!
Foi-se no mundo sem qualquer dólar, real ou peseta.
Pôs duas mudas, par de calçados, em velha maleta.
Deixou um vazio ornado em nota de caderneta:

"Fui, Francesca!"



sorriu, vestiu-se,
foi-se à francesa
não deixou nome,
e-mail, celular...

:

sob(r)mesa



*Imagem localizada aqui.

a duas mãos

 


a ausência dela choveu tanto
dentro de mim

que o meu coração borrou
flores de algodão em seu dorso.

Mas era tarde.
E, à ave, não coube voo ou deporto

[ então, chorei.





*Imagem localizada aqui.

Dos desejos [infantis] de poeta e de louco



Hercília Fernandes


A cada dia me torno mais estranha
A cada dia já não reconheço
minha face adormecida na amplidão.

A cada dia sinto-me menos fluída
E me nego, um pouco mais, à contemplação.

A cada dia me desinteresso por coisas sensatas
[e por ‘coisas não-sérias’ também...]
A cada dia apresento menos tolerância,
para não dizer: desdém!

A cada dia choro em meu silêncio
E clamo uma nova cor e idéia
Contrariamente, tarda-me chegar a primavera:
a luz e a chama de uma vela.

Assim meus dias vão passando:
sem serenidade, dormência ou engano
Assim meus dias vão perdurando
[enquanto choro em meu silêncio]
meus desejos infantis e secretos planos.

(01 ago 2007)

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Maria Paula Alvim


Metade de mim é alguém
Que pesa, apreça, pondera
Outra metade é ninguém
Leve, sem pressa, pudera!

Parte de mim é esteta
A la Ferreira Gullar
A outra, vida concreta
Urge que eu vá trabalhar

De perto, a parte ternura
Crê, treme, sonha, reluta
Ao longe, o lado bravura
Não teme, assanha, disputa

Dentro de mim vive um ente
Que fala e sabe de Tudo
O seu vizinho, demente
Nada, surdo, cego, mudo

Minha porção bissetriz
Reparte a arte, esquarteja
Faz sua parte, a infeliz
Descarta a alma, esbraveja.

A face poeta projeta
Panfleta sua arte bruta
A parte asceta é profeta
Aparte: sou anjo biruta.

(11 mai 2010)


*Imagem recortada daqui.

___dos fracassos...



Se Deus existisse...
Ele aceitaria preces.
E diria, aos homens, que o Mal
é Divino e não herege.
Se somos a Sua imagem e semelhança,
Ele falhou na Criação.
Fomos feitos para o fracasso:
Filhos da imPerfeição.

hercília fernandes




reverencio os mistérios
mas não os creio divinos

a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não

se deus fosse a natureza
não se chamaria flor a flor
nem bicho o bicho
nem mar o mar
nem homem o homem
há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou

ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou canhão
à míngua ou solidão?

não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?

reverencio os mistérios
mas não me fale em deus

adriana godoy


*Aquarela: Rafael Godoy, filho da poetisa.
Disponível em seu espaço poético.

Essa coisa...


Diálogo entre miudezas.


[ é essa coisa lenta
que me faz disparada
alenta fogo lamento
cavalo cavalgada ]

(lent(e)dão: 16 mar. 2010)




Que coisa seria essa?...

(Essa?...)

Essa que me toma inteira e não me governa!?
Faltam-me palavras para descrevê-la...

(Então, melhor, talvez, não tê-la!)

Poderia ser a lua
Se branca, cheia, me levasse à rua.

Poderia ser pássaro encantado
Se, ao lado, figurasse colorido cenário.

Poderia ser a chuva
Se, nela, pousasse véu de brandura.

Poderia ser nota só
Se, notada, valesse um dó!

Poderia ser fogueira
Se, lenha, queimasse a ribanceira.

Poderia, poderia, poderia...

Há algo de urgência
Há algo de silêncio
( in-de-cên-cia )
Algo vão desmedido!

Poderia... 


(Essa coisa: 7 jun. 2007)



*Imagem extraída do Google sem indicação de autoria.

Era uma vez...



Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido

(Ferreira Gullar)




Melhor assim!
Cedo ou tarde
me seria necessária.
Quero um vestido
de manhãs ensolaradas
e sapatos alados.



Naquela noite
serviram-se do melhor vinho da adega.

Era cedo, muito cedo para embriaguês.
E tarde - indiscutivelmente tarde -
para qualquer barulho.

Balbucios distraídos renderam-se
a Baco e a noite, silente e cálida,
pariu suas estrelas, testemunhas
de mundos distintos sem chão.




Espantei os fantasmas
destilei cicuta
um cretino
instigando, dis.puta!


Era tarde, chorei...
exorcismos, re.versos
ao avesso me vi
divino-perverso.


Mergulhei em esgoto
quebrei o mosaico,
uma vida fingida.


Cedo ou tarde, parti...
na mala um uivo
e um punhal
de saudades.



Era uma vez...




Lou Vilela in Nudez Poética
.



* Postagem Simplesmente Poesia (13)


A poesia feminina no divã ou o contrário?


tela: Nudez feminina reclinada no divã ( 1825-1826)
autor:
Eugéne Delacroix


* Na surdina *

( Cris de Souza)
In: Trem da lira

O silêncio me habita
Não é meu esse delírio
E nele me burilo

A rever gestos
Que se espaçam
Nesse mundo vadio

O silêncio me habita
Não é meu esse martírio
E nele me exilo

A romper restos
Que se esgarçam
Nesse fundo vazio


* Latente *

( Rita Costa )
In : Alma de Poesia

Quando mergulhei
no silêncio dos gestos
senti que pairava no ar
a essência do poema
E foi pela intenção oculta,
ritmada... dos versos
que, urgentemente, desejei
o cessar das palavras




Tela: Salvador Dali


* Parti *

( Taninha Nascimento )
In: No Rastro da Poesia

Sim, há uma ausência.

E como quem procura a lógica
saio ao encontro
da possível existência de mim.

Sem mais,
parti.


*Pensamentos de raiz *

( Úrsula Avner)
In: A Alma da Poesia


Sou planta de raiz profunda
caule cravado em terra úmida
o que sei de mim
é mera especulação
gotas que caem
no cochicho das folhas
na aridez do chão
na fluidez do vento da incerteza
no salivar da imaginação


* Itinerário do silêncio *

( Graça Pires)
In: Ortografia do Olhar


À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão
multiplicando as sombras.
Peregrina de outras luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


Estraga prazer :
notas de explicação que ninguém pediu:

Caros(as) Leitores(as),

O objetivo da presente postagem, longe de pretender uma análise literária dos textos apresentados, é propiciar uma reflexão sobre a influência das manifestações psíquicas do inconsciente na linguagem poética feminina, à luz da psicanálise e da própria poesia, observando a interlocução entre os textos e as imagens da postagem .

Na piscanálise, entende-se que a linguagem do inconsciente se dá por meio de expressões metafóricas, observadas nos sonhos, chistes, atos falhos, entre outras manifestações psíquicas, que possibilitam a emergência de conteúdo latente. Na criação poética, a linguagem também é metaforizada e transmuta a realidade através das entrelinhas, das figuras ou símbolos linguísticos.

O(a) poeta(isa) deixa vir à tona aspectos de sua subjetividade, permitindo, assim como na psicanálise, que seja expresso, parte do que está oculto, submerso, tal qual o corpo de um iceberg, em que apenas uma pequena parte é vista sobre as águas, enquanto, a maior parte do bloco de gelo está oculto. Dentro de tal analogia, a parte maior é o inconsciente, enquanto a parte menor é a consciência.

Sigmund Freud, pai da psicanálise, entendia a poesia , entre outras formas de expressão artística, como "um domínio intermediário entre a realidade que nos nega o cumprimento de nossos desejos e o mundo da fantasia que procura sua satisfação."

Gaston Bachelard, filósofo, poeta, epistemólogo, tendo se aproximado da fenomenologia e da psicologia , considerava que a imaginação é a própria força criadora do psiquismo que se expressa por meio de um devaneio poético que exige disciplina : "poeta é aquele que fala no âmago".

Apesar das diferenças conceituais entre Bachelard e Freud, talvez se possa afirmar que ambos concebem a poesia como um modo específico de acesso ao inconsciente, ao lugar mais íntimo e misterioso do ser.

Na linguagem poética da notável escritora e poetisa mineira Adélia Prado, por exemplo, podemos contemplar a relação nítida entre a poesia e as questões do psiquismo no viés da psicanálise :

" Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus
pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor,
estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo... Como um
pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H
nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado. "


( In: Quero minha mãe - Rio de Janeiro: Record, 2005 )


" Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim "
( Sigmund Freud )


Bibliografia:

* FREUD, Sigmund. Obras Completas. Ed. Standart Brasileira, 1974.

* GASPAR, Ana Maria Mendes. " O lugar da psicanálise na obra de Gaston Bachelard. " Lisboa: CFCUL. Tese de Mestrado em História e Filsofia das Ciências, 2008.

*http://www.consciencia.org/

* http://pt.wikipedia.org/

* sugestão de leitura do livro : "Quando nem Freud explica, tente a poesia!", de Ulisses Tavares. Ed. Francis.

Perdição


Adão e Eva: Gustav Klimt



........................Afã!

................se fez

.........compota

....quando lua

............inteira

............-mente

..................torta

.....................maçã...


(07/09/09)


Pedra na lua*



Quando digo que não mais te quero

É a ti que eu venero.

Quando finjo um meio sorriso

É porque meu riso ainda é sincero.


Quando rasgo o véu e digo:

― O mel de tão doce virou fel.

Não me estranhes!

É porque ainda cobiço o teu céu.


Quando te escandalizo

E devoro o mito

Deformando Narciso

É para, logo depois, cometer suicídio.


Quando te esqueço,

E aquela voz velada aqueço

Me comprometo, rezo um terço

E me converto ao teu desejo.


Quando não te digo nada

E faço do silêncio a minha causa

É porque as palavras têm cauda

E já não me resta nenhuma lauda...


Quando me enfeito de diva

E repito: ― Sou eu tua Marília.

Não acredites, é tudo mentira!

Apesar do nome me fazer bem à rima.


Quando não sei quem sou

E te peço socorro

Não me dê a mão

Porque não te quero morto

Em meu coração.


Quando estou naqueles dias

A ponto de jogar pedra na lua

Me leves a sério, me leves pra rua

Me faças mulher, me deixes ser tua.

Mesmo que eu diga: ― Não!

Deixe a chuva cair

Pra lua reluzir de paixão.


Quando o tempo mudar:

― Me esqueças! E desapareças!

Porque o vento levou a contemplação...


by Hercília Fernandes




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A poetisa e professora universitária Adriana Karnal deixou-me abundantemente emocionada com o ensaio crítico: A poesia subjetiva de Hercília Fernandes. Aproveito o post para agradecer o belo gesto da poetisa e a convidar os amigos à leitura do artigo.


*Poema extraído do livro: Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 61).