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Remoinho poético

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Percorrem os dedos trépidos
sem-nomes confins.

Às pedras, cOnToRnOs dialéticos;
às flores, aromas ciganos.

Da gênese ao apogeu
gozo e poiesis.

Lou Vilela
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Do falo à fala

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Tela de Vicente do Rego Monteiro


Meio loucas, meio santas
Rimam alternância
                            Lua
                                Sol

Meio putas, meio mantras
Freud em si
                    Menor
                             Bemol

Da penumbra à(o) Alvorada
Fiam rapadura
        Dão a cara à tapa
                 Parem rouxinol


Lou Vilela 
in Nudez Poética
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Elementar


De que é feito o poeta?

De matéria
etérea
ou concreta?

Do fato
que vivencia
ou da utopia
que projeta?

Ele é feito
de sopro
ou de barro?

Ele habita
o corpo
ou a alma?

O poeta levita
ou mergulha?

A escrita
lhe é fagulha
ou despiste?

O poeta acredita
que existe?




Publicação especial para Hercília Fernandes,
que se serviu deste poema, hoje, para inaugurar
Devaneios sobre o devaneio no Facebook.

In Maria Clara: universos femininos, 2010, p. 181.

A poesia e o mito


 
Edward Burne-Jones - Pan and Psyche



Conteve a poesia
com mãos de quimera:

soprou-lhe aos ouvidos
olhar sustenido
fina flor pagã.

Lou Vilela
in Nudez Poética



* Livre adaptação do mito de Pã.

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O bonde


 
O último bonde, Sandra Nunes


O tempo impreciso, necessário
Anda às voltas – turbilhão;

Deixa rastro de estrelas
Todas idas nalgum bonde
Caleidoscópica estação.

As cidades iluminadas
Mais parecem lá do alto
Liturgia, profissão;

Arrebentam todo dia
Os que acordam em romaria:
Bando de arribação.

Ecoam pelo sagrado
Medos, martírios, brinquedos
- Marionetes de colisão:

Há na fugacidade
Uma gente dissonante
Passos simples, claudicantes
Que se vinca em contramão.

Lou Vilela

in Nudez Poética
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Da poesia encarnada


Imagem daqui modificada por mim.

Discurso da carne

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entre as pernas, o ópio
(insana paixão);
no corpo, lilases.

na cama, o silêncio:
ressaca, um molho
de chaves.

a trama arrebenta
[união sem placenta]
discurso da carne.




“Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura [...]. Depois de trinta anos de feminismo, que impôs à sociedade o "quem ama não mata" como repulsa ao assassinato justificado pelo "matar por amor" e de consistentes mudanças na posição socioeconômica e nos valores relativos à relação homem x mulher, como explicar que crimes de gênero continuem a ocorrer?” (Blay, Eva Alterman. MULHER, MULHERES: Violência contra a mulher e políticas públicas.  SciELO  Brazil. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300006. Acesso em 31/01/11).

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Embrulhado em papel de pão

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Tomei um porre na esquina
Daquele que entroncha o sujeito
Senti o ar rarefeito
Formigamento na mão
Fiz uns versos, umas rimas
Esvaziei o segredo
Trancafiado no peito
Cuspido em papel de pão

Empolgado, dei vexame
Subi no banco da praça
Declamei com água nos olhos
Pra quem só fazia achar graça
Aqueles versos na mão
O papel todo amassado
Ali desvendava o mistério
Eu, homem sério
Trôpego de paixão

Quem não conhece essa flor
Desdenha de minha dor
Oferece remédio
Mulher cheirosa, fogosa
Que geme o nome da gente
Mas minha paixão renitente
Prefere ranger o dente
Cuspir em papel de pão

Quem sabe um dia ela ouça
Meus versos, minha prece
Sorrindo, logo se apresse
Cuspa em papel de pão
Um bilhete mais que sentido
Dizendo que de ouvido
Soube de minha paixão
E aceita casar comigo

Lou Vilela in Nudez Poética
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Fisiológico



La Dormeuse - Renoir


tua fome é carne
que me come;

é traje
que visto
pelo avesso;

trágica,
profética,
é tropeço;

prurido,
pecado
e perdão.

tua fome
exaspera
minha fome

- alimento
que abisma
e me mata.

Lou Vilela in Nudez Poética

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* Que venha... *

imagem : Duy Huynh

que me venha
a poesia
segredada
ao ouvido
que a reconhece
música cantada
á língua
que só experimenta
a palavra falada

que me venha
a poesia
se.gre.ga.da
partida em
pedras de cristal
feito luz
múltipla em cores
feito som natural
de fonte
de rio
de silêncio
preso em cada
canção não entoada

Úrsula Avner

Girassóis

Detail of Vincent van Gogh (1853-90), Sunflowers, 1889. Oil on canvas, 95 x 73 cm.
Van Gogh Museum, Amsterdam (Vincent van Gogh Stichting).




Corpos paredes lençóis
permissivos.
Sibilam bocas
provocam olhos ouvidos

: pontos encontros de peles pelos
partes intumescidas.

Tudo cala.

A brisa sopra horas vencidas.
Florescência.
O dia amanhece em paz.


Lou Vilela

 

* Poema publicado no "Balaio Porreta 1986" em 19/11/09.
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Nerudianas


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Prefiro que não, amada.

Para que nada nos amarre
que nada nos una.

Nem a palavra que aromou tua boca,
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem teus soluços perto da janela.

Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se deitam com a morte
no leito do mar.

(Pablo Neruda in Crepusculario)


Seria tua musa desde que
aprendêssemos a roçar
minha língua tua língua
envolvidas nesse mar.

Envolvidas nesse mar
suculentas nerudianas
mil histórias duas bocas
minha língua tua língua

alagadas tateando
aprendêssemos a roçar
enviesadas declarando.

Seria tua musa desde que
duas línguas um destino
soubessem conspirar.

(Lou Vilela in Nudez Poética)
   


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* Cativeiro *

arte : Gustav Klimt

o rio
ficou preso
em meus olhos
tão fundo em mim
tossiu tossiu
até engasgar

conheci um homem da lua
não me quis
casou-se com Maria Clara
escura como trovão

sou escrava do rio
( ou foi ele que cravejou cá dentro ?)
nunca mais
sairá de mim

Úrsula Avner

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" *

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Exploding Clock - Salvador Dali

 

Ao passante

Implacável o tempo sobre todos
os nomes. Fazer dele uma arte
espanto, extensão...
 
Lou Vilela

Imortal

Corta, perfura, remenda...

Da emoção, nasce o poema
No caos, morre o poeta.
Fim do primeiro ato!

Corta, perfura, remenda...
A cada poema,
Renasce do caos, o poeta.
Fim do segundo ato!

Corta, perfura, remenda...
Imortal é o poema,
A alma do poeta
Fim do espetáculo!



Lou Vilela in Nudez Poética 

* Citação no título: José Saramago.


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* Canção noturna *



o homem

da rua sem poste

esgueira-se do dia

tatua no corpo

o sol da meia noite

sombra estirada

na lápide do lume


olhos que veem

mãos que apalpam

sem a clarividência do sol

sem o estrondo do cotidiano

o homem da rua sem poste

há de viver cem (sem) anos


Úrsula Avner

* Esse poema foi postado no meu blog há um tempo atrás e hoje resolvi postá-lo aqui no Maria Clara... Um abraço a todos e todas.

Sobrei

Iman Maleki


Meu amigo me esqueceu

Ele é invisível como eu

mas conversamos, brincamos..... e,

em inaudíveis vozes nos encontramos

Conversamos, porque sozinho,

não tem graça jogar aviãozinho

meu amigo esqueceu que é invisível

como eu. Seu nome muda conforme o dia

à noite contamos medos e agonias,

mas agora que ele me esqueceu...

sobrou-me eu.



O poeta e a língua

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Através de um diálogo com o poema "língua"
do talentoso poeta Danilo Abreu,
presto uma singela homenagem
aos amigos poetas.



Il poeta.... un libro aperto - Pietro Barbera
acquerello formato 50x70 cm



na boca, sempre algo mais:
a língua que se lhe dis.puta
vogal ressonante ou parasita
propõe, invoca, catalisa
poesia até quando não dita.

aquele que à palavra jaz
en.verga, língua o seu caos;
singra à pele: sua assaz.sina.
formou-se mosca augural,
lambedor de cascas des.feridas.

 

Lou Vilela in Nudez Poética


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Sacerdotisa

Nasci com hábitos
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.

Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?


Renata de Aragão Lopes


Imagem: arcano A Sacerdotisa, de O Tarô Encantado,
de Amy Zerner e Monte Farber, Editora Siciliano.

* Rotina *


velha caquética

não sabe que já caducou


alma esquelética

no tempo estancou


arrasta seu chale puido

sapatos roidos

corpo moido


nas mãos rugosas

cheiro de mofo


nos olhos fracos

réstia de um brilho fosco


catarata



Úrsula Avner

* imagem disponível no google- sem informação de autoria
obs: o objetivo aqui, longe de enaltecer qualquer preconceito em relação ao envelhecimento, é usar elementos linguísticos relacionados socialmente á velhice, que apontam a rotina como algo sem vigor ou prazer, como em alguns casos de envelhecimento.

Da poesia redentora


já ousei desejar
a palavra certa
para uma poesia definitiva.

ainda que fosse capaz,
o que me restaria depois disso?

é pela incompletude
e suficiência fugaz da palavra
que a poesia salva

: é ponte de luxo
sobre abismo e caos.

: é cais dourado
beira-mar revolto.