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O silêncio onde vela mar


Escolhe teu diálogo
e tua melhor palavra
ou teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade,
in fragmento de "O constante diálogo".


 Arte: Marc Chagall


a
s palavras mais belas
vieram turvas alíneas
também as cores
das coisas que não ousamos
verbo criar

toda expressividade
se revestiu de silêncio
assim como os sonhos
possivelmente críveis
à mercê das ondas
onde vela mar


Hercília Fernandes,
in “Vela Mar”.



*Poema integrante do livro “Nós Em Miúdos” que encontra-se em fase final de organização. A obra conta com prefácio escrito pelo poeta Lau Siqueira, cujo artigo “Hercília Fernandes e as Iluminuras do Silêncio” apresenta-se disponível para leitura no blog "Pele sem pele". Confiram!

Escala




não sei se atual
virtual potencial...

meu ser esvazia
(des)ata nós

são tantas teias
verdades & meias
carro-céu susten-
idos bemóis

in.conclusão



*Imagem disponível no Google.

acalento ao fim



disseram que o mundo
iria acabar

não restaria pedra sobre pedra
ínfimo grão de areia no ar

nada me surpreendeu!...

a vida, de mim, se perdeu
quando o conheci

desde então acalento o fim
ao que flor rendeu...



Talvez ainda haja o que dizer:

um pássaro uma flor
uma pedra uma dor
uma canção um amor...

As coisas se transformam
Se pensando ando em você

Só o sentimento permanece intacto

:

derradeiro



hercília fernandes

feiúra rósea ou das repetições


e agora José?...
e agora Maria?...

a quantos pés
rés / voltas

trafegas poesia?


quis cicuta
estricnina

repetição cretina:

ora eu
ora você

quis esvair candura
a feiúra rósea

por todos os poros
esporas

a mim
a ti enrijecer



*Imagem localizada aqui.

Nota à frances(c)a



Danou-se!
Foi-se no mundo sem qualquer dólar, real ou peseta.
Pôs duas mudas, par de calçados, em velha maleta.
Deixou um vazio ornado em nota de caderneta:

"Fui, Francesca!"



sorriu, vestiu-se,
foi-se à francesa
não deixou nome,
e-mail, celular...

:

sob(r)mesa



*Imagem localizada aqui.

quando turvas



que tu prefiras ficcional
enquanto aglomero tecidos
- olhos e lábios

isso gera voos à nau frágil
além de certa tendência
em apreender aparências
quando turvas realidades





a duas mãos

 


a ausência dela choveu tanto
dentro de mim

que o meu coração borrou
flores de algodão em seu dorso.

Mas era tarde.
E, à ave, não coube voo ou deporto

[ então, chorei.





*Imagem localizada aqui.

Um causo 'cem' motivos

 


I

....................Minha boca se perdeu da tua
....................no momento da fusão.
....................Não era para causar furor ou dúvida
....................mas gerir a ebulição.

II

....................Tal foi o meu espanto
....................foste a tua indignação.
....................Não se sabia se branca ou escura
....................a causa da indisposição.

III

....................E ali ficamos sem notícias
....................à mercê do jogo de adivinhação.
....................Com pouco apareceu a polícia
....................a prova final da humilhação.

IV

....................O soldado da milícia
....................pôs maior fogo na confusão.
....................Ousando fazer malícia
....................da quizila e má reputação.

V

....................Como toda farta fadiga
....................tem também fim a narração.
....................E essa durou deveras deriva
....................por cem motivos de opinião.

VI

....................Eu, a pobre heroína,
....................não quis ficar na contramão
....................Fui-me com o soldado de polícia
....................para não perder a ocasião.

VII

....................Tu, o moço descontente,
....................compensaste a solidão.
....................Dedicastes à Virgem Santíssima
....................teu novo amor, guia, proteção.

VIII

....................Assim se deu nosso causo:
....................Cem motivos de espanto e aversão.
....................Tu vestiste farda bata abatida
....................Eu, laranja-lima da região.

IX

....................E como preza boa cantiga
....................foste, tu, benfeitor da união...
....................Deste a bênção Divina
....................ao casal motivo de expiação.

X

....................Agora só nas horas altíssimas
....................trocamos os credos de devoção...
....................Confesso-te as asas partidas
....................Tu alivias a dor da desilusão:

....................Cem Salve Rainha, Cem Padre Nosso,
....................Cem Ave Maria...

....................Aleluia, Senhor, Amém!...



*Causo em ão narrado no dia 26 de maio de 2008, no HF diante do espelho.
* Imagens de cordéis disponíveis no Google.

Dobras do vento


À Mestra M.M. de Araújo, com carinho.



É preciso decifrar sinais

estar atento.


Saber o que apraz

manter-se sereno.


Reunir os galhos

sem mais nem menos.


Estreitar os laços:

a língua, os ais...

as dobras do vento!


(12 nov. 2008)



*Imagem sem indicação de autoria localizada no Google.

Das sentimentalidades e/ou das cartas de amor


Todas as cartas de amor são
ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
ridículas.

Álvaro de Campos,
heterônimo de Fernando Pessoa.
...................................................
E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente
interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria
de um luxo radioso de sensações!

Eça de Queirós,
fragmento textual de O primo Basílio.




Essa não é uma carta de amor. Não é uma expressão de afeto, nem mesmo o provérbio de uma oração parafraseada por minha solidão.
Essa não é uma construção advinda de uma inspiração, nem, tampouco, um soluço, um goto em meu coração.
Essa não é uma escrita de reflexão. Não é objeto da ciência, nem da religião. Essa é o nada, é o tudo, é apenas palavra.
Palavra que tomo emprestada, que revitalizo quando me tomam os ouvidos as vozes sufocadas. Palavra que desmereço: nego, imito, transponho, aqueço.
Essa é apenas palavra ritmada: palavra frouxa, palavra desenfreada. É apenas mais uma das minhas cartas sem causa. Palavra que bebo, vomito, redimensiono quando acordada.
Não é tragédia, não é fábula. Não é conto, não é novela. Não é romance, nem poesia. Não é epopeia, nem libreto de cavalaria. Não é realidade, nem fantasia. Não é letra de música, não é alquimia.
Pois essa carta não é uma carta de amor, nem objeto de estudo. Não é uma expressão de dor, nem mesmo um sussurro desengonçado.
É apenas palava. Palavra que desencaminho ao leitor.
Palavra que me veste os olhos d’alma e se deforma em vale de lágrima.
É apenas palavra, palavra que não se importa com as entrelinhas e se permite sozinha perder-se em curvas-linhas.
É apenas palavra. Palavra que não se cansa de se achar, de se perder, de chorar... Palavra que colore paisagens secretas, que fecha, empurra e abre portas entreabertas.
É apenas palavra. Palavra que se desfigura, não tem medo de sol nem de chuva; nem tem a pretenção de pretender, nem a falsa modéstia de não convencer...
Mas não é uma carta de amor. Não é um sonho, nem a quimérica ideologia de um suposto autor.
É apenas palavra. Expressão reflorescida no corte, na primavera, na dor. Mesmo assim não é uma carta de amor!
É apenas palavra. Palavra que pinta lacunas nas laudas. Palavra sem cauda que ora é notícia, ora vira fumaça.
Por ser nada e ser tudo não necessita de motivo ou de refúgio, apenas de um entretenimento no posfácio e de um sintagma bem elaborado no prefácio.
Por ser nada e, quase, ser tudo, leitor, dispensa referências e glossário, pois essa carta – que não é de amor – só precisa de um bom vocábulo!...



*Um bom vocábulo, texto adaptado pela autora para postagem em o Maria Clara, extraído do livro: “Agá-Efe: entre ruínas e quimeras” (Fernandes, Hercília: 2006, p. 83-85).
**Arte: José Ferraz de Almeida Junior.