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Remoinho poético

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Percorrem os dedos trépidos
sem-nomes confins.

Às pedras, cOnToRnOs dialéticos;
às flores, aromas ciganos.

Da gênese ao apogeu
gozo e poiesis.

Lou Vilela
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Do falo à fala

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Tela de Vicente do Rego Monteiro


Meio loucas, meio santas
Rimam alternância
                            Lua
                                Sol

Meio putas, meio mantras
Freud em si
                    Menor
                             Bemol

Da penumbra à(o) Alvorada
Fiam rapadura
        Dão a cara à tapa
                 Parem rouxinol


Lou Vilela 
in Nudez Poética
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A poesia e o mito


 
Edward Burne-Jones - Pan and Psyche



Conteve a poesia
com mãos de quimera:

soprou-lhe aos ouvidos
olhar sustenido
fina flor pagã.

Lou Vilela
in Nudez Poética



* Livre adaptação do mito de Pã.

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O bonde


 
O último bonde, Sandra Nunes


O tempo impreciso, necessário
Anda às voltas – turbilhão;

Deixa rastro de estrelas
Todas idas nalgum bonde
Caleidoscópica estação.

As cidades iluminadas
Mais parecem lá do alto
Liturgia, profissão;

Arrebentam todo dia
Os que acordam em romaria:
Bando de arribação.

Ecoam pelo sagrado
Medos, martírios, brinquedos
- Marionetes de colisão:

Há na fugacidade
Uma gente dissonante
Passos simples, claudicantes
Que se vinca em contramão.

Lou Vilela

in Nudez Poética
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Fluidez

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Acordei com o sal da palavra.
Logo hoje, dia de deslembrar,
Invade-me traçado
Um corpoema.

Acordei com o sal da palavra.
Toda a metáfora liquefeita
Entre os vãos
De minhas coxas,
Vontade de escorrer
Sem margens.

Lou Vilela in Nudez Poética


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Vício II

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Clique na imagem para ampliar.

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Discurso da carne

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entre as pernas, o ópio
(insana paixão);
no corpo, lilases.

na cama, o silêncio:
ressaca, um molho
de chaves.

a trama arrebenta
[união sem placenta]
discurso da carne.




“Homicídios de mulheres fazem parte da realidade e do imaginário brasileiro há séculos, como mostra variada literatura [...]. Depois de trinta anos de feminismo, que impôs à sociedade o "quem ama não mata" como repulsa ao assassinato justificado pelo "matar por amor" e de consistentes mudanças na posição socioeconômica e nos valores relativos à relação homem x mulher, como explicar que crimes de gênero continuem a ocorrer?” (Blay, Eva Alterman. MULHER, MULHERES: Violência contra a mulher e políticas públicas.  SciELO  Brazil. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300006. Acesso em 31/01/11).

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Embrulhado em papel de pão

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Tomei um porre na esquina
Daquele que entroncha o sujeito
Senti o ar rarefeito
Formigamento na mão
Fiz uns versos, umas rimas
Esvaziei o segredo
Trancafiado no peito
Cuspido em papel de pão

Empolgado, dei vexame
Subi no banco da praça
Declamei com água nos olhos
Pra quem só fazia achar graça
Aqueles versos na mão
O papel todo amassado
Ali desvendava o mistério
Eu, homem sério
Trôpego de paixão

Quem não conhece essa flor
Desdenha de minha dor
Oferece remédio
Mulher cheirosa, fogosa
Que geme o nome da gente
Mas minha paixão renitente
Prefere ranger o dente
Cuspir em papel de pão

Quem sabe um dia ela ouça
Meus versos, minha prece
Sorrindo, logo se apresse
Cuspa em papel de pão
Um bilhete mais que sentido
Dizendo que de ouvido
Soube de minha paixão
E aceita casar comigo

Lou Vilela in Nudez Poética
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Fisiológico



La Dormeuse - Renoir


tua fome é carne
que me come;

é traje
que visto
pelo avesso;

trágica,
profética,
é tropeço;

prurido,
pecado
e perdão.

tua fome
exaspera
minha fome

- alimento
que abisma
e me mata.

Lou Vilela in Nudez Poética

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Girassóis

Detail of Vincent van Gogh (1853-90), Sunflowers, 1889. Oil on canvas, 95 x 73 cm.
Van Gogh Museum, Amsterdam (Vincent van Gogh Stichting).




Corpos paredes lençóis
permissivos.
Sibilam bocas
provocam olhos ouvidos

: pontos encontros de peles pelos
partes intumescidas.

Tudo cala.

A brisa sopra horas vencidas.
Florescência.
O dia amanhece em paz.


Lou Vilela

 

* Poema publicado no "Balaio Porreta 1986" em 19/11/09.
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Nerudianas


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Prefiro que não, amada.

Para que nada nos amarre
que nada nos una.

Nem a palavra que aromou tua boca,
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem teus soluços perto da janela.

Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se deitam com a morte
no leito do mar.

(Pablo Neruda in Crepusculario)


Seria tua musa desde que
aprendêssemos a roçar
minha língua tua língua
envolvidas nesse mar.

Envolvidas nesse mar
suculentas nerudianas
mil histórias duas bocas
minha língua tua língua

alagadas tateando
aprendêssemos a roçar
enviesadas declarando.

Seria tua musa desde que
duas línguas um destino
soubessem conspirar.

(Lou Vilela in Nudez Poética)
   


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fluxopoema

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* Mais poemas: para miúdos, aqui; para graúdos, aqui

Poesia visual



 




Lou Vilela in Nudez Poética

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"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" *

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Exploding Clock - Salvador Dali

 

Ao passante

Implacável o tempo sobre todos
os nomes. Fazer dele uma arte
espanto, extensão...
 
Lou Vilela

Imortal

Corta, perfura, remenda...

Da emoção, nasce o poema
No caos, morre o poeta.
Fim do primeiro ato!

Corta, perfura, remenda...
A cada poema,
Renasce do caos, o poeta.
Fim do segundo ato!

Corta, perfura, remenda...
Imortal é o poema,
A alma do poeta
Fim do espetáculo!



Lou Vilela in Nudez Poética 

* Citação no título: José Saramago.


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Indulto

Fauna e Flora Brasileiras, de Cândido Portinari


Ao mergulhar profundidade oceano
O corpo atordoa.


[Minha terra tem coqueiros
E aves de ruma;
Farinha, cuscuz, munguzá;
Folclore, credos, patuás.]

Quando necessário implodo, recomeço.
Visto incansavelmente as peles que me tocam:
Sou uno, sou todos, zé-ninguém
- Sou Poeta!

Ademais, afino-me pelo diapasão dos pássaros.

[Não permita Deus que eu morra,
Sem gorjear.]




Lou Vilela in Nudez Poética
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O poeta e a língua

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Através de um diálogo com o poema "língua"
do talentoso poeta Danilo Abreu,
presto uma singela homenagem
aos amigos poetas.



Il poeta.... un libro aperto - Pietro Barbera
acquerello formato 50x70 cm



na boca, sempre algo mais:
a língua que se lhe dis.puta
vogal ressonante ou parasita
propõe, invoca, catalisa
poesia até quando não dita.

aquele que à palavra jaz
en.verga, língua o seu caos;
singra à pele: sua assaz.sina.
formou-se mosca augural,
lambedor de cascas des.feridas.

 

Lou Vilela in Nudez Poética


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Néon

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Lou Vilela in Nudez Poética
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