* Simplesmente azul *


há um azul abstrato
que se deita na claridade
ora discreto cordato
ora repleto de vaidade

azul que lateja entre estrelas
sobeja no mar á luz do sol
azul da chama de muitas velas
da luz que emite o farol

o azul das veias constrange
em dias azulados de inverno
um olho azul petrifica o instante
o corpo azulado fica quente e terno

a pétala azul é poliglota
a geleira azul da montanha o sabe
o azul do jeans que desbota
cobre as águas em contornos de ave

a língua azulada saliva
o amor que ficou no azul
do tempo do breve momento
do vagão que leva hálito sedento

É azul a cor de dentroCor do texto


Úrsula Avner

* imagem do google- sem informação de autoria

Postagem Simplesmente Poesia (19)


Poesia na escola


Substitui uma professora essa semana na disciplina de "Literatura na Escola". Fiquei pensando várias coisas que têm implicação aqui nos nossos blogs, por exemplo: quem é o nosso leitor? E, principalmente, como nos preparamos para sermos leitores de poesia? A primeira pergunta é mais fácil de ser respondida: somos nós, os autores, leitores de nossos poemas. Por uma razão clara, todos publicamos e divulgamos o nosso próprio texto. A segunda pergunta é um pouco mais complexa, e remete à escola e toda a problemática por trás.A experiência tem mostrado que a poesia não recebe espaço adequado nas aulas de leitura na escola.É um gênero literário cujas características são das mais variadas, podendo lançar mão de recursos semânticos, sintáticos e prosódicos.Especialmente nas séries iniciais, as rimas podem ser um recurso não apenas didático como também lúdico. A poesia infantil de Vinícius de Moraes cumpre essas duas funções, pelo menos.

O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo

No entanto, pouco se tem visto professores com um trabalho regular com relação ao uso de poemas como método de ensino. Esse pouco investimento se dá na maioria das vezes em razão do prestígio que outros gêneros ocupam. Ela carece, portanto, de um olhar mais atento no que diz respeito às suas possibilidades e ganhos para os alunos.No ensino fundamental, por exemplo, a poesia deveria ser muito mais explorada. O trabalho de análise pela estilística e a própria sonoridade poderiam muito bem ser aproveitados para uma pedagogia diversificada, onde a valorização não acontece apenas pelo lirismo da obra, mas pela riqueza enquanto potencial de conteúdo. Veja no poema de Sérgio Capparelli (uma discussão sobre bullying, por exemplo).

Não xingue de porca a porca
Ela vai ficar zangada.
Nem diga "deu zebra" à zebra,
Para não ter zebra zebrada.
Ó lesma, não digaa à lesma,
Mesmo estando atrasada.
E burro, não diga ao burro,
Vai fazer uma burrada.
Mas és um estouro, diga à bomba,
ela explode de risada.

O pouco uso de poesia em sala de aula está ligado à sua circulação na sociedade atual. Há tentativas de resgate através de saraus e jograis, cantadores e repentistas e da musicalização de poemas. No entanto, são movimentos esparsos que não afetam a escola a ponto de interferir no ensino de massa. Os tantos blogs de poetas contemporâneos poderiam ser aproveitados para esse trabalho. Veja no poema infantil de Úrsula Avner como um trabalho de alfabetização pode ser feito.

Aranha escala a parede
arranha o teto
tece sua teia
É tiro certo
quando cai em sua casa um inseto
A aranha engole
o coitado do bichinho azarado

Porém, esse parece ser ainda um espaço invisível ao professor, tanto pela pouca divulgação dos blogs, como pela dificuldade tecnológica. Não obstante, a leitura como atividade social já é um problema a ser enfrentado em nosso país. A poesia, nesse caso, é mais uma conseqüência da pouca literatura do povo. Além disso, o que se nota é que a poesia aos poucos se afasta do cotidiano rumo `as academias, tornado-se manifestação de uma elite cultural que se quer responsável pelo saber. A maioria de nós, escritores de blogs poéticos, somos professores. O texto poético continua inacessível à maioria. Mas, se por um lado, o texto poético tende a ter um leitor específico, por outro lado é papel da escola formar esse leitor. Assim, voltamos ao início, qual é a medida de poesia na escola? Gostaria que a resposta fosse positiva, mas seu status, infelizmente, não é.

Tempo (quando eu fizer 40 anos)

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.


Este poema é de Adélia Prado. Achei muito oportuno para essa semana
que completo a idade emblemática dos 40 anos. Não tenho problema algum, aliás, em revelar minha idade. Estou entrando naquele momento de vida em que não se tem mais vergonha do mundo.

Era uma vez...



Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido

(Ferreira Gullar)




Melhor assim!
Cedo ou tarde
me seria necessária.
Quero um vestido
de manhãs ensolaradas
e sapatos alados.



Naquela noite
serviram-se do melhor vinho da adega.

Era cedo, muito cedo para embriaguês.
E tarde - indiscutivelmente tarde -
para qualquer barulho.

Balbucios distraídos renderam-se
a Baco e a noite, silente e cálida,
pariu suas estrelas, testemunhas
de mundos distintos sem chão.




Espantei os fantasmas
destilei cicuta
um cretino
instigando, dis.puta!


Era tarde, chorei...
exorcismos, re.versos
ao avesso me vi
divino-perverso.


Mergulhei em esgoto
quebrei o mosaico,
uma vida fingida.


Cedo ou tarde, parti...
na mala um uivo
e um punhal
de saudades.



Era uma vez...




Lou Vilela in Nudez Poética
.



Postagem Simplesmente Poesia (18)


Per Augusto & Machina:

tumulto e racionalidade em intimidade



1. é louco ser solene.

....é lúcido ser louco!


2. se tenho, como última morada

....o som caleidoscópico da vida

....carrego matrizes, almas sombreadas.


3. meu coração de cavalo, meu ato de terra

....surrado dos demônios, ímpio em desvario.


4. quando surge de mim, fiquei varrido.

....e meu estado de coisa correu solto!


5. qualquer ambiguidade tem um tônus

....que corta toda a alma pelo avesso!


6. a dor fecunda das hostes:

....vou retomar meus laços com a vida.


(Romério Rômulo in: Abertura 1, p. 13, 2009).


Esta semana, ao retornar de breve viagem, pude sentir a agradável emoção de ter em mãos o livro Per Augusto & Machina, do poeta mineiro Romério Rômulo, lançado recentemente pela editora Altana.

O livro me fora oferecido pelo próprio poeta, que, além de me ofertar a obra com uma deliciosa dedicatória, me encaminhou mais uma de suas criações poéticas: o livro Matéria Bruta, lançado também pela Altana, em 2006.

As obras apresentam notória excelência literária e evidenciam a grandeza imagística e estilístico-semântica do poeta na captação e reverberização dos fenômenos que permeiam a existência humana e a atividade poética.

Além disso, os livros comportam excelência na apresentação visual e gráfica, incluindo ilustrações que, além de enriquecerem o suporte material, contribuem para inquietar o espírito dos leitores durante a apreciação e ressignificação textual. O que demonstra o zelo e o respeito do artista, igualmente da editora, para com a arte poética; apresentando, aos leitores, um suporte de qualidade, criativo e arrojado, compatível à beleza intrínseca à criação literária do artista.

No tocante ao Per Augusto & Machina, o livro apresenta-se composto por poemas que se distribuem em 127 páginas e conta com belíssimo prefácio, intitulado “Uma poética implacável”, escrito pela professora, crítica literária e poetisa Maria da Conceição Paranhos. Leiam-se algumas das falas da literata voltadas ao processo de criação do Per Augusto & Machina:


Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. [...] Desde o título, Per Augusto & Machina, o poeta des-capitaliza os vocábulos, quer rendê-los, observá-los e indagá-los sem mistificação, des-convencionando o arbitrário da língua. Por augusto e sua máquina, em favor de uma realidade mais real, em favor do homem-augusto, que assim grafado, adjetivado, nos remete a um ser humano restaurado à sua dignidade (in: Prefácio, 2009, p. 7).


Na obra, Romério Rômulo dialoga com o poeta Augusto dos Anjos e desenvolve, segundo Maria da Conceição Paranhos: “Temas recorrentes como a loucura, a corruptibilidade do corpo físico, a solidão, a morte buscam sua existência na linguagem, onde ganharão consistência e força de ataque, homem e cavalo” (in: Prefácio, 2009, p. 7).

Em abril deste ano tive o prazer de entrevistar Romério Rômulo em café literário virtual no Novidades & Velharias, cuja entrevista se desenvolveu, basicamente, em torno do Per Augusto & Machina; que, na época, encontrava-se em processo final de editoração. Na ocasião, uma das questões abordadas girou em torno da loucura. A partir dos versos “de quantas nuvens se faz uma loucura? / é construída a mão que bate o prego?”, pertinentes ao poema Uma bravura regenera a noite, interroguei Romério sobre a dialética loucura-racionalidade durante o instante criador, onde o poeta argumenta:


O criador, ou criativo, é aquele que foge do tom, que surpreende. Então, a loucura é um dado. Mas, e se eu consigo organizar essa loucura? O Oscar Niemeyer não organiza, faz prédios e cidades? Parece um contra-senso, um absurdo, e é. Mas, é real. Daí termos situações como o Rimbaud, que aos 19 anos se sentiu esgotado, ou o Niemeyer que, centenário, continua operando. Mananciais e construções, no caso, são diversos. Tumulto e racionalidade, aqui, são íntimos (in: Novidades & Velharias, 19 abr. 2009).


Hoje, lendo os poemas do Per Augusto & Machina em material impresso, a ideia central que me vem à mente, e, que de certa forma confirma minhas primeiras impressões de leitura, é que se delineia, no curso da obra, uma constante intimidade. Intimidade capaz de unir mundos aparentemente opostos, porém complementares: sonho e manualidade, vida e morte, imagística e historicidade, devaneio e intencionalidade; enfim, em o Per Augusto & Machina, parafraseando o poeta das minas gerais, “tumulto e racionalidade atuam íntimos e dividem mistérios”.


Notas


[1] Para saber mais sobre o poeta visite o blog Romério Rômulo e/ou leia a entrevista concedida ao Novidades & Velharias, em abril do ano corrente.

[2] Texto também postado em o blog Novidades & Velharias.


Referências

  • RÔMULO, Romério. Matéria bruta. São Paulo: Altana, 2006.
  • ______. Per Augusto & Machina. São Paulo: Altana, 2009.


hommo erectus

Mulata em rua vermeha, Di Cavalcanti. clique na imagem pra seguir rodando...



- és mulata? inquiria o europeu
entre olhos a brilhar e o queixo caiado.

e como não bastasse o beiço, carnadura lascíva;
os cabelos, carapinha em exuberância,
pôs-se a moça, largos dentes a umbigar.

- ai, que me enganaste! és preta pura, pai do céu!

e quedou-se a lundar, pecar equador abaixo...

único

**Poema inédito



Arte: Francielle


Ele inda longe...

mas não é ponte apartheid

distância é somente abismo geográfico

inalienável é esse amor sem fim

- poço profundo.



by hercília fernandes