Iemanjá
porque sou de agora
não me peça demora,
porque tenho pressa
não me cobre promessa,
pois admito engano
não me venha humano:
vivo prenha de mar
Renata de Aragão Lopes
Imagem extraída da internet.
Imperatriz
maior a intriga:
o que quer
a mulher
afinal?
ser vírgula
(parêntese)
e ponto final
ter pílula
(êxtase)
e gozo real
ser península
(ilha)
e terra continental
Renata de Aragão Lopes
Imagem: arcano A Imperatriz, de O Tarô Encantado,
de Amy Zerner e Monte Farber, Editora Siciliano.
Sacerdotisa
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.
Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?
Renata de Aragão Lopes
Imagem: arcano A Sacerdotisa, de O Tarô Encantado,
de Amy Zerner e Monte Farber, Editora Siciliano.
* Postagem Simplesmente Poesia (13)
autor: Eugéne Delacroix
* Na surdina *
( Cris de Souza)
In: Trem da lira
E nele me burilo
A rever gestos
Que se espaçam
Nesse mundo vadio
O silêncio me habita
Não é meu esse martírio
E nele me exilo
A romper restos
Que se esgarçam
Nesse fundo vazio
* Latente *
( Rita Costa )
In : Alma de Poesia
Quando mergulhei
no silêncio dos gestos
senti que pairava no ar
a essência do poema
E foi pela intenção oculta,
ritmada... dos versos
que, urgentemente, desejei
o cessar das palavras

Tela: Salvador Dali
* Parti *
( Taninha Nascimento )
In: No Rastro da Poesia
Sim, há uma ausência.
E como quem procura a lógica
saio ao encontro
da possível existência de mim.
Sem mais,
parti.
*Pensamentos de raiz *
( Úrsula Avner)
In: A Alma da Poesia
Sou planta de raiz profunda
caule cravado em terra úmida
o que sei de mim
é mera especulação
gotas que caem
no cochicho das folhas
na aridez do chão
na fluidez do vento da incerteza
no salivar da imaginação
* Itinerário do silêncio *
( Graça Pires)
In: Ortografia do Olhar
À espera de um momento de luz
retorno, sem hesitar, ao itinerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão
multiplicando as sombras.
Peregrina de outras luas,
resgato a música
que me restou da infância,
como um sobressalto,
ou uma canção de embalar,
ou água fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.
Estraga prazer :
notas de explicação que ninguém pediu:
Caros(as) Leitores(as),
O objetivo da presente postagem, longe de pretender uma análise literária dos textos apresentados, é propiciar uma reflexão sobre a influência das manifestações psíquicas do inconsciente na linguagem poética feminina, à luz da psicanálise e da própria poesia, observando a interlocução entre os textos e as imagens da postagem .
Na piscanálise, entende-se que a linguagem do inconsciente se dá por meio de expressões metafóricas, observadas nos sonhos, chistes, atos falhos, entre outras manifestações psíquicas, que possibilitam a emergência de conteúdo latente. Na criação poética, a linguagem também é metaforizada e transmuta a realidade através das entrelinhas, das figuras ou símbolos linguísticos.
O(a) poeta(isa) deixa vir à tona aspectos de sua subjetividade, permitindo, assim como na psicanálise, que seja expresso, parte do que está oculto, submerso, tal qual o corpo de um iceberg, em que apenas uma pequena parte é vista sobre as águas, enquanto, a maior parte do bloco de gelo está oculto. Dentro de tal analogia, a parte maior é o inconsciente, enquanto a parte menor é a consciência.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, entendia a poesia , entre outras formas de expressão artística, como "um domínio intermediário entre a realidade que nos nega o cumprimento de nossos desejos e o mundo da fantasia que procura sua satisfação."
Gaston Bachelard, filósofo, poeta, epistemólogo, tendo se aproximado da fenomenologia e da psicologia , considerava que a imaginação é a própria força criadora do psiquismo que se expressa por meio de um devaneio poético que exige disciplina : "poeta é aquele que fala no âmago".
Apesar das diferenças conceituais entre Bachelard e Freud, talvez se possa afirmar que ambos concebem a poesia como um modo específico de acesso ao inconsciente, ao lugar mais íntimo e misterioso do ser.
Na linguagem poética da notável escritora e poetisa mineira Adélia Prado, por exemplo, podemos contemplar a relação nítida entre a poesia e as questões do psiquismo no viés da psicanálise :
" Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus
pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor,
estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo... Como um
pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H
nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado. "
( In: Quero minha mãe - Rio de Janeiro: Record, 2005 )
" Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim "
( Sigmund Freud )
Bibliografia:
* FREUD, Sigmund. Obras Completas. Ed. Standart Brasileira, 1974.
* GASPAR, Ana Maria Mendes. " O lugar da psicanálise na obra de Gaston Bachelard. " Lisboa: CFCUL. Tese de Mestrado em História e Filsofia das Ciências, 2008.
*http://www.consciencia.org/
* http://pt.wikipedia.org/
* sugestão de leitura do livro : "Quando nem Freud explica, tente a poesia!", de Ulisses Tavares. Ed. Francis.
Às Marias
Maria dos morros dos velórios
das sacadas das calçadas
dos achados dos perdidos
da Maria-vai-com-as-outras
e da outra, a que fica
Daquela Maria que almeja
paixão preguiçosa
que mexe remexe acomoda
(não se atreve ir embora)
traveste-se em amor
Também da Maria-abismo
antro de perdição
Maria-bordô!
Da Maria de encantos mil...
Maria-rosa chocolate
branco neve algodão doce
Maria-espinho
Importada nacional
acadêmica analfabeta
executiva piloto de fogão
Maria do príncipe
(futebolístico ou não)
Maria que ama Maria...
Daquela que crê que reza que implora
que vai à igreja que despacha na esquina
que não dá bola
Maria da fome, dos talheres de prata
erudita popular
(“ir-me-ei...; toma lá da cá!”)
Maria boêmia abstêmica
avião balão
Maria, Maria...
Bruta lapidada
peçonhenta panaceica
(dese)equilibrada
puta indissoluta
(r)evolução estelar
Todas belas, todas manias
com ou sem cria
Marias emoção!
Sim, todo dia é dia de Maria!
que tomba levanta que sonha
que cala, das vozes-maria
Maria (im)perfeição
Maria poesia
- Ave, Maria!
Lou Vilela
* Adaptação de imagem by Lou Vilela
NOTAS:
- Salve, salve Marias! - às novas [vozes do Maria Clara] e às nossas de todos os dias.
- Cordiais saudações aos Josés que leem as Marias!
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