Tela de Vincent Van Gogh


Delimitada, instável
apago o resto da tarde
que se enfiou sob o
meu lençol pranteado
e junto a mim se ensopou.

opus certum


nina rizzi

se ele me tocasse
eu teria clareza dessa voz
que ressoa em minha caixa
de lembranças, e que me trás
tantas saudades de mim.
*

___dos fracassos...



Se Deus existisse...
Ele aceitaria preces.
E diria, aos homens, que o Mal
é Divino e não herege.
Se somos a Sua imagem e semelhança,
Ele falhou na Criação.
Fomos feitos para o fracasso:
Filhos da imPerfeição.

hercília fernandes




reverencio os mistérios
mas não os creio divinos

a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não

se deus fosse a natureza
não se chamaria flor a flor
nem bicho o bicho
nem mar o mar
nem homem o homem
há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou

ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou canhão
à míngua ou solidão?

não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?

reverencio os mistérios
mas não me fale em deus

adriana godoy


*Aquarela: Rafael Godoy, filho da poetisa.
Disponível em seu espaço poético.

Ensaio...




Tirou a sapatilha de ponta

Deixou a caixinha de música

Foi andar descalça no meio da rua


Quis provar se o pingo da

C

h

u

v

a


Tinha o mesmo gosto da

L

á

g

r

i

m

a

[Wania Victoria]




cama LEOA

Imagem Internet




Quando o poder aflora
e me vejo numa gaiola
engano o tirano.
De cama leoa, me visto.
num último recurso,

Se viver é arte.....
Sobreviver, faz parte.

Coração



Que fazer com o pingente,
quando a corrente
perde um elo?


Renata de Aragão Lopes

* Canção noturna *



o homem

da rua sem poste

esgueira-se do dia

tatua no corpo

o sol da meia noite

sombra estirada

na lápide do lume


olhos que veem

mãos que apalpam

sem a clarividência do sol

sem o estrondo do cotidiano

o homem da rua sem poste

há de viver cem (sem) anos


Úrsula Avner

* Esse poema foi postado no meu blog há um tempo atrás e hoje resolvi postá-lo aqui no Maria Clara... Um abraço a todos e todas.

Do que preenche

Imagem de Angela

conforta
o abraço
o que a palavra,
com força,
apenas tateia.