Ah! Se.......


Arte: Renoir


Gostaria de ter a engenhosidade métrica de João Cabral,
Ou proclamar pedras e a natureza como Manoel de Barros.
Um pouco de sensualidade, também não me faria mal
Inspirar em meus poemas as inquietações de Clarisse
Voltaire, Bachelar, Balzac, Pessoa, Mário de Andrade...
No entanto, seria apenas um sonho a se tornar realidade.

Talvez pudesse cantar estrelas, invadir o mar com rosas
Ter em mim um pedacinho que fosse de Guimarães Rosa.
Mas simples em meu dizer, contradigo o reverso e vivo
No adverso do eu que pretendia ser, como uma pedra
Que dilata a solitude, a tristeza e ofusca a luz , onde crivo
Poemas que crio e revejo o que não queria dizer e digo.

Creio em mim como um ser nativo no mar, mas ainda
Envolta em concha, teima em não abrir e arder à palma.
Em metáforas, metonímicas, na semântica que fico a dever
àqueles que meus versos lêem e só encontram uma alma
que ao escrever um poema, acalanto ou prosa, acalma
o espírito, que existe na poeira cósmica de um centrado ser,

Que foi vivendo, e mesmo lendo, chorou e emudeceu.
Me comovo demais e me perco de mim. Assim sou eu.


Postagem Simplesmente Poesia ( 9)


* Canções de Lya Luft *



Odalisque Reclining on a Divan ( 1827- 28 )
By: Eugéne Delacroix


Fruto de enganos ou de amor
nasço de minha própria contradição
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluidos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.

Terei meu par de asas
cujo voo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
_ como, debaixo da árvore,
um caule
e sua flor.

( Lya Luft )

texto sem título
In: Perdas e Ganhos - Rio de Janeiro : Record, 2004

* texto postado ( pretensamente) de acordo com o novo acordo ortográfico


Caros (as) leitores (as) ,

É um grande desafio e responsabilidade comentar a obra literária de tão expressiva e admirável autora. Todavia, de algum modo, sinto-me "em casa" , paradoxalmente confortável e intimamente inquieta, reflexiva, como a Odalisca no Divã, retratada pelo pintor francês do Romantismo- Eugéne Delacroix. Em parte, tal estado de conforto, se deve á minha identificação com o estilo e conteúdo observados na escrita da referida autora, a qual me seduz e transporta para seu rico universo interior, instigando-me a perscrutar o meu.



Lya Luft ( embora dispense apresentações ), iniciou sua carreira literária em 1980, aos 41 anos de idade, com a publicação do romance As parceiras. Além de escritora, Lya é tradutora, professora de literatura e mestre em Linguística e Literatura Brasileira.
Seu primeiro livro de poesias recebeu o título de Canções de Limiar ( 1964). Daquela época até os dias atuais, a autora vem nos presenteando com tantas outras canções através de memoráveis textos e obras literárias.
Lya Luft é voz feminina forte, eloquente; mulher cujo universo interior parece transbordar nas linhas e entrelinhas de sua escrita , como podemos observar no livro Mar de dentro ( 2002).
A escritora nos convida a refletir com ela quando registra inquietações do tempo presente, estabelecendo um diálogo constante e profícuo com seu (sua) leitor (a) a quem define " amigo imaginário ".

" Escrevo propondo uma releitura dos valores
familiares e sociais de meu tempo "
( In: Pensar é transgredir , 2004 )

É interessante notar que muitas das poesias e textos literários da autora, apresentam no título a palavra " Canção "- Canção do amor sereno ; Canção das mulheres, Canção da plenitude ...
É na simplicidade e veemência de seu canto que Lya afirma :

" O que escrevo nasce de meu próprio amadurecimento,
um trajeto de altos e baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. "
( In: Perdas e ganhos, 2004 )

Ao contemplarmos a tela do pintor Delacroix, percebemos a mulher perpassada por luzes e sombras, retratada com paixão pelo artista. Tal obra nos remete para a complexidade do universo feminino destacado com tanta propriedade pela autora. É rica a analogia que se pode estabelecer, por exemplo, entre o espelho decantado por Lya no poema postado e o divã na tela de Delacroix, como símbolos do encontro consigo mesmo, da auto-reflexão, do voltar-se para si ; em que as luzes e as sombras se misturam , se encontram , na interdependência das partes de um todo. A Odalisca de Delacroix , aparentemente descansa serena sobre o divã, com a luz incidindo sobre parte de seu corpo, enquanto seu rosto e a outra parte do corpo, são permeados por sombras, de onde se apreende aspectos do mistério inerente á figura ( alma) feminina , retratada por uma figura masculina.

Depois de lermos e ouvirmos o belo canto de Lya Luft, destaco uma singela homenagem á autora, através do meu canto, onde sinalizo em itálico títulos de obras e textos da escritora.


Canção para Lya

Ao som aprazível da Flauta doce
em cantilena adornada de poesia
traz no dorso das palavras
o Mar de dentro
inquieto e fértil
em múltiplas ondas

de Perdas e ganhos

O ponto cego
tão visível
em túneis do inconsciente
aguça-lhe a voz
que se propaga
na Canção das mulheres
como em várias outras canções
numa perene necessidade
de ser A sentinela de si mesma
a perscrutar O lado fatal
em Secreta mirada

Ou talvez, no corpo da noite
quando esta se torna sua morada
ou O quarto fechado
com a intrepidez
de Um rio do meio
lhe impele a inventar
Histórias de bruxa boa
posto que ainda encontra em si
a menina perguntadeira
que reune Histórias do tempo
Para não dizer adeus
não agora ; pois,

Em outras palavras
o tempo é hoje
e ainda é cedo

Não há Exílio
apenas uma Mulher no palco
da vida , da história literária
que de forma coloquial
expõe seus pensamentos
sem esquecer

que Pensar é transgredir
Exibe seus talentos
suas inquietações
sem esquecer

que é feita de luzes e sombras


Por: Úrsula Avner

Lya Luft é voz feminina a entoar seu canto na literatura brasileira... É voz feminina no Maria Clara : Simplesmente Poesia


Fontes de pesquisa:

http://www.releituras.com/
Livros da autora Lya Luft já mencionados na postagem

Momento retrô


O velho violinista - Picasso, 1903


"Amor condusse noi ad una morte" Dante, Inferno



o que mais me dói agora
é ver esse infinito amor findado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
( perdido, posto, finado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
( meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada fria
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar o sentir que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente

.

* Sobre o mundo de dentro *



imagem de Julie Tremblay


Quisera esmerilhar

o sono guardado

em nuvens brancas

fazer esguichar do tempo

vontades aprisionadas

balançar as ancas

soltar ao vento

borboletas encarceradas


Quisera enxergar

um clarão no beco

Na opacidade do corpo

as matizes

Sob a pele do estrondo

o sossego

Na carniça

perdizes

(apenas) sonhos á vista


Úrsula Avner

Postagem Simplesmente Poesia (8)

ou
dA dÁ ismo...


Arte digital de Fátima Queiroz
in: O Gato da Odete

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agora só lhes prometo
metasignos bailarinos
dos anúncios coloridos
e palavras que ao acaso
- nas roletas do cassino –
colho côo cozinho
no caldeirão do destino
para montar o mosaico
desarranjado e mofino
que nada diga de fato
exceto que tudo foi dito.

(in: Anomalias, Kelps, 2002).
-->

Pegue um jornal
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

by Tristan Tzara

Estraga prazer
(Notas de explicação que ninguém pediu...)
.......Segundo Coelho (1980), a poesia século-XX se caracteriza pela busca da “abertura da linguagem”. O período entre as duas grandes guerras mundiais consiste momento ímpar para a vanguarda na criação poética.
.......Por meio de seus vários movimentos artísticos: Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo, a poesia século-XX se expande através da consciência de “criar realidades através da palavra” e a de “ser apenas um objeto de linguagem” (COELHO, 1980, p. 314).
.......Nesse quadro de rupturas, o Dadaísmo - movimento surgido em 1916, em Zurique (Suíça), no Cabaret Voltaire - configurou um dos movimentos artísticos que mais propunha a negação com as teorias, regras e ordenações lógicas na produção poética. Os dadaístas almejavam iniciar uma nova arte e rejeitavam tudo aquilo que fosse do domínio da consciência. Para tanto, propuseram uma poética de cortar, recortar, colar, aglutinar palavras formando palavras-frase carregadas de sentidos não-lógicos e originais.
.......Para Tristan Tzara, líder do movimento dadaísta, “Dada não significa nada”, porém este “nada” é a sua palavra fundamental (apud SANTOS; SOUZA, 2007). Uma das características do Dadaísmo diz respeito à ludicidade e ao humor. O próprio termo “dada” é equivalente a “cavalinho de pau”, em língua francesa, e ilustra o balbucio comum às crianças pequenas.
.......No poema Para fazer um poema dadaísta, conforme se pôde ler, Tristan Tzara faz uso de elementos metalinguísticos para explicitar os parâmetros conceituais e as técnicas de composição do Dadaísmo.
......No Brasil, o movimento dadaísta conteve ressonâncias. Oswald de Andrade através do Manifesto Antropófago, publicado na Revista Antropofagia, manteve diálogo com o Dadaísmo. Além disso, o poeta fez uso da técnica dadaísta, sugerindo em versos uma espécie de linguagem "pronta" a partir da técnica chamada ready-made (SANTOS; SOUZA, 2007).

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Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1972.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura e linguagem. 3. ed. São Paulo: Quíron, 1980.

Sugestões de leitura

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Nota:
No próximo sábado (29/08) quem contribuirá com o quadro Postagem Simplesmente Poesia será a poetisa Úrsula Avner, que também estará realizando a sua estréia poética no Maria Clara nesta segunda-feira, amanhã.

Mini-conto

William Turner, pintor inglês

Ele recostava o rosto ao violino quando queria afiná-lo, e a pele se enrugava em duas camadas que lhe apertavam os lábios. Era assim que eu fechava os olhos antes de dormir, nunca me deixava sem um movimento que não enchesse o quarto. Amava-nos pelo som, eu e as cordas.
Era pelo cheiro do piano que eu sabia de sua chegada, da madeira que abria as teclas. Pelo toque no banco, o pé a frente ao deslizar as notas, o prelúdio do convite. Não sairia sem antes me soar qualquer coisa no ouvido, cantarolava uma palavra que seria o sopro do meu dia.
Era, assim, engraçado olhar as pedras, elas explodiam de significado. Eu me perguntava quando uma pedra deixava de ser pedra e ter outra composição? Mas, o mundo veio, de repente, dentro da mata. O piano passou a ser só madeira, o violino talho recortado da árvore, e a voz era o tempo do silêncio entre a pedra e a água quando as jogava no lago perto da casa. Não ouve eco no adeus, e me lembrei de Hilda: Ah, sim, como queima o perdê-lo/agora que há de queimar-me a vida inteira.

Às Marias

.

Hoje é dia de Maria...


Maria dos morros dos velórios

das sacadas das calçadas

dos achados dos perdidos


da Maria-vai-com-as-outras

e da outra, a que fica


Daquela Maria que almeja

paixão preguiçosa

que mexe remexe acomoda

(não se atreve ir embora)

traveste-se em amor


Também da Maria-abismo

antro de perdição

Maria-bordô!


Da Maria de encantos mil...


Maria-rosa chocolate

branco neve algodão doce

Maria-espinho


Importada nacional

acadêmica analfabeta

executiva piloto de fogão


Maria do príncipe

(futebolístico ou não)

Maria que ama Maria...


Daquela que crê que reza que implora

que vai à igreja que despacha na esquina

que não dá bola


Maria da fome, dos talheres de prata

erudita popular

(“ir-me-ei...; toma lá da cá!”)


Maria boêmia abstêmica

avião balão

Maria, Maria...


Bruta lapidada

peçonhenta panaceica

(dese)equilibrada

puta indissoluta

(r)evolução estelar


Todas belas, todas manias

com ou sem cria

Marias emoção!


Sim, todo dia é dia de Maria!

que tomba levanta que sonha

que cala, das vozes-maria


Maria (im)perfeição

Maria poesia


- Ave, Maria!


Lou Vilela





* Adaptação de imagem by Lou Vilela



NOTAS:


- Salve, salve Marias! - às novas [vozes do Maria Clara] e às nossas de todos os dias.

- Cordiais saudações aos Josés que leem as Marias!



.

Postagem Simplesmente Poesia (7)

fotografia de nina rizzi sobre arte pop, coleção do IVAM - Instituto Valenciano de Arte Moderna da Espanha.

texto sem título, de Danilo de Abreu Lima:

a última vez que vi malu ainda era primavera e a gente brincava dizendo assim o que é que há onde você está com a cabeça que não vê as flores na varanda do chalé nem sente as cores que se abrem junto e que derramam aromas de amoras e amores sobre nossas cabeças e narinas e esses cheiros eu carrego até hoje não sei se isso passou nem sei se isso aconteceu ou se foi apenas uma miragem imagem de um sonho ou cena de um filme ou...

a última vez que vi malu era o inverso da primavera era um inverno frio e nós dois como ursos hibernados dentro de um chalé no meio das montanhas geladas era serra do cipó ou eram os montes urais ou era no canadá nem sei só sei que as manhãs eram geladas e as maçãs não floresciam nem eu podia falar nem ela pois as mãos enregelavam quando a gente tentava apanhar as palavras saídas da boca e que se transformavam em cubos de gelo quebradiços que batiam no chão e ploft se acabavam em água fria sólida e nada ficava de sólido nem de nós no ar apenas aquela solidão indesejada aquele estar ali e de repente não saber estar e aí...

ai ai ai- da última vez que vi malu era um outono desses nostálgicos desses que bota a gente todo troncho pensando ah, outonos são aqueles do hemisfério norte em que as arvores envelhecem as folhas vermelhas que caem e formam tapetes lindos vegetais nos parques limpos e calmos ah, que nostalgia é essa desses outonos que a gente nem viveu? nosso outono era aquele dos ipês e dos apês a gente enrubescendo com sol e se arroxeando como os ipês que nos escandalizavam com a beleza insolente e crescente dos buquês coloridos só flores sem folhas aquela coisa linda e então...

da última vez que vi malu era verão e o sol ardia- ah! era verão aquela estação das propagandas, das cervejas, dos corpos nus ou quase, das caminhadas na praia, dos sol-nascentes e poentes policromáticos, das viagens a itacaré a jeri a caraíva ah...verões de sol em brasa e corpos idem mas da última vez que vi malu naquele verão não havia nada disso isso era apenas um conceito uma idéia nós estávamos atazanados com teses de mestrado e trabalhos finais e não tinhamos nem tempo de sair de casa para tomar uma cerveja com os amigos e eu me lembro de ter visto a malu ali linda com os braços cheios de livros e eu dei uma trombada nela e ela deixou cair os livros no chão tipo cena de cinema eu me agachando apanhando seus objetos ela sorrindo diáfana e...

não me lembro da última vez em que vi malu.

dalí. ele sempre se confundia com as datas. na última semana recebi uma carta de seu filho. encontramo-nos numa azul vernissage e lhe deixei a caixa postal, que, com pressa, não me podia me falar do pai naquela hora. eu o previa ali de algum modo, telas azuis. e o filho escreveu há uma semana dizendo que eu devo ter alzheimer, e o pai não sabe de mim ou de datas. e ele não tem pai.

mas ele nunca soube de datas, e é muito cômodo falar dessas doenças pós-modernas e brancas quando nada se quer falar.

nos conhecemos num teatro, não me lembro onde que nunca soube de lugares. assistíamos "as quatro estações" do vivaldi, que nada católicos sabíamos apreciar a boa música. era o primeiro dia da cataquese e fugimos juntos pra o teatro contíguo à igreja que não sei onde fica. ficamos ali agarrados, escondidos, ajoelhados a ouvir a sacralidade dionisíaca da música.

nos demais sábados daquela primavera seguimos com nossas fugas. corríamos por entre as flores e amoreiras que entornavam chalés e eu me escondia atrás de flores pra ele me encontrar com aeboca roxa de amoras, e corríamos rindo "fogo nos van goghs!" eram lindos os campos e assim os dogmas quase-doces. até que, de tanta rouxidão, a primavera findo. conseguimos nos livrar da catequese. e de nós.

a explosão primaveril, o sabor de fruta do pé, as pétalas nos cabelos. não.

eu era cinza daquele inverno que me carcomia os ossos e ele era de um desprendimento tão profundo que tirou o seu casaco a me vestir sem me saber, que a todo invernado é assim. eu tinha os dedos negros das fortes tragadas, os lábios queimados, e tremia o desejo de nunca findar aquela eternidade onde encontrava alguma beleza no mundo. em mim. revirei umas sacolas de lixo atrás de uns sachês de mostarda. ele me lambia os dedos e passou um lenço pelo meu rosto e jogou água em minha boca. não dizemos palavras e quando amanheceu me deixei com um copo de café com amoras, num abrigo de inverno.

e as cinzas voam.

era oriente, que pulava recitando hai cais com aquele sorriso que comoveria até os carcereiros de mao e juntos, dalí e tsé tungo fariam os mais belos poemas. que a orgia de cores em meu corpo de ipê roxo eram os sonhos de kurosawa que se misturavam à nossa vontade de ser onírico-materialistas, isso é que devia ser. mas era guerra e desaparecemos.

porque eu gosto mesmo do calor é que era um verão tão quente quanto as areias da praia que me sabe. eu estudava pra o mestrado e nem sei onde estava que sempre fui péssima em geografia e em decidir onde estar nos próximos passos. e eu iria passar em todos testes mesmo sabendo que essa não era pra mim, que na real eu devia pegar uma mochila e sair a registrar os calores das praias e rios. o verão nos olhos das montanhas. e ele me via e me dizia essas coisas que sempre soube. mas era tanto o mormaço que meu cérebro fritava em marxismos e tamanha pilha me punha sem contudo enxergar perspectivas, que histérica joguei a pilha de livros em seus pés que quem sabe o que quero e o que devo sou eu e você é um intrometido machista e tem essa vidinha burguesa e me também entre suas acumulanças.

e eu nunca fui pra academia. e como nunca também tivesse conhecido esse homem, juntei meia dúzia de trapos, uns rascunhos de críticas prolixas, meu toco de lápis e sai sinfonina a procurá-lo em canções, concretismos e estações.

e eu o via.

gay em são francisco, negro na áfrica do sul, asiático na europa, hispânico em san hisidoro, anarquista na espanha, palestino em israel, indígena nas ruas de sán cristóbal, roqueiro nas cidades universitárias, judeu na alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado a tarde, jornalista nas páginas internas de jornais, mulher no metrô depois das 22h, camponês sem-terra, e editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros ou leitores, zapatista no sudeste do méxico, sobretudo, personagem dos meus olhos, telas policrômicas onde nos vimos tantas únicas vezes.

NÃO. NUNCA ACORDAR ASSIM
Não. Nunca acordar assim
Ausente de afetos
Feito feto
No escuro frio
De um ventre inútil.
Nunca. Não adormecer assim
Pleno de ausências
Que se desenham
Tatuagens cítricas
Na pele
Acordando gritos
De personagens mudos.

É assim o amor.
Bicho tinhoso
De muitas cardos
e de muitas
Cordas
Garras que se cravam no corpo
E arranham, sugam,e
Às vezes sangram
Sentimentos curvos
Turvos nos olhares.

É assim. Assassino
De si proprio, às vezes,
Outras vezes,
Coros de anjos
E luzes de poentes
Em seus dentes
Cabelos das madrugadas
Mais calientes.

Na plenitude vazia
Do desassossego
O arremedo do sonho:
O pesadelo
De se ser impar.

foi assim meu sonho,
de acordar nua de escravismos,
ausente de verdades e farta de afetos.

eu era malu a sangrar, tatuar, gritar o amor
em suas múltiplas cores, poéticas e cheiros.