Ainda carnaval

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O Carnaval de Arlequim - Joan Miró.



O luxo e o lixo

compõem a fantasia

do folião mascarado


As sapatilhas puídas

enquanto o baile não finda

exibem seus passos


Nostálgica alegoria:

a vida se esvai

em ritmo de frevo

num baile de carnaval




Lou Vilela in Nudez Poética



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Renúncia


Cortarei as asas das borboletas

para que fiquem imóveis.

Para que não pousem levianas,

fazendo ciranda, em alheios móveis.


Cortarei as asas das borboletas

para que não percam a cor e a beleza.

Para que não busquem néctar nas flores;

para que não vivam por vãos amores.


Cortarei as asas das borboletas

para que definhem até a morte

para que mudem seu destino, sua sorte.


Cortarei as asas das borboletas

para que morram sentindo as dores

pela ausência que jaz, o néctar das flores.




by Hercília Fernandes

in: Retrato de Helena, 2005.

Arte disponível no Google Imagens.



O MENINO E A BORBOLETA




Arte: Reynaldo Fonseca



Parecia um anjo

Era uma criança: comia estrelas, sonhava canção

Algo familiar. Algo especial.

Percebi, no ar, então que era o filho do meio

E por não ter os privilégios do primogênito,

Nem do caçula, ele bebia ternura.

Sua mãe deixou-lhe uma marca peculiar

Dessas que só as mães sabem quanto...

Na sua mão direita, com muito amor,

Carrega a marca que a mãe deixou:

Uma borboleta viva que pode até voar,

Mas não voa pelo saber dos dois

Mãe e filho a se amar.





Lourdes Nicácio e a arca do fim do mundo



Dilúvio



Agora vives

a construir um barco

Arca de fim do mundo.


Não vês

que o dilúvio

está em ti


que te arrebatas

em ondas

para o além de ti mesmo?


Quando não mais

te alcançares

em grãos de areia


ou terra

aqui

as sementes voam

desde as raízes


Quem te substituirá

na festa de Deus?


Desarma-te



by Lourdes Nicácio.




Breve Biografia:



Lourdes Nicácio - Maria de Lourdes da Silva - é sertaneja de Belém do São Francisco-Pernambuco. Possui formação em Letras e Pós-Graduação em Língua Portuguesa. Além de professora, editora, escritora, a poetisa é membro da Academia Recifense de Letras e da União Brasileira de Escritores-UBE/PE. Ao longo de sua carreira, Lourdes Nicácio recebeu vários prêmios e homenagens por diversas instituições. Participou de várias antologias e publicou 11 livros, alguns adotados por escolas pernambucanas. Atualmente, a poetisa difunde o seu recente livro: O lavrador e o templo, cujo espaço poético na Internet leva o título.



Para conhecer a sua obra:

  • Ritmo das águas vivas



*Imagens disponíveis no blog da autora.


Postagem Simplesmente Poesia (5)

Chegando ao fim do mundo

arte de Vanessa Azevedo



Manifesto: o que não precisamos

Fernando Cisco Zappa



não precisamos de bandidos

não precisamos de guerras

não precisamos de ódio

não precisamos de metalúrgicos

não precisamos de pedagogos

não precisamos de sociólogos


não precisamos de faustão nem sílvios nem santos

não precisamos ficar parados diante da tv contando o tempo para o fim

não precisamos mais dizer que isso é assim sempre assim e será assim

não precisamos ficar repetindo sempre repetindo as mesmas e mesmíssimas palavras


o planeta não precisa dos humanos

não somos nada precisos

temos tudo isso e o desperdício


amor é amor

estamos perto do fim



*leia in te gral mente o texto em:

Cisco Zappa: nas ciclovias insurgentes e brincriativas.



O escultor

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Obra de Natália Duro Gromicho
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Da abstração do desejo
brotou sua obra de arte
o côncavo e o convexo
em perfeito encaixe

No ápice da criação
a trama delineada
deu aos corpos colados
o movimento das ondas

Em seu delírio passional
levou ao gozo os amantes
imortalizados por suas mãos
numa escultura viva


Lou Vilela

Em 14/04/08

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Tormento




Vou reter esse poema
Na memória da parede
Na borda do meu espelho
Verás então, ao se ver
Lágrimas a escorrer

Poema retido sem fala ou escrita
É a minha palavra não dita
É meu sentimento
Em sufocado
Tormento

APRESENTAÇÃO: "Elas cantam amor"



NUNCA eu tivesse querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido...

(Cecília Meireles. Canção, in: Viagem: 1939)


Uma das qualidades da poesia feminina é a externalização sincera dos sentimentos do eu-emotivo.

Com maior ou menor intensidade, é observável que o “amor” é um dos temas que perpassa a lírica feminina. Seja o amor sensual e/ou metafísico, a poesia realizada por mulheres se reveste de múltiplos sentidos e expressa a ânsia de completude, a saudade, a inquietação física e as dores do vivido e/ou não-vivido.

Em razão das comemorações alusivas ao dia dos namorados, o “Maria Clara: simplesmente poesia” traz uma seleta de textos intitulada: “Elas cantam amor”, dividida em quatro partes que expressam as singularidades do universo poético feminino no tocante à externalização da afetividade, às idéias e às sensações que lhes são pertinentes.

Na primeira parte da postagem, destacam-se poemas onde o eu-emotivo proclama o desejo de realização e/ou busca por uma compreensão aos sentimentos de amor. Comportando textos das poetisas Adrianna Coelho, Solange Maia, Mirse Souza e Úrsula Avner.

Na segunda parte, os poemas tematizam o amor sensual, aquele que, como diria o poeta, “arde sem se ver”... Nesse bloco destacam-se textos da poetisa portuguesa Mariab e das brasileiras Mercedes Lorenzo e Beatriz.

Na terceira parte, a postagem comporta poemas que tratam da saudade, do retorno às amáveis lembranças e aos motivos que levam o eu-lírico ao canto amoroso, destacando-se poemas das nordestinas Lou Vilela e Hercília Fernandes, e da portuguesa Graça Pires.

Na quarta parte da matéria, a postagem tematiza as inquietações, turbulências e adversidades pertinentes às relações afetivas, onde se apresentam poemas das poetisas Adriana Godoy, Nina Rizzi, Líria Porto e Adriana.

A postagem comporta, ao todo, 14 textos poéticos. Sintam-se convidados a uma viagem onírica pelos labirintos do amor através das impressões digitais das belas vozes femininas in destaque.


Amáveis Saudações,

Maria Clara...