* Quem a vê... não a sabe


arte : Pino Daeni


Quem a vê


terna e pacata


meiga e cordata


olhar sereno


não a conhece



Quem a vê


sobre a sacada


em sonhos debruçada


gesto ameno


sente que não desfalece



Seios proeminentes


escondem pulsações


olhares intermitentes


guardam rios de emoções



Quem a vê


em trajes comportados


sorriso discreto e são


desconhece que provou


o gosto doce do figo


nas vestes naturais de Adão



Úrsula Avner




desnotícias

Charge de Belmonte, publicada originalmente num jornal de São Paulo, em 13 de agosto de 1946.
desnotícias

então era assim a grande guerra.
a blitzkrieg não declarada me persistia
por todos fados de esperânsia;
as colaboracionistas perdiam cabelos,
outras poucas malenas, bustos, muros.

em rastros de bombas se viam quadrinhos,
cinema, ideologias tantas:

que haviam de me meter mais medo ou vingar
se levaram meu velho do exílio?

então era assim, eu não morria,
minguava.
*

Como veem as palavras

Se te trouxesse em palavras seria de barco
ou te traria a pé...
dada a cor da tua pele
que é dura da terra da cor dos teus.
Não, não...te traria mesmo de barco
Tua língua arranhada quando falas amorrr,
diz-me de onde vens-Namor-
Se as palavras aproximassem os poetas
viriam sempre de barrrco.

de-Ser-tão




 Preparando o enterro na rede - Cândido Portinari



para Rosângela e Roseane


aquela terra tem um olhar arenoso
que me toca as entranhas.

uma rede embala os que desistem;
os que persistem, giram sóis
e fecundam-se em luas

: flores de mandacaru.



Lou Vilela in Nudez Poética




Curiosidade:
A flor do mandacaru abre-se à noite. O polinizador nato dos mandacarus é o morcego (Soares Filho in O Fenômeno da Evolução). 


.

Quefazer


Minha vida é o caminhar,

quefazer infinito.


Caminhos de pedras, retas, labirintos...

Dura e pérfida!

Fumaça passa em desalinho.


Minha vida não é a melhor amiga

Nem a pior conselheira...


É a caça do eu perdido em curvas

E a presa tátil nas vigas.


Dirão os que virão:

“Foi mar de ondas claras

em vales profundos”.


[ou...]


“Glória sem brasão

riacho de lágrimas

infortúnios”...


Eu, ao longe, apenas lhes direi:

- Enxergai as folhas no barro,

no pão.


As gotas de orvalho

no prumo,

vale sem promessa,

oceano sem direção.



by hercília fernandes


*Imagem disponível no Google.


lobos

imagem do google


quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado

esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam seus dentes
como a limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio

à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon

Oração de solteira

Santo Antônio, me dê um namorado

carinhoso, fiel, sem ser casado

que celebre cada data importante

e me atenda antes, depois e durante


São Valentim, ser rico não carece,

mas pobretão também ninguém merece

que não associe férias a anzol

e deteste jogo de futebol


Santo Expedito, tudo é possível:

que seja forte e meigo sem ser gay,

que casar lhe seja algo factível

que nunca diga: “ Eu te avisei...”


São Longuinho, quem te procura, acha

não permita que ele fale “menas”

ou tenha as unhas sujas de graxa

se beber, que seja uma dose apenas


São João, paciência é essencial

que ele adore minha mãe, por favor

na cama, amante profissional

a TPM, trate com amor


Meu Pai do Céu, permita que eu peque

faça com que a fonte nunca seque,

livrai-me, Pai, de crises passionais

Amém. Será que exigi demais?



by Maria Paula Alvim




Amigos leitores,


“é chegado o fim do ano”... muitos são os compromissos, por isso o quadro “postagem simplesmente poesia” ficará suspenso até passados esses balanços e balancetes de 2009.


**Imagem extraída do Google.


* Simplesmente azul *


há um azul abstrato
que se deita na claridade
ora discreto cordato
ora repleto de vaidade

azul que lateja entre estrelas
sobeja no mar á luz do sol
azul da chama de muitas velas
da luz que emite o farol

o azul das veias constrange
em dias azulados de inverno
um olho azul petrifica o instante
o corpo azulado fica quente e terno

a pétala azul é poliglota
a geleira azul da montanha o sabe
o azul do jeans que desbota
cobre as águas em contornos de ave

a língua azulada saliva
o amor que ficou no azul
do tempo do breve momento
do vagão que leva hálito sedento

É azul a cor de dentroCor do texto


Úrsula Avner

* imagem do google- sem informação de autoria