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Pétala


se ela fosse

rainha:
rosa

princesa:
tulipa

fidalga:
lírio

plebeia:
jasmim

: formosa
em qualquer jardim



Elementar


De que é feito o poeta?

De matéria
etérea
ou concreta?

Do fato
que vivencia
ou da utopia
que projeta?

Ele é feito
de sopro
ou de barro?

Ele habita
o corpo
ou a alma?

O poeta levita
ou mergulha?

A escrita
lhe é fagulha
ou despiste?

O poeta acredita
que existe?




Publicação especial para Hercília Fernandes,
que se serviu deste poema, hoje, para inaugurar
Devaneios sobre o devaneio no Facebook.

In Maria Clara: universos femininos, 2010, p. 181.

Noite de São João


vem quentão
que a noite promete

acendi a fogueira
junto à colchonete

o céu está baixo
há estrela cadente

e a quadrilha é sem padre
pra casar a gente




"nas trincheiras da alegria
o que explodia era o amor"
Abel Silva e Moraes Moreira, em Festa do interior

Prenúncio



de tudo há sinais:
amor que veste colete
caminha pro cais.


A despedida se inicia bem antes do fim. (Twitter)


Publicado em 15 de abril no Doce de Lira.

Exaustão



tenho andado cansada
de tantas pedras na estrada:
ao meio,
às margens,
em planaltos
e vargens,
reais
ou miragens

tenho andado cansada
de minhas pernas na estrada:
com câimbra,
dormência,
dor
e ardência,
ânsia
e urgência

e não há chegada?
é sem fim
essa estrada?

tenho andado cansada
[de mim]


Renata de Aragão Lopes


Publicado em 26 de novembro no Doce de Lira.

Aos negros



que diferença faz
a cor da tua pele,
a textura do teu cabelo,
o passado da tua raça?

fica em paz!
o branco que se rebele
contra o próprio desmazelo
a irmãos de mesma graça.

- hipocrisia
de um povo mestiço
que se rejeita no outro
sem se dar conta disso.

- ignorância
de quem não percebe
que somos nós todos
de uma só plebe.


Renata de Aragão Lopes


Amanhã é Dia da Consciência Negra.

Rasante



O que tem
no peito?
Uma caixa-preta
em perfeito
estado
que contém
cada dado
(indevassável)
de sua cabine:
o que pensa
(mente),
o que sente
(crença)
e até,
bem provável,
o que você nem define.

O que me soa
mais triste?
É que
(ao que parece)
você só existe
dentro da caixa
e voa,
amiúde,
em altitude
tão baixa,
como quem
desconhece
(incapaz)
a magnitude
(prece)
da asas
que traz.


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 19 de outubro no Doce de Lira.

Defronte



E quem é você
para oferecer
conselho?
A ironia
de todo dia
diante do espelho.

Alguém
que já viveu
além do esperado?
O sarcasmo
em pleonasmo
disfarçado.

Ninguém lhe disse
ser tolice
o que pensa?
O desafio
em feitio
de ofensa.

Decerto que não
- respondi secamente -
que não sou de sermão,
mas de ser confidente.


Poema publicado em 10 de setembro no Doce de Lira.

Lírica



Sexo se faz com tão pouco:
corpo,
intenção,
movimento.

Amor é bem mais complexo:
alma,
atenção,
alimento.

Fato a que não se atravessa:
sexo sem amor é ato,
amor com sexo é peça.


Renata de Aragão Lopes


Publicado em 25 de agosto no Doce de Lira.

Crua



Assim
que chega
ao lar,
livra-se
de anel,
brinco
e colar...

Por isso,
não se tatua.
Sem o prazer
de despir-se
toda,
nunca mais
estaria nua.


Poema publicado em 12 de julho no Doce de Lira.

Amor de rendição



Se te sou motivo
de desagrado,
porque vivo
a te pedir
palavras
de apaixonado,
por que te manténs,
com tantos poréns,
enfim,
ao meu lado?

É assim
que amo
e bem conhecias
esses meus modos
de século antepassado:
o apego às poesias,
o apreço pelo fado,
o sossego das mãos
em repouso
no avesso do bordado.

Vazias,
mas sempre ao aguardo
de um afago
mais que querido,
tido por inesperado,
que te ponhas
a meus pés
rendido
e em minhas fronhas
enamorado...


Renata de Aragão Lopes


Poema publicado anteontem no Doce de Lira.

Imagem: A Girl Reading in a Sailing Boat,
de Alfred Chantrey Corbould, 1869.

Dias das mães (dos filhos)



Filho,

de todos, você é
meu melhor poema.

O único pronto, acabado,
de que não tiraria um ponto sentado,
uma exclamação em salto ou mesmo um trema.

Você é a poesia de que fiz a caligrafia em papel de seda...

A única que diz o que há bem lá no ventre de mim
e que carrega, assim, em voz entonada,
minha maior interrogação:

_ A vida seria em vão?
Pelo não, obrigada,

filho!



Renata de Aragão Lopes


Soneto blavino publicado no Doce de Lira,
em homenagem ao dia das mães,
em 7 de maio de 2009.

Fotografia minha.

Iemanjá

não me fale de ontem,
porque sou de agora

não me peça demora,
porque tenho pressa

não me cobre promessa,
pois admito engano

não me venha humano:
vivo prenha de mar


Renata de Aragão Lopes


Imagem extraída da internet.


Imperatriz

e quanto mais se investiga,
maior a intriga:

o que quer
a mulher
afinal?

ser vírgula
(parêntese)
e ponto final

ter pílula
(êxtase)
e gozo real

ser península
(ilha)
e terra continental


Renata de Aragão Lopes


Imagem: arcano A Imperatriz, de O Tarô Encantado,
de Amy Zerner e Monte Farber, Editora Siciliano.


Sacerdotisa

Nasci com hábitos
de coruja.
Minha garatuja
continha estrelas.
Sozinha,
ergui um templo.
A exemplo do sol,
persegui o equinócio.

Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.
Pelo poder da palavra,
escolhi-me poetisa.
Não seria
a poesia
um sacerdócio?


Renata de Aragão Lopes


Imagem: arcano A Sacerdotisa, de O Tarô Encantado,
de Amy Zerner e Monte Farber, Editora Siciliano.