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Postagem Simplesmente Poesia (10)


Flores de luz azul




Não sei por que motivo


Às vezes

não sei por que motivo

afogo o olhar

em trágicos silêncios.

Para encontrar a luz

me bastava enfrentar

a noite, porque possuo

nos olhos o apelo

errante das sombras.

Pequenas traições

tatuadas na pele

são apenas pretextos

para disfarçar os medos.

Um remorso

germinando na lembrança

devolve-me o temor

de múltiplas solidões.


by Graça Pires


Doce pecado*


um doce pecado

um favo de mel

uma estrela que caiu do céu

- do céu

uma rosa que desabrochou

um beija-flor que a beijou

um nome para eu chamar de amor

- de amor

o meu amor

não é meu namorado

não é um caso é um mar agitado

onde ondas vem e vão

onde as pedras tristes sangram de solidão


by Hercília Fernandes


Carta frente ao mar (IX)



Minha Querida,


Vim até ao Mar. Brevemente, mas vim. Até si!

Não disse uma única palavra. Apenas a senti em silêncio.

E beijei-a, terna e apaixonadamente, aconchegado na lembrança.

O meu peito rebenta em emoção. Anseia pela sua voz, por essa sua suave expressão, que me estremece completamente.


Transbordo em sentir por saber o que pulsa incontrolável dentro de mim. Tenho tanto medo de a perder! Por isso, agarro-me à esperança.

É assim que de novo vejo o Mar. No mesmo lugar de ontem.

Hoje, as águas estão amenas e a luz é outra.

O instante da origem ocorreu e fui recriado. Foi um tsunami que me varreu!

Não foram apenas as águas que me preencheram. A sua voz abalou-me.

Há uma menina do Mar em si. Que voz doce e meiga! Nunca tinha ouvido uma sereia!

Ainda estou envolvido nas palavras incorporadas em silêncio.

Tudo ou nada? Respondi tudo. Recebi, nada.

Como desejava essa resposta!

Só se alcança o todo se este for formado pelo tudo e pelo nada.

Sabe, o amor tem que ser intenso e permanentemente rasgado por instantes de paixão!

E por si, sou arrebatado sem resistência. Em coerência com o sentir, pois não sei ser de outra maneira.

Se não me quiser, serei lágrimas desgarradas. E todas elas a amarão.

Mas continuarei a ser! Mesmo em cristalinos, que entregarei ao correr dos tempos como flores de luz azul que nos guiarão ao reencontro eterno.

Que inevitavelmente acontecerá!

Sei-o porque sou Multiverso. Dele criador e nele autor do tempo.

Mas acima de tudo, aqui, neste instante gerador de futuro, sou esperança.

E amor. Em azul!

Novos mares nascem, mas nós permaneceremos e criaremos em Luz.

Não pense. Sinta-o!


Um beijo terno, doce alma


by Vicente Ferreira da Silva




*Canção composta em parceria com Marcus Vinícius há longínquas águas...

**Fotos disponíveis no Google Imagens.

Elas cantam amor (3)



Vazio

Lou Vilela



A mesa posta o choro da vela

um cheiro almiscarado

dois corpos ladeados

lençóis em desalinho:


lembranças que destoam daquele lugar vazio.


Saudades da paixão que gotejava sobre o telhado

escorria pela bica fertilizava a terra.


Mãos tombam sobre a mesa, impotentes.

Abraçam-se os dedos:


- “Seja feita a Sua vontade”...


In: Nudez Poética



Da tua ausência

Graça Pires



Voltarei sempre às paisagens da tua sombra

enfeitada de madressilvas.

Gravarei o teu nome em todas as árvores,

sem marginalizar as razões da tua ausência.

Cantarei palavras sem espessura,

como moinhos de vento,

ou o frágil sabor da chuva.

Dançarei contigo na periferia da manhã

e direi onde começa e acaba

o secreto destino do silêncio.


In: Ortografia do Olhar



Amor maior

Hercília Fernandes



Cantarei a esse amor

(sempre, quando)

Cantarei a ele, amor maior,

conspiração minha e desengano.


Cantarei nas tardes serenas

e nas águas turvas também.

Cantarei com extrema doçura

a esse amor que só vai e vem.


Cantarei se preciso for

para ninar a dor e o silêncio.

Não sufocar tamanho amor

nem a tarde e o firmamento.


Cantarei sem que mereças

ou, mesmo, que me peças.

Cantarei para que não esqueças

a lua, a chama e a promessa.


Mas calarei quando preciso

(sem choro, sem vela)

Fragmentos do meu riso

fina-flor-estampa na aquarela.


In: HF diante do espelho