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Da poesia encarnada


Imagem daqui modificada por mim.

Exaustão



tenho andado cansada
de tantas pedras na estrada:
ao meio,
às margens,
em planaltos
e vargens,
reais
ou miragens

tenho andado cansada
de minhas pernas na estrada:
com câimbra,
dormência,
dor
e ardência,
ânsia
e urgência

e não há chegada?
é sem fim
essa estrada?

tenho andado cansada
[de mim]


Renata de Aragão Lopes


Publicado em 26 de novembro no Doce de Lira.

Rasante



O que tem
no peito?
Uma caixa-preta
em perfeito
estado
que contém
cada dado
(indevassável)
de sua cabine:
o que pensa
(mente),
o que sente
(crença)
e até,
bem provável,
o que você nem define.

O que me soa
mais triste?
É que
(ao que parece)
você só existe
dentro da caixa
e voa,
amiúde,
em altitude
tão baixa,
como quem
desconhece
(incapaz)
a magnitude
(prece)
da asas
que traz.


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 19 de outubro no Doce de Lira.

* Momentos *


arte : Nanduxa


em momentos absolutamente meus
vejo-me ancorada ás areias do mar
facetas navegam em escunas
sentimentos aportados em dunas

nuvens esculpem no céu
aquilo que reconheço em mim
grãos de areia se agrupam
desenham rostos disformes
que as águas sugam

esquadrinho meu íntimo
encontro-me congelada no tempo
como se fora um ser que as águas salgaram
inerte vida que o mar e o vento emolduraram

Úrsula Avner

Dos elementos de vida

cavou e encontrou
a palavra-tesouro
: terra.





voou e sorveu
a palavra-leve
: ar.




ardeu e forjou
a palavra-forte
: fogo.





mergulhou e bebeu
da palavra-fluida
: água.




amou e descobriu
a palavra-certa
: vida.



Arte  de Steve Gardner

Viver?



Matisse-nua azul



Preciso imaginar a natureza. Já que não posso vê-la.

Preciso lembrar como era o amor. Se já brotava em dor...

Preciso saber como se faz para sorrir. Esqueci!

Preciso saber quem sou agora. Já que de mim, me perdi

Preciso inventar uma vida, onde os valores enfim,

possam renascer do nada, que deixaram num cantinho

de uma alma inexistente, por não saber do carinho.

Preciso aprender como se faz um laço,

Pois esqueci o sabor e o calor de um abraço.

E é assim caminhando nesse fio que acaba em nó

Que a existência se faz


S

Ó



* Facetas femininas do Éden *




Fonte da imagem: vidapimentada.blogspot.com ( sem informação de autoria )



O que se entende ser mulher

é gota em abissal oceano

mistério trancado a sete chaves

oculto atrás de véus e panos


a degustação do fruto proibido

lançou a sorte

definiu a direção da libido

de Maria, Ana, Teresa

daquela que tira e põe a mesa


da que ama em desvario

doidivana no cio

da que agoniza

em silêncio de arpão

no breu da solidão


daquela que faz da família

seu porto seguro

da que caminha sozinha

tateando da vida o muro


daquela que é prenhe de ideias

da que contempla numa tela vazia

um campo de azaleias


O salário do pecado é a morte

dor no ventre

sangra o corte

clamor nas entranhas

rasgadura na pele e na alma

reza de benzedeira

agonia de parideira



Úrsula Avner


* O verso "O salário do pecado é a morte" é bíblico