a duas mãos

 


a ausência dela choveu tanto
dentro de mim

que o meu coração borrou
flores de algodão em seu dorso.

Mas era tarde.
E, à ave, não coube voo ou deporto

[ então, chorei.





*Imagem localizada aqui.

Parti[tura]









Afino os sentimentos

Orquestro as palavras

No silêncio busco a melodia mais pura


Quando minha alma se parti[tura]...

Toco a poesia






(Wania Victoria)



Fotografia on DevianART by Bittersweetvenom 




véspera

desenho de carcarah

de noite veio um bêbado
andando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
ficou olhando aquela coisa iluminada
sentado na calçada com a garrafa em suas mãos
pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha canção
viu neve onde havia chuva fina
um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

Chão de Estrelas

arte: Rob Gonsalves



Um chão de espelhos onde a lua 
prosa e nua pode sempre se olhar
os barcos em rota sua a navegar

Miragem em pleno olhar
quando o ceu azul  se formar
As estrelas terão seu brilho
refletido no chão que piso.

Exaustão



tenho andado cansada
de tantas pedras na estrada:
ao meio,
às margens,
em planaltos
e vargens,
reais
ou miragens

tenho andado cansada
de minhas pernas na estrada:
com câimbra,
dormência,
dor
e ardência,
ânsia
e urgência

e não há chegada?
é sem fim
essa estrada?

tenho andado cansada
[de mim]


Renata de Aragão Lopes


Publicado em 26 de novembro no Doce de Lira.

*Alguma inundação*

fonte da imagem: Google- sem informação de autoria

de me fazer chuva
andei umectando sonhos
encharquei desejos
até estirar feito rio lambido
seco de (a)mar

Úrsula Avner

* inspirado nos poemas da postagem " diálogos de rio e mar " de Nina Rizzi
e Hercília Fernandes.

Fisiológico



La Dormeuse - Renoir


tua fome é carne
que me come;

é traje
que visto
pelo avesso;

trágica,
profética,
é tropeço;

prurido,
pecado
e perdão.

tua fome
exaspera
minha fome

- alimento
que abisma
e me mata.

Lou Vilela in Nudez Poética

.

diálogos de rio e mar

Encontro do rio com o mar, fotografia de Gilson Viana, in: Olhares.

molhada,

me levanto de madrugada
pra te ouvir chover.

(nina rizzi)
*

estados
hercília fernandes

não tendas a decifrar-me,
amado meu

hoje estou chuva
: amanhã, saberá Deus?

nuvem muda...
*

outra variação
nina rizzi

em causa de te sonhar
minha noite se fez dia
e me calcei de nuvens.
*

feito rio
hercília fernandes

há tanta saudade
- dentro de mim –
sou capaz de fazer
sangrar o Itans
tamanha a escassez
dos dias das noites
que se alonga alonga
feito rio
*

crepúsculo sobre o rio acaraú
nina rizzi

há nos meus olhos uma beleza tão triste:
tamanho é o estio, que até os carnaubais
estão assim, feito meu peito

árido.

Á
R d
I
D
O.
*

encosta
hercília fernandes

talvez eu seja aquela
moça-personagem que perde
horas seguindo mesma trilha
seja gaivota e prefira encosta
a render marinha
talvez eu não tenha jeito
nem venha a tê-lo
*