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Inalado


ninguém sabe
que esse verso é proibido

o sentimento nele incluso
traz árduas lembranças

Tela de Marc Chagall

não posso te tocar
sem me tirar um pedaço

mas deixo seu perfume
na essência do poema

Há...

Há...

...aqueles que escrevem
arrematando a alma
fio a fio

que transformam buracos negros
em vertigens para se entrar e sair
a bel prazer

os que traduzem, recortam
fazem colagens dadaístas
sopas de letrinhas

que me silenciam pela perfeição
ou me desandam a falar
pela compatibilidade
de nossas vidas desgarradas.

Morro e nasço todo dia
em frases de tantos
[sinto alguns lado a lado

eu mesma, não sei o que faço
além de cuspir e alinhavar
fiapos.


Olvidada

Tela: Henri de Toulouse-Lautrec


Escutei pelos outros
Sobre o seu futuro
Planos todos
Do papel para o ar

Deixou bater o vento
E não se abateu por nada
Foi-se sem mistério
E eu, sem notícias

Soube dele
Por aqueles em comum
Entre nós
Mais nada

Sequer o ouvi
Falar de mim
Nem pelos mais
Conhecidos

Não escutei meu nome
Da boca dele para fora
Nem isso
Nunca mais


DESCONVERSO

Tela de Pablo Picasso


Eu te faria um poema
Mas você foi embora
Carregou alguns versos
Remendei o que podia
Nem era nada de amor
Ou algo parecido
Só escreve assim quem é poeta
Sou só meia
Tigela
Nunca cheia
Vejo tudo da metade
Vazia
Minha mistura orgânica
Dá sempre nisso aí
Revelia

Se eu olhasse nos seus olhos
Não diria jamais não
Para o meu corpo não me (a)trair
A você, não me dirijo
Só neste escrito
Que não é de amor
Nunca seria
Verdade
O que aqui não admito
Mentira
[Você pontua


Fé cega


Meu cão de guarda rosna baixo
para a presença que ele só ouve
e que eu só sinto
ambos não veem
o visitante que se acomoda
sem ser convidado
Sua presença exala tanta solidão
que o deixo ficar
Não imagino quem seja, se:
espectro, imaginação ou resto de fé
mas poucos cruzariam minhas portas trancadas
e após engolidas todas as chaves
quem se atreveria a bater?
A espécie de alma pressente minha angústia
e atravessa paredes
senta-se sem cerimônias no chão
Meu cão, confuso
observa o ar que se movimenta
olha para mim enciumado
como se interrogasse
o que seria mais aquela companhia
c(o)alada no meu rastro.



Filho pródigo


Para aquele que saiu do mesmo útero, mas não entrou no mesmo mundo


Não sabe ouvir
mas fala pelos cotovelos
punhos e joelhos

qualquer momento é de raiva
movimento, só na defensiva
o desespero é tanto para achar a palavra
a tanta razão é nada
comparada ao que ele consegue exprimir
quando eleva o tom e abaixa o nível

ganha qualquer um
no grito
me diminui
me faz querer morrer
tantas vezes
ou nem mesmo tentar

não sabe dialogar
mas não cala
e espalma sem remorso
o que os outros lhe dizem
pensa que todo conselho é mentira
é tentativa de homicídio de sua mente
doentia

para ele, toda palavra proferida
é contra a sua pessoa
e um dia, será mesmo.

Vaporizada

.
.
Olhos com ranhuras vermelhas
[presente da madrugada.
Ao som de Paco
fecho minhas órbitas oculares
e deixo-as arder no firmamento
[veias irregulares que pulsam
ao redor de minha visão bicolor.

Não é só sede, agonia... é fricção
esfrego-me em suas lembranças
e deixo o resto para o café da manhã
que nem tomo
mas espero você por detrás do vapor
corizando intrigada:
seria eu só mais uma menina
dos seus olhos baços?


Pudor

Tela de Edgar Degas


Só eu posso me despir dos meus anseios
Estar nua refletindo a penumbra da madrugada
Cometer em pensamento quase tudo que dizem ser pecado
E me vestir sozinha quando o primeiro raio de sol
Evaporar meu orvalho tímido e incontrolável
Que adentra umedecendo-me todos os sentidos.

Tela de Frida Kahlo


A comida é indigesta
desce soluçada
quase volta.
O choro impede
o percurso de algo
que só alimenta o óbvio.


Tela de Vincent Van Gogh


Delimitada, instável
apago o resto da tarde
que se enfiou sob o
meu lençol pranteado
e junto a mim se ensopou.

Chorinho

O bandolim tem uma tristeza que chora
se eu choro, não sei se no mesmo tempo
com uma intensidade resvalo
minha identidade num instrumento

tudo o que toco, desafina
não se aproxime, pois
do meu tocar que não é de lira
nem cítara, nem penar
não dou tanta corda
se o faço é para te ver dançar

na lamúria das suas pausas
nas notas da minha agonia
dedilho miudinho, e eu vou
na orquestra sem maestria
diminuindo.

Velada

Foto: Lara


A parafina da vela me queimou
Acaba a luz, e a mesma novela:
Tatear pelo isqueiro
Procurar a dita cuja
Andar pela casa com ela na mão
E a cera a escorrer.
Até pôr a casa toda alumiada...
Melhor ficar com a escuridão
E a hipnose de observar
O brilho tonto no pavio a dançar
Ao leve suspiro da minha ostentação.
Enquanto a luz não volta
Tateio a parafina seca
Grudada à minha pele
As formas em que se derramou
- A geometria -
Deixam-me a imaginar
O fulgor derretendo a vela
Ela, tortas esculturas
No meu corpo a (des)velar.

Prostrada


queres a presença
o detalhe do toque
a sugestão do vento
ao roçar a pele áspera

encontraste uma parte
do vazio que ensandece
no contato de teus dedos
que abriram a ostra seca

onde fica a razão quando
na ardência imaterial
perde-se do desejo
a dimensão?




*Detalhe da tela A Pérola da Poesia, de Sr. do Vale

Suspensa no ar

Tela de Edvard Munch


Disseram-me para tentar o riso, a cor, o som...
Então
embrenhei-me num mundo de roteiros sem fim.

Agora haja quem:
auscutará cada volume que criei
arquitetará os prédios sem topo que escalo
e verá o que ainda escondo entre feno e pluma

para achar o que perdi e emendar no caminho
que resolveu empac(ot)ar meus sonhos.

LARAMARAL

Clara Névoa

Tela de Gustav Klimt

Se meus olhos enxergassem
através da brancura espalhada
por tua neve que cai até avolumar-
se na altura de meus joelhos

estaria demasiadamente entregue
às tuas províncias lacônicas
que me redescobrem em telas
predominantemente impressionistas.

Se minhas pupilas rasgassem
toda tua escuridão e dilatassem
em pleno breu teu nu, pintar-te-
ia nessa tua pose de Nova Vênus.

Fechando os olhos, concentro-te
em minhas têmporas, e sei que
poderia te ver, não fosse tua ausência
acortinada um palmo à minha frente.