Postagem Simplesmente Poesia (11)

Arte digital de Fátima Queiroz.

Ai, ai, ai
Henrique Pimenta

O guizo da serpente, um idioma
corrente nas colunas sociais,
presente nas manchetes, ele soma
o menos com a mentira ao muito mais.

A foto mal batida como toma-
tes podres sobre a fama do rapaz,
a moça, não celebra, desengoma,
difama, calunia por detrás.

É sino que badala sem aviso,
assanha, manipula com o badalo
façanhas e a peçonha ao paraíso.

O brilho com seu halo pelo ralo...
Sem Deus, o humano ofídio com seu guizo
compõe uma tragédia a Frida Kahlo.

FRIEDA. FRIDUCHITA. FRIDUCHA. MAGDALENA CARMEN. FRIDA KAHLO, por nina rizzi

“E no entanto, embora cada um tente
fugir de si mesmo como de uma prisão
que o enclausura em seu ódio,
faz parte do mundo um grande milagre:
eu o sinto: toda vida é vivida.”
Rainer Maria Rilke, Le livre du pèlerinage

Nome: FRIDA
Sobrenome: KAHLO
PINTORA
1907-1954
Nacionalidade: mexicana
Esposa de Diego Rivera
Admiradores dela: Trotski, Breton, Berggruen, Duchamp, Kandinsky, Murray, Picasso...

O primeiro quadro dela que vi foi Alguns piquezinhos. Fiquei estática diante da obra, tamanha era sua violência. A violência que eu vivi e vivo em cada amor, em cada dia. Eu era aquela moça assassinada; a moça assassinada era a mulher que abandonei. Soube depois que teve origem numa notícia de jornal: um homem esfaqueou a esposa e diante do juiz disse que deu “apenas alguns piquezinhos”...

Oswald de Andrade disse que a poesia está nos fatos, certamente os quadros de Frida Kahlo também. Poesia em telas. O cotidiano nas telas. Ela transforma o seu sofrimento em poesia, a poesia que se vê em seus quadros. Melhor que qualquer biografia é a sua própria obra, já que pinta o que vive, o que sente. Uma pintora original e fiel à sua originalidade, ao estilo que desenvolveu. Sua obra evolui conforme ela própria. De um “menino frustrado” a grande mulher mexicana em busca de suas raízes (ainda que para satisfazer um homem, o homem que ama), sem nenhum traço de estrangeirismo, nem mesmo influências de seu marido, também pintor, Diego Rivera.

Quando ainda era criança enfiou o pé em galhos e ficou manca, com o passar dos anos a perna foi se atrofiando. Aos Dezessete anos está num ônibus com seu então namorado Alejandro quando um trem lentamente vai esmagando o ônibus em que está Frida. Um ferro entra-lhe pelo quadril e sai de seu sexo. A coluna quebrada. Dores por toda a vida. A bailarina pintada de ouro. O ouro que cai em seu corpo ensaguentado.

“Meu corpo é um marasmo. E não posso mais escapar dele. [...] Meu corpo vai me soltar, a mim, que sempre fui sua presa. Presa rebelde, mas presa. Sei que vamos nos aniquilar um ao outro, a luta portanto não tem vencedor.”

Há quem diga que ela era muito narcisista (quem não o é?), devido aos seus inúmeros auto-retratos. Mas não é bem assim. Logo após o acidente ela teve que ficar de cama, pois estava com a coluna engessada. A mãe pensando em agradar a filha colocou um enorme espelho no teto do quarto. Frida odiou, mas nada disse à mãe para não magoá-la. Foi nesse período que começou a pintar. E ela pintava o que via. Seu rosto e busto, a barriga e as pernas não saíam debaixo das cobertas...

“O espelho! Carrasco dos meus dias, das minhas noites. imagem tão traumatizante quanto os meus próprios traumas. A impressão incessante de ser apontada com o dedo. “Frida, olhe para você.” [...] Eu perscrutava meu rosto, meu gesto mais insignificante, a dobra do lençol, seu relevo, as perspectivas dos objetos espalhados que me cercavam. Durante horas e horas, sentia-me observada. Eu me via. Frida dentro, frida fora, frida por toda parte, Frida ao infinito. [...] Mas de repente, ali sob aquele espelho opressor, tornou-se imperioso o desejo de desenhar. [...] A maneira clássica para aprender, eu utilizei um modelo: e mesma.”

O primeiro amor de Frida aconteceu aos quinze anos, antes do seu fatídico acidente. Conheceu Alejandro Gomez Arias na Escola Preparatória Nacional, a melhor do México. Depois de seu acidente a família deu um jeito de mandá-lo pra Europa com a desculpa de ampliar seus estudos, mas a verdade é que Frida Kahlo não era uma boa influência para o garoto, além de ser aleijada.

Abaixo uma das anotações dela sobre o seu amor distante:

“A distância torna as coisas fictícias... Sim... Não... quanto mais uma coisa se afasta, mais ela se aproxima ao mesmo tempo, pois passa a pertencer somente a nós, ao nosso próprio mundo. A cada um dos seus passos, meu coração estava com ele, menos pesaroso. E, entre ele e mim, não estava mais o oceano, mas sim meus quadros que pouco a pouco se criavam no meu espírito.”

Eu troco “meus quadros”, por meus escritos. Novamente, assim como os poetas, Frida externa sentimentos tão comuns a todos nós e, melhor: sem rebuscar.

Casou-se com Rivera, pintor mexicano.

“[...] Apaixonei-me por Diego e isso desagradou meus aos meus pais porque Diego era comunista e parecia, diziam eles, um Breughel gordo, gordo, gordo. Diziam que parecia o casamento de um elefante com uma pombinha.”

Se quanto à poesia podemos nos dizer Frida, eu, exteriormente digo-me o próprio Rivera, o macaco libertino!

“[...] Para mim, era um monstro. No sentido sagrado do termo, mas também no sentido próprio. Tudo nele era feito em tamanho grande. Produtivo, prolífico, transbordava de vida, de euforia, de idéias, de pintura. [...] Cobriam-no tanto de elogios como de insultos.”


O museu Frida Kahlo no México fica em Coyoacán. Na “casa azul” onde Frida morou.

Stálin havia “jurado” o permanente revolucionário Leon Davidovtch Trotski, então ele obteve asilo político no México, mais exatamente na “casa azul” de Frida Kahlo.

Como todos sabem, ela teve um romance com ele, mesmo este sendo casado com a Sra. Natália Trotski. Eles tiveram um romance quase adolescente. Escondiam-se não só de Natália, mas também de Rivera, que mesmo não escondendo suas proezas amorosas, era demasiado ciumento. Trocavam cartas que circulavam dentro dos livros que eles se emprestavam e perto de Natália falavam em inglês. Dizem que eles se separam por razões políticas já que as coisas não andavam fáceis pra o velho vermelho, um romance só poderia piorar a situação. Mas como em todos os casos de amor, nunca saberemos quem largou quem e porquê, e, na verdade, que importa isso diante da obra de ambos?

Frida chama Trotski, carinhosamente, de “velho” já que ela tinha vinte e poucos anos e ele cinqüenta e oito. Sabendo agora desse “apelido” e o nome da mulher dele, o que nos remete ao poema do Leminski:

o velho leon e natália em coyoacán

desta vez não vai ter neve como em petrogrado
aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado
aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando com em
petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado
aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

Frida, ao contrário da maioria das mulheres e principalmente homens, sabia que todo ser humano é bissexual por natureza, e não procurava esconder o fato dos outros menos ainda de si mesma, dava vazão a todos os lados.

“Tlazolteotl, a deusa do Amor, deve ter estado sempre comigo. Fui amada, amada, amada – não o bastante, porque uma vida não é o suficiente. E eu amei sem cessar. Com amor, com amizade. Homens, mulheres. [...] a mulher goza com todo o corpo, e que esse era o privilégio do amor entre mulheres. Um conhecimento mais profundo do corpo da outra, sua semelhante, um prazer mais total. O reconhecimento de uma aliada. [...] não havia medidas, só podia ser tudo ou nada. Da vida, do amor, tenho uma sede inesgotável. E, depois, quanto mais meu corpo estava ferido, mais necessidade eu tinha de confiá-lo às mulheres: elas o compreendem melhor. Espera tácita, doçura imediata.[...] Creio que somos múltiplos: acho que o homem traz o sinal da feminilidade, que a mulher traz o elemento homem, que os dois trazem neles a criança.”

Frida morreu em 1954, sua saúde piorara muito e ela para tentar dissipar a dor se entupia de álcool e remédios, já não tinha mais aquela força da sua juventude, já não tinha mais vontade de viver. Estava cansada.

Suas últimas palavras? Uma frase em seu diário: “Espero que a saída seja feliz e espero não voltar nunca mais.”

Por fim, um poema de Frida>>

Eu sorria. Nada mais. Porém a claridade se fez em mim, e no mais pro-
fundo do meu silêncio.
Ele, ele me seguia. Como minha sombra irrepreensível e leve.
Dentro da noite um canto soluçou...
Os Índios pareciam alongar-se, sinuosos, nas ruelas da aldeia.
Iam ao baile, envolvidos em sarapes, depois de beberem
mezcal. ma harpa e uma jarana por toda música, e por
toda alegria, as morenas sorridentes.
Ao longe, por trás do Zocalo, o rio cintilava. E ele se escovava, como
os minutos da minha vida.
Ele, ele me seguia.
Acabei chorando. Encolhida a um canto do pórtico da igreja,
protegida por meu rebozo de bolita, alagada em lágrimas.

E eu, alagada de mim, alagada de Frida Kahlo.

E pra quem quiser saber mais sobre Frida Kahlo o melhor é observar minuciosamente cada um de seus quadros, em ordem cronológica. Aí está sua autobiografia.

Para os mais sedentos:
- Frida Kahlo, de Rauda Jamis (em espanhol)
- A biography of Frida Kahlo, de Hayden Herrera (em inglês)

Pra quem não quer ler, veja no youtube (em inglês, mas melhor que o filme de Julie Taymor).

construção

imagem capturada na internet sem indicação de autoria. mas lembro de tê-la visto nos jornais lá pelos idos do doismilicinco...

nina rizzi

imagina só meu caro amigo, que logo eu
aos doze anos, na flor da idade
fui um milagre brasileiro:
uma morena de angola, dos olhos d'água,
moça da cidade e violeira na cidade dos artistas
uma cidade ideal pra minha canção, pra ver a banda passar,
curtir festa modesta ou a fantasia
sempre voltando ao samba na ciranda da bailarina.

era a moça mais bonita, a moça do sonho,
na ilha de lia, no barco de rosa.
ura na queda, desafiei o malandro e fiz
um casamento de pequenos burgueses num circo místico
numa noite de mascarados com um novo amor
(é que não existe pecado ao sul do equador).

mas como o cotidiano é cheio
de desencontros, desencantos, desemboladas,
feito um folhetim de esconde-esconde
deixei a menina, carioca ou francesa,
como num samba de adeus, pois é
qualquer amor, romance é como um retrato em preto e branco,
samba, agoniza, mas não morre a gente fica com tanta saudade
então como sentimental vamos sempre em frente na roda viva.

mas tem mais samba rei de ramos!
samba de orly, tango de covil, valsinha, um chorinho
sobre todas as coisas daqueles anos dourados!
sobre o tempo que passou, minha história.
não fui uma menina, trocando em miúdos, fui umas e outras
e pra não dizer mais tantas palavras fora de hora
façamos a lista do meu sonho de carnaval, das minhas meninas,
las muchachas de Copacabana as mulheres que fui:

ana de amsterdam
angélica
bárbara
beatriz
carolina
cecília
cristina
geni
helena
iolanda
iracema
januária
joana
leila
lola
lilly braun
luísa e luíza
madalena
maria
nancy
renata
rita
rosa
sílvia
teresinha.

palavra de mulher! fui todas as mulheres de atenas!
uma mulher em cada porto, com açúcar e com afeto,
sem açúcar, sem fantasia, sem compromisso de todas as maneiras.

mas essa minha canção, o meu último blues
é pra deixar de ser tudo que sou e que fui
por um sonho (quase) impossível:
ser a garota do leblon.
e se não puder... não sonho mais!

Perdição


Adão e Eva: Gustav Klimt



........................Afã!

................se fez

.........compota

....quando lua

............inteira

............-mente

..................torta

.....................maçã...


(07/09/09)


Pedra na lua*



Quando digo que não mais te quero

É a ti que eu venero.

Quando finjo um meio sorriso

É porque meu riso ainda é sincero.


Quando rasgo o véu e digo:

― O mel de tão doce virou fel.

Não me estranhes!

É porque ainda cobiço o teu céu.


Quando te escandalizo

E devoro o mito

Deformando Narciso

É para, logo depois, cometer suicídio.


Quando te esqueço,

E aquela voz velada aqueço

Me comprometo, rezo um terço

E me converto ao teu desejo.


Quando não te digo nada

E faço do silêncio a minha causa

É porque as palavras têm cauda

E já não me resta nenhuma lauda...


Quando me enfeito de diva

E repito: ― Sou eu tua Marília.

Não acredites, é tudo mentira!

Apesar do nome me fazer bem à rima.


Quando não sei quem sou

E te peço socorro

Não me dê a mão

Porque não te quero morto

Em meu coração.


Quando estou naqueles dias

A ponto de jogar pedra na lua

Me leves a sério, me leves pra rua

Me faças mulher, me deixes ser tua.

Mesmo que eu diga: ― Não!

Deixe a chuva cair

Pra lua reluzir de paixão.


Quando o tempo mudar:

― Me esqueças! E desapareças!

Porque o vento levou a contemplação...


by Hercília Fernandes




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A poetisa e professora universitária Adriana Karnal deixou-me abundantemente emocionada com o ensaio crítico: A poesia subjetiva de Hercília Fernandes. Aproveito o post para agradecer o belo gesto da poetisa e a convidar os amigos à leitura do artigo.


*Poema extraído do livro: Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 61).


Postagem Simplesmente Poesia (10)


Flores de luz azul




Não sei por que motivo


Às vezes

não sei por que motivo

afogo o olhar

em trágicos silêncios.

Para encontrar a luz

me bastava enfrentar

a noite, porque possuo

nos olhos o apelo

errante das sombras.

Pequenas traições

tatuadas na pele

são apenas pretextos

para disfarçar os medos.

Um remorso

germinando na lembrança

devolve-me o temor

de múltiplas solidões.


by Graça Pires


Doce pecado*


um doce pecado

um favo de mel

uma estrela que caiu do céu

- do céu

uma rosa que desabrochou

um beija-flor que a beijou

um nome para eu chamar de amor

- de amor

o meu amor

não é meu namorado

não é um caso é um mar agitado

onde ondas vem e vão

onde as pedras tristes sangram de solidão


by Hercília Fernandes


Carta frente ao mar (IX)



Minha Querida,


Vim até ao Mar. Brevemente, mas vim. Até si!

Não disse uma única palavra. Apenas a senti em silêncio.

E beijei-a, terna e apaixonadamente, aconchegado na lembrança.

O meu peito rebenta em emoção. Anseia pela sua voz, por essa sua suave expressão, que me estremece completamente.


Transbordo em sentir por saber o que pulsa incontrolável dentro de mim. Tenho tanto medo de a perder! Por isso, agarro-me à esperança.

É assim que de novo vejo o Mar. No mesmo lugar de ontem.

Hoje, as águas estão amenas e a luz é outra.

O instante da origem ocorreu e fui recriado. Foi um tsunami que me varreu!

Não foram apenas as águas que me preencheram. A sua voz abalou-me.

Há uma menina do Mar em si. Que voz doce e meiga! Nunca tinha ouvido uma sereia!

Ainda estou envolvido nas palavras incorporadas em silêncio.

Tudo ou nada? Respondi tudo. Recebi, nada.

Como desejava essa resposta!

Só se alcança o todo se este for formado pelo tudo e pelo nada.

Sabe, o amor tem que ser intenso e permanentemente rasgado por instantes de paixão!

E por si, sou arrebatado sem resistência. Em coerência com o sentir, pois não sei ser de outra maneira.

Se não me quiser, serei lágrimas desgarradas. E todas elas a amarão.

Mas continuarei a ser! Mesmo em cristalinos, que entregarei ao correr dos tempos como flores de luz azul que nos guiarão ao reencontro eterno.

Que inevitavelmente acontecerá!

Sei-o porque sou Multiverso. Dele criador e nele autor do tempo.

Mas acima de tudo, aqui, neste instante gerador de futuro, sou esperança.

E amor. Em azul!

Novos mares nascem, mas nós permaneceremos e criaremos em Luz.

Não pense. Sinta-o!


Um beijo terno, doce alma


by Vicente Ferreira da Silva




*Canção composta em parceria com Marcus Vinícius há longínquas águas...

**Fotos disponíveis no Google Imagens.

possuída

estudo para tela/ rafael godoy

a manhã pede um pouco de gosto pela vida
o sol aparece depois de tanta chuva
acontece que o mofo se instalou nas minhas veias
nos meus cabelos nas minhas unhas
o mofo está cobrindo meus olhos
e criou musgo na minha boca
os sons que chegam são quase inaudíveis
tenho medo de ouvir minha voz
e perceber não ser minha
os gritos da guerra estão próximos
e não os ouço
o coração está úmido e verde
o lodo que cobre as paredes e os muros
tomou conta definitivamente de mim

Ah! Se.......


Arte: Renoir


Gostaria de ter a engenhosidade métrica de João Cabral,
Ou proclamar pedras e a natureza como Manoel de Barros.
Um pouco de sensualidade, também não me faria mal
Inspirar em meus poemas as inquietações de Clarisse
Voltaire, Bachelar, Balzac, Pessoa, Mário de Andrade...
No entanto, seria apenas um sonho a se tornar realidade.

Talvez pudesse cantar estrelas, invadir o mar com rosas
Ter em mim um pedacinho que fosse de Guimarães Rosa.
Mas simples em meu dizer, contradigo o reverso e vivo
No adverso do eu que pretendia ser, como uma pedra
Que dilata a solitude, a tristeza e ofusca a luz , onde crivo
Poemas que crio e revejo o que não queria dizer e digo.

Creio em mim como um ser nativo no mar, mas ainda
Envolta em concha, teima em não abrir e arder à palma.
Em metáforas, metonímicas, na semântica que fico a dever
àqueles que meus versos lêem e só encontram uma alma
que ao escrever um poema, acalanto ou prosa, acalma
o espírito, que existe na poeira cósmica de um centrado ser,

Que foi vivendo, e mesmo lendo, chorou e emudeceu.
Me comovo demais e me perco de mim. Assim sou eu.


Postagem Simplesmente Poesia ( 9)


* Canções de Lya Luft *



Odalisque Reclining on a Divan ( 1827- 28 )
By: Eugéne Delacroix


Fruto de enganos ou de amor
nasço de minha própria contradição
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluidos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.

Terei meu par de asas
cujo voo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
_ como, debaixo da árvore,
um caule
e sua flor.

( Lya Luft )

texto sem título
In: Perdas e Ganhos - Rio de Janeiro : Record, 2004

* texto postado ( pretensamente) de acordo com o novo acordo ortográfico


Caros (as) leitores (as) ,

É um grande desafio e responsabilidade comentar a obra literária de tão expressiva e admirável autora. Todavia, de algum modo, sinto-me "em casa" , paradoxalmente confortável e intimamente inquieta, reflexiva, como a Odalisca no Divã, retratada pelo pintor francês do Romantismo- Eugéne Delacroix. Em parte, tal estado de conforto, se deve á minha identificação com o estilo e conteúdo observados na escrita da referida autora, a qual me seduz e transporta para seu rico universo interior, instigando-me a perscrutar o meu.



Lya Luft ( embora dispense apresentações ), iniciou sua carreira literária em 1980, aos 41 anos de idade, com a publicação do romance As parceiras. Além de escritora, Lya é tradutora, professora de literatura e mestre em Linguística e Literatura Brasileira.
Seu primeiro livro de poesias recebeu o título de Canções de Limiar ( 1964). Daquela época até os dias atuais, a autora vem nos presenteando com tantas outras canções através de memoráveis textos e obras literárias.
Lya Luft é voz feminina forte, eloquente; mulher cujo universo interior parece transbordar nas linhas e entrelinhas de sua escrita , como podemos observar no livro Mar de dentro ( 2002).
A escritora nos convida a refletir com ela quando registra inquietações do tempo presente, estabelecendo um diálogo constante e profícuo com seu (sua) leitor (a) a quem define " amigo imaginário ".

" Escrevo propondo uma releitura dos valores
familiares e sociais de meu tempo "
( In: Pensar é transgredir , 2004 )

É interessante notar que muitas das poesias e textos literários da autora, apresentam no título a palavra " Canção "- Canção do amor sereno ; Canção das mulheres, Canção da plenitude ...
É na simplicidade e veemência de seu canto que Lya afirma :

" O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento,
um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. "
( In: Perdas e ganhos, 2004 )

Ao contemplarmos a tela do pintor Delacroix, percebemos a mulher perpassada por luzes e sombras, retratada com paixão pelo artista. Tal obra nos remete para a complexidade do universo feminino destacado com tanta propriedade pela autora. É rica a analogia que se pode estabelecer, por exemplo, entre o espelho decantado por Lya no poema postado e o divã na tela de Delacroix, como símbolos do encontro consigo mesmo, da auto-reflexão, do voltar-se para si ; em que as luzes e as sombras se misturam , se encontram , na interdependência das partes de um todo. A Odalisca de Delacroix , aparentemente descansa serena sobre o divã, com a luz incidindo sobre parte de seu corpo, enquanto seu rosto e a outra parte do corpo, são permeados por sombras, de onde se apreende aspectos do mistério inerente á figura ( alma) feminina , retratada por uma figura masculina.

Depois de lermos e ouvirmos o belo canto de Lya Luft, destaco uma singela homenagem á autora, através do meu canto, onde sinalizo em itálico títulos de obras e textos da escritora.


Canção para Lya

Ao som aprazível da Flauta doce
em cantilena adornada de poesia
traz no dorso das palavras
o Mar de dentro
inquieto e fértil
em múltiplas ondas

de Perdas e ganhos

O ponto cego
tão visível
em túneis do inconsciente
aguça-lhe a voz
que se propaga
na Canção das mulheres
como em várias outras canções
numa perene necessidade
de ser A sentinela de si mesma
a perscrutar O lado fatal
em Secreta mirada

Ou talvez, no corpo da noite
quando esta se torna sua morada
ou O quarto fechado
com a intrepidez
de Um rio do meio
lhe impele a inventar
Histórias de bruxa boa
posto que ainda encontra em si
a menina perguntadeira
que reune Histórias do tempo
Para não dizer adeus
não agora ; pois,

Em outras palavras
o tempo é hoje
e ainda é cedo

Não há Exílio
apenas uma Mulher no palco
da vida , da história literária
que de forma coloquial
expõe seus pensamentos
sem esquecer

que Pensar é transgredir
Exibe seus talentos
suas inquietações
sem esquecer

que é feita de luzes e sombras


Por: Úrsula Avner

Lya Luft é voz feminina a entoar seu canto na literatura brasileira... É voz feminina no Maria Clara : Simplesmente Poesia


Fontes de pesquisa:

http://www.releituras.com/
Livros da autora Lya Luft já mencionados na postagem

Momento retrô


O velho violinista - Picasso, 1903


"Amor condusse noi ad una morte" Dante, Inferno



o que mais me dói agora
é ver esse infinito amor findado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
( perdido, posto, finado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
( meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada fria
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar o sentir que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente

.