construção

imagem capturada na internet sem indicação de autoria. mas lembro de tê-la visto nos jornais lá pelos idos do doismilicinco...

nina rizzi

imagina só meu caro amigo, que logo eu
aos doze anos, na flor da idade
fui um milagre brasileiro:
uma morena de angola, dos olhos d'água,
moça da cidade e violeira na cidade dos artistas
uma cidade ideal pra minha canção, pra ver a banda passar,
curtir festa modesta ou a fantasia
sempre voltando ao samba na ciranda da bailarina.

era a moça mais bonita, a moça do sonho,
na ilha de lia, no barco de rosa.
ura na queda, desafiei o malandro e fiz
um casamento de pequenos burgueses num circo místico
numa noite de mascarados com um novo amor
(é que não existe pecado ao sul do equador).

mas como o cotidiano é cheio
de desencontros, desencantos, desemboladas,
feito um folhetim de esconde-esconde
deixei a menina, carioca ou francesa,
como num samba de adeus, pois é
qualquer amor, romance é como um retrato em preto e branco,
samba, agoniza, mas não morre a gente fica com tanta saudade
então como sentimental vamos sempre em frente na roda viva.

mas tem mais samba rei de ramos!
samba de orly, tango de covil, valsinha, um chorinho
sobre todas as coisas daqueles anos dourados!
sobre o tempo que passou, minha história.
não fui uma menina, trocando em miúdos, fui umas e outras
e pra não dizer mais tantas palavras fora de hora
façamos a lista do meu sonho de carnaval, das minhas meninas,
las muchachas de Copacabana as mulheres que fui:

ana de amsterdam
angélica
bárbara
beatriz
carolina
cecília
cristina
geni
helena
iolanda
iracema
januária
joana
leila
lola
lilly braun
luísa e luíza
madalena
maria
nancy
renata
rita
rosa
sílvia
teresinha.

palavra de mulher! fui todas as mulheres de atenas!
uma mulher em cada porto, com açúcar e com afeto,
sem açúcar, sem fantasia, sem compromisso de todas as maneiras.

mas essa minha canção, o meu último blues
é pra deixar de ser tudo que sou e que fui
por um sonho (quase) impossível:
ser a garota do leblon.
e se não puder... não sonho mais!

Perdição


Adão e Eva: Gustav Klimt



........................Afã!

................se fez

.........compota

....quando lua

............inteira

............-mente

..................torta

.....................maçã...


(07/09/09)


Pedra na lua*



Quando digo que não mais te quero

É a ti que eu venero.

Quando finjo um meio sorriso

É porque meu riso ainda é sincero.


Quando rasgo o véu e digo:

― O mel de tão doce virou fel.

Não me estranhes!

É porque ainda cobiço o teu céu.


Quando te escandalizo

E devoro o mito

Deformando Narciso

É para, logo depois, cometer suicídio.


Quando te esqueço,

E aquela voz velada aqueço

Me comprometo, rezo um terço

E me converto ao teu desejo.


Quando não te digo nada

E faço do silêncio a minha causa

É porque as palavras têm cauda

E já não me resta nenhuma lauda...


Quando me enfeito de diva

E repito: ― Sou eu tua Marília.

Não acredites, é tudo mentira!

Apesar do nome me fazer bem à rima.


Quando não sei quem sou

E te peço socorro

Não me dê a mão

Porque não te quero morto

Em meu coração.


Quando estou naqueles dias

A ponto de jogar pedra na lua

Me leves a sério, me leves pra rua

Me faças mulher, me deixes ser tua.

Mesmo que eu diga: ― Não!

Deixe a chuva cair

Pra lua reluzir de paixão.


Quando o tempo mudar:

― Me esqueças! E desapareças!

Porque o vento levou a contemplação...


by Hercília Fernandes




Anúncio:


A poetisa e professora universitária Adriana Karnal deixou-me abundantemente emocionada com o ensaio crítico: A poesia subjetiva de Hercília Fernandes. Aproveito o post para agradecer o belo gesto da poetisa e a convidar os amigos à leitura do artigo.


*Poema extraído do livro: Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 61).


Postagem Simplesmente Poesia (10)


Flores de luz azul




Não sei por que motivo


Às vezes

não sei por que motivo

afogo o olhar

em trágicos silêncios.

Para encontrar a luz

me bastava enfrentar

a noite, porque possuo

nos olhos o apelo

errante das sombras.

Pequenas traições

tatuadas na pele

são apenas pretextos

para disfarçar os medos.

Um remorso

germinando na lembrança

devolve-me o temor

de múltiplas solidões.


by Graça Pires


Doce pecado*


um doce pecado

um favo de mel

uma estrela que caiu do céu

- do céu

uma rosa que desabrochou

um beija-flor que a beijou

um nome para eu chamar de amor

- de amor

o meu amor

não é meu namorado

não é um caso é um mar agitado

onde ondas vem e vão

onde as pedras tristes sangram de solidão


by Hercília Fernandes


Carta frente ao mar (IX)



Minha Querida,


Vim até ao Mar. Brevemente, mas vim. Até si!

Não disse uma única palavra. Apenas a senti em silêncio.

E beijei-a, terna e apaixonadamente, aconchegado na lembrança.

O meu peito rebenta em emoção. Anseia pela sua voz, por essa sua suave expressão, que me estremece completamente.


Transbordo em sentir por saber o que pulsa incontrolável dentro de mim. Tenho tanto medo de a perder! Por isso, agarro-me à esperança.

É assim que de novo vejo o Mar. No mesmo lugar de ontem.

Hoje, as águas estão amenas e a luz é outra.

O instante da origem ocorreu e fui recriado. Foi um tsunami que me varreu!

Não foram apenas as águas que me preencheram. A sua voz abalou-me.

Há uma menina do Mar em si. Que voz doce e meiga! Nunca tinha ouvido uma sereia!

Ainda estou envolvido nas palavras incorporadas em silêncio.

Tudo ou nada? Respondi tudo. Recebi, nada.

Como desejava essa resposta!

Só se alcança o todo se este for formado pelo tudo e pelo nada.

Sabe, o amor tem que ser intenso e permanentemente rasgado por instantes de paixão!

E por si, sou arrebatado sem resistência. Em coerência com o sentir, pois não sei ser de outra maneira.

Se não me quiser, serei lágrimas desgarradas. E todas elas a amarão.

Mas continuarei a ser! Mesmo em cristalinos, que entregarei ao correr dos tempos como flores de luz azul que nos guiarão ao reencontro eterno.

Que inevitavelmente acontecerá!

Sei-o porque sou Multiverso. Dele criador e nele autor do tempo.

Mas acima de tudo, aqui, neste instante gerador de futuro, sou esperança.

E amor. Em azul!

Novos mares nascem, mas nós permaneceremos e criaremos em Luz.

Não pense. Sinta-o!


Um beijo terno, doce alma


by Vicente Ferreira da Silva




*Canção composta em parceria com Marcus Vinícius há longínquas águas...

**Fotos disponíveis no Google Imagens.

possuída

estudo para tela/ rafael godoy

a manhã pede um pouco de gosto pela vida
o sol aparece depois de tanta chuva
acontece que o mofo se instalou nas minhas veias
nos meus cabelos nas minhas unhas
o mofo está cobrindo meus olhos
e criou musgo na minha boca
os sons que chegam são quase inaudíveis
tenho medo de ouvir minha voz
e perceber não ser minha
os gritos da guerra estão próximos
e não os ouço
o coração está úmido e verde
o lodo que cobre as paredes e os muros
tomou conta definitivamente de mim

Ah! Se.......


Arte: Renoir


Gostaria de ter a engenhosidade métrica de João Cabral,
Ou proclamar pedras e a natureza como Manoel de Barros.
Um pouco de sensualidade, também não me faria mal
Inspirar em meus poemas as inquietações de Clarisse
Voltaire, Bachelar, Balzac, Pessoa, Mário de Andrade...
No entanto, seria apenas um sonho a se tornar realidade.

Talvez pudesse cantar estrelas, invadir o mar com rosas
Ter em mim um pedacinho que fosse de Guimarães Rosa.
Mas simples em meu dizer, contradigo o reverso e vivo
No adverso do eu que pretendia ser, como uma pedra
Que dilata a solitude, a tristeza e ofusca a luz , onde crivo
Poemas que crio e revejo o que não queria dizer e digo.

Creio em mim como um ser nativo no mar, mas ainda
Envolta em concha, teima em não abrir e arder à palma.
Em metáforas, metonímicas, na semântica que fico a dever
àqueles que meus versos lêem e só encontram uma alma
que ao escrever um poema, acalanto ou prosa, acalma
o espírito, que existe na poeira cósmica de um centrado ser,

Que foi vivendo, e mesmo lendo, chorou e emudeceu.
Me comovo demais e me perco de mim. Assim sou eu.


Postagem Simplesmente Poesia ( 9)


* Canções de Lya Luft *



Odalisque Reclining on a Divan ( 1827- 28 )
By: Eugéne Delacroix


Fruto de enganos ou de amor
nasço de minha própria contradição
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluidos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.

Terei meu par de asas
cujo voo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
_ como, debaixo da árvore,
um caule
e sua flor.

( Lya Luft )

texto sem título
In: Perdas e Ganhos - Rio de Janeiro : Record, 2004

* texto postado ( pretensamente) de acordo com o novo acordo ortográfico


Caros (as) leitores (as) ,

É um grande desafio e responsabilidade comentar a obra literária de tão expressiva e admirável autora. Todavia, de algum modo, sinto-me "em casa" , paradoxalmente confortável e intimamente inquieta, reflexiva, como a Odalisca no Divã, retratada pelo pintor francês do Romantismo- Eugéne Delacroix. Em parte, tal estado de conforto, se deve á minha identificação com o estilo e conteúdo observados na escrita da referida autora, a qual me seduz e transporta para seu rico universo interior, instigando-me a perscrutar o meu.



Lya Luft ( embora dispense apresentações ), iniciou sua carreira literária em 1980, aos 41 anos de idade, com a publicação do romance As parceiras. Além de escritora, Lya é tradutora, professora de literatura e mestre em Linguística e Literatura Brasileira.
Seu primeiro livro de poesias recebeu o título de Canções de Limiar ( 1964). Daquela época até os dias atuais, a autora vem nos presenteando com tantas outras canções através de memoráveis textos e obras literárias.
Lya Luft é voz feminina forte, eloquente; mulher cujo universo interior parece transbordar nas linhas e entrelinhas de sua escrita , como podemos observar no livro Mar de dentro ( 2002).
A escritora nos convida a refletir com ela quando registra inquietações do tempo presente, estabelecendo um diálogo constante e profícuo com seu (sua) leitor (a) a quem define " amigo imaginário ".

" Escrevo propondo uma releitura dos valores
familiares e sociais de meu tempo "
( In: Pensar é transgredir , 2004 )

É interessante notar que muitas das poesias e textos literários da autora, apresentam no título a palavra " Canção "- Canção do amor sereno ; Canção das mulheres, Canção da plenitude ...
É na simplicidade e veemência de seu canto que Lya afirma :

" O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento,
um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. "
( In: Perdas e ganhos, 2004 )

Ao contemplarmos a tela do pintor Delacroix, percebemos a mulher perpassada por luzes e sombras, retratada com paixão pelo artista. Tal obra nos remete para a complexidade do universo feminino destacado com tanta propriedade pela autora. É rica a analogia que se pode estabelecer, por exemplo, entre o espelho decantado por Lya no poema postado e o divã na tela de Delacroix, como símbolos do encontro consigo mesmo, da auto-reflexão, do voltar-se para si ; em que as luzes e as sombras se misturam , se encontram , na interdependência das partes de um todo. A Odalisca de Delacroix , aparentemente descansa serena sobre o divã, com a luz incidindo sobre parte de seu corpo, enquanto seu rosto e a outra parte do corpo, são permeados por sombras, de onde se apreende aspectos do mistério inerente á figura ( alma) feminina , retratada por uma figura masculina.

Depois de lermos e ouvirmos o belo canto de Lya Luft, destaco uma singela homenagem á autora, através do meu canto, onde sinalizo em itálico títulos de obras e textos da escritora.


Canção para Lya

Ao som aprazível da Flauta doce
em cantilena adornada de poesia
traz no dorso das palavras
o Mar de dentro
inquieto e fértil
em múltiplas ondas

de Perdas e ganhos

O ponto cego
tão visível
em túneis do inconsciente
aguça-lhe a voz
que se propaga
na Canção das mulheres
como em várias outras canções
numa perene necessidade
de ser A sentinela de si mesma
a perscrutar O lado fatal
em Secreta mirada

Ou talvez, no corpo da noite
quando esta se torna sua morada
ou O quarto fechado
com a intrepidez
de Um rio do meio
lhe impele a inventar
Histórias de bruxa boa
posto que ainda encontra em si
a menina perguntadeira
que reune Histórias do tempo
Para não dizer adeus
não agora ; pois,

Em outras palavras
o tempo é hoje
e ainda é cedo

Não há Exílio
apenas uma Mulher no palco
da vida , da história literária
que de forma coloquial
expõe seus pensamentos
sem esquecer

que Pensar é transgredir
Exibe seus talentos
suas inquietações
sem esquecer

que é feita de luzes e sombras


Por: Úrsula Avner

Lya Luft é voz feminina a entoar seu canto na literatura brasileira... É voz feminina no Maria Clara : Simplesmente Poesia


Fontes de pesquisa:

http://www.releituras.com/
Livros da autora Lya Luft já mencionados na postagem

Momento retrô


O velho violinista - Picasso, 1903


"Amor condusse noi ad una morte" Dante, Inferno



o que mais me dói agora
é ver esse infinito amor findado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
( perdido, posto, finado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
( meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada fria
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar o sentir que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente

.

* Sobre o mundo de dentro *



imagem de Julie Tremblay


Quisera esmerilhar

o sono guardado

em nuvens brancas

fazer esguichar do tempo

vontades aprisionadas

balançar as ancas

soltar ao vento

borboletas encarceradas


Quisera enxergar

um clarão no beco

Na opacidade do corpo

as matizes

Sob a pele do estrondo

o sossego

Na carniça

perdizes

(apenas) sonhos á vista


Úrsula Avner