Pretérito-Perfeito...





Mãe e Filho – detalhe do quadro As Três Idades da Mulher – G. klimt


Gerei, pari
Olhei, amei
Segurei, cuidei
Alimentei, provi
Eduquei, errei
Mostrei, convenci
Chorei, sorri
Cresceram, cresci


by Wania Victoria



fim de tarde

aquarela/rafael godoy

É claro que não foi do jeito que eu imaginava. Nem podia ser. Aquela hora em que as pessoas passam voltando para casa, a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada e você ali , sentado , tomando um café e pensando no que vai me dizer. Então eu chego e trago um sorriso meio tímido, meio assustado. Você acende um cigarro e joga a fumaça para o ar e me pergunta o que fazer. Falo sobre o trânsito, da casa velha que ficava perto do Arrudas e de contas a pagar. _Você já viu aquele filme? Ele responde que não e sussurra uma melodia dos Beatles: "I'm so tired".... Pergunto o que ele almoçou hoje e ele me ignora. Raspa a garganta e acende outro cigarro. Disparo na fala, insinuo ciúmes, imito a cena de um filme que vi algum dia. Peço um uísque com gelo. Ele diz que bebo demais, que é cedo pra começar. Não retruco, concordo em silêncio. Ele também pede um, sem gelo. Eu pego um embrulho, guardado na bolsa e entrego pra ele. Ele me olha com os olhos molhados, profundos como a noite que chega. Não consigo ficar parada e peço mais um uísque, vou ao banheiro, molho o rosto na água fria e as lágrimas são quentes . Vejo quando estou voltando que a mesa está vazia. Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão. "I'd give you everything I've got for a little peace of mind". Vamos de mãos dadas para casa.

Lacrado amor

imagem mail


Há seres assim, meio homem, meio deus
Acolhem a ave e as asas lhe cortam
Tratam-na como a uma presa
Não se embaraçam na hora do adeus
Se parte a ave, mais nada importa

Sendo assim, toda noite é bendita
Benditas por estarem já lacrados
No túmulo de um amor pré-construído
Resta a dúvida da cor do amor devido

A presa é a dor que a eles, aborta.


 

Iemanjá

não me fale de ontem,
porque sou de agora

não me peça demora,
porque tenho pressa

não me cobre promessa,
pois admito engano

não me venha humano:
vivo prenha de mar


Renata de Aragão Lopes


Imagem extraída da internet.


* Desprendimento *

uma a uma
caem as flores ao chão
olhos coloridos
bem abertos
enxergam agora
de um novo lugar
ampliada visão
vento brinca ao redor

as flores
apenas observam


senil é o sonho
que se esconde
atrás das montanhas
cavalga incólume
no dorso do tempo
sem a dor do chicote
sem marcas de esporas

as flores
apenas observam


Úrsula Avner

Dos elementos de vida

cavou e encontrou
a palavra-tesouro
: terra.





voou e sorveu
a palavra-leve
: ar.




ardeu e forjou
a palavra-forte
: fogo.





mergulhou e bebeu
da palavra-fluida
: água.




amou e descobriu
a palavra-certa
: vida.



Arte  de Steve Gardner

Páscoa

Se morre um pouco a cada dia
quando não se ressuscita pela manhã.
É preciso voltar da noite
abrir os olhos ao sol
Tocar os pés no caminho.
Passar no tempo é viver.
Toda passagem é pessach,
Páscoa.


Desejo a todos uma vida cheia de resurgimentos nessa páscoa.

Cabralina


Salvador Dalí - Galatéia das Esferas


W. H. Auden
(1905-1973)

Se morre da morte que ela quer.
É ela que escolhe seu estilo,
sem cogitar se a coisa que mata
rima com sua morte ou faz sentido.
Mas ela certo te respeitava,
de muito ler reler teus livros,
pois matou-te com a guilhotina,
fuzil limpo, do ataque cardíaco.

(João Cabral de Melo Neto)



Entre mim e ela

A morte mata do que ela quer.
Mas tentarei convencê-la:
chegar consciente, partir sonhando
flutuando em travesseiro.
Aspirar, por via das dúvidas,
poesia e cheiro
de um tudo que aqui vivi.
Ser queimada, virar cinzas
espalmada à toda sorte.
Seguir passarinho:
[só sucumbir à morte]
sumir em revoada.