Dias das mães (dos filhos)



Filho,

de todos, você é
meu melhor poema.

O único pronto, acabado,
de que não tiraria um ponto sentado,
uma exclamação em salto ou mesmo um trema.

Você é a poesia de que fiz a caligrafia em papel de seda...

A única que diz o que há bem lá no ventre de mim
e que carrega, assim, em voz entonada,
minha maior interrogação:

_ A vida seria em vão?
Pelo não, obrigada,

filho!



Renata de Aragão Lopes


Soneto blavino publicado no Doce de Lira,
em homenagem ao dia das mães,
em 7 de maio de 2009.

Fotografia minha.

* visão de mundo *



arte:  flying to the liberty

by: Mel Gama


eis que piso estranho chão

terra, pedra, cimento
caminho de ermitão

nas estradas sigo atenta
conduzo risos e ais
até que o anjo toque a trombeta

o ser humano nasceu pois digo
para estar só

a solidão é um estar consigo
até que se condense o pó

conviver é apenas subterfúgio

na solidão o ser percebe-se inteiro
conhece a si mesmo e se escuta
percorre sombras atrás do luzeiro

a multidão é campo de refúgio

quando por fim
jogarem ao mar
sobras da vida enclausurada
na urna do que fui

aglutinarei a outros segredos
do que se entendia amar
partículas flutuantes na enseada
fragmentos da perene vida que flui



Úrsula Avner


Da noite da alma

Imagem de Holly Henry

Dedico esse poema à doce Kenia, do Poesia Torta, 
em resposta ao poema #298


Escuta, minh'alma:
sob o véu enegrecido desse silêncio,
sob o breu resplandecente desse céu
a dor - alarmada pela luz
grita! com brados clamantes:
- sou tua!

Agarra-a, não a negues:
não é mentira o que ela diz.
Assume-a como condição
da tua condição.

Apesar dela
e por ela
é que tu és.

E se ela te cobre
e te traz noite,
é para o teu sol de dentro
nascer majestoso na aurora.

Talita Prates


"E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder... pra me encontrar..."

Pour Adélia

O que me move Adélia
é o lado.
O lado do dia,
da noite que eu lia.
O cavalo alado
a dália
os dedos na luva.Desvira.
O lado da palma da mão
que ladrilha .

O que me move Adélia,
é o lado lúdico da vida
que me Desfia
Desafia.
Meu lado Adélia,
quem dera!

O poeta e a língua

.


Através de um diálogo com o poema "língua"
do talentoso poeta Danilo Abreu,
presto uma singela homenagem
aos amigos poetas.



Il poeta.... un libro aperto - Pietro Barbera
acquerello formato 50x70 cm



na boca, sempre algo mais:
a língua que se lhe dis.puta
vogal ressonante ou parasita
propõe, invoca, catalisa
poesia até quando não dita.

aquele que à palavra jaz
en.verga, língua o seu caos;
singra à pele: sua assaz.sina.
formou-se mosca augural,
lambedor de cascas des.feridas.

 

Lou Vilela in Nudez Poética


.

Velada

Foto: Lara


A parafina da vela me queimou
Acaba a luz, e a mesma novela:
Tatear pelo isqueiro
Procurar a dita cuja
Andar pela casa com ela na mão
E a cera a escorrer.
Até pôr a casa toda alumiada...
Melhor ficar com a escuridão
E a hipnose de observar
O brilho tonto no pavio a dançar
Ao leve suspiro da minha ostentação.
Enquanto a luz não volta
Tateio a parafina seca
Grudada à minha pele
As formas em que se derramou
- A geometria -
Deixam-me a imaginar
O fulgor derretendo a vela
Ela, tortas esculturas
No meu corpo a (des)velar.

manoel-ando

Nina Rizzi, colecionando nuvens, Fortaleza/ CE, 2010.

nina rizzi

transbordam em mim reminiscências:
águas que me secam, redundâncias de me sentir.

se o ocaso está repleto de ciscos, reticências,
serei eu mais que o completo vazio?

(guardo meus olhos na sarjeta mais distante e suja)
*

Essa coisa...


Diálogo entre miudezas.


[ é essa coisa lenta
que me faz disparada
alenta fogo lamento
cavalo cavalgada ]

(lent(e)dão: 16 mar. 2010)




Que coisa seria essa?...

(Essa?...)

Essa que me toma inteira e não me governa!?
Faltam-me palavras para descrevê-la...

(Então, melhor, talvez, não tê-la!)

Poderia ser a lua
Se branca, cheia, me levasse à rua.

Poderia ser pássaro encantado
Se, ao lado, figurasse colorido cenário.

Poderia ser a chuva
Se, nela, pousasse véu de brandura.

Poderia ser nota só
Se, notada, valesse um dó!

Poderia ser fogueira
Se, lenha, queimasse a ribanceira.

Poderia, poderia, poderia...

Há algo de urgência
Há algo de silêncio
( in-de-cên-cia )
Algo vão desmedido!

Poderia... 


(Essa coisa: 7 jun. 2007)



*Imagem extraída do Google sem indicação de autoria.