Mar vagabundo


"O mundo é grande, mas em nós ele é profundo como o mar" (Rilke).



Mar revolto: José Cavaliere



Há um mar em mim.

Um mar de águas revoltas.

Nuvens pesadas circulam passageiras

Areias, em fileiras, atiram-me ao fundo

quase sempre certeiras.


Há um mar em mim

E eu tantas vezes nada entendi:

da cor que me veste olhos d'agua

e do vento que me sopra à maré baixa.


Pois há um mar em mim

E eu não tive sequer escolhas

Não pude dizer (ao mar)

que parasse com esses cantos sombrios

Nem que me deixasse a não-mercê de tais desafios.


Por que esse mar é fora da lei

Não sabe o que é sorte, nem teme solidez

Tudo sente, nada sofre e me move à embriaguês.


Por que esse mar é poço sem fundo

Quanto mais arrasta, mais revira tão doce mundo

Secando-me as águas claras em tons cinza profundos.


Isso tudo porque esse mar é vagabundo...



by Hercília Fernandes



*Mar vagabundo também em o Balaio Porreta.


Postagem Simplesmente Poesia (6)


Angélica

ou...

"Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda”...

Vênus - Diego Velázquez


Desejo, por um anjo, o que me é dado:

a morte do desejo que se doa,

um anjo que por mim foi desejado.

Não seja, porque esbanjo o dom à toa.


Eu tanjo o meu cordame de coitado,

com o peito condoído, que destoa

do tom, em desacordo ao acordado.

Da corda vem o sangue que me escoa.


É a pena angelical que me depena

do bem e de meus bens, e já não tarda

não prive mais do mal que me condena.


Eu creio que me resta com que eu arda

solando nos infernos, numa cena

ao anjo do desejo, que me guarda.


by Henrique Pimenta



Estraga prazer

(notas de explicação que ninguém pediu...)


O conflito entre o eu e o mundo, a intensidade nos apelos da carne, a brevidade da vida, a fugacidade do sonho, os embates dualísticos e as inquietações humano-existenciais são algumas das temáticas que a Literatura Barroca (XVI-XVIII), sobretudo em suas formas poéticas, desenvolvera dentro do gênero lírico.

No Brasil um dos maiores representantes do Barroco fora o baiano Gregório de Matos (1633-1696), “o Boca do Inferno”, que proponha, em sua lírica amorosa, a plenitude dos desejos em contraposição a lírica idealizada da Renascença.

Segundo Pellegrini, em sua vertente amorosa, o poeta “louva a mulher, conforme a tradição lírica anterior, só que trata da mulher desejada, não apenas platonicamente idealizada, de quem se solicita a companhia para aproveitar os prazeres da vida” (in: Palavra e Arte, 1996, p. 264).

Essa argumentação pode ser vislumbrada em o soneto A mesma D. Ângela, onde Gregório de Matos desenvolve, metaforicamente, duas imagens referentes à mulher, realizando trocadilhos entre nomes e estabelecendo antíteses entre Anjo e Demônio - embora esta última imagem não apareça claramente explicitada.

A profanidade na imagem feminina se percebe exposta em o soneto Angélica, do poeta Henrique Pimenta. No texto, o eu-lírico desmistifica a divinização do feminino e evoca a plena satisfação dos desejos; propondo uma inversão de valores ao afirmar em versos que tanje o seu “cordame de coitado”, considerando que é “a pena angelical que [lhe] depena”, por isso mesmo não mais lhe seja privado “o mal que [o] condena”...



Nota:

No próximo sábado, o quadro "Postagem Simplesmente Poesia", assinado pela Maria Clara, será realizado pela poetisa Nina Rizzi.


cantiga de ninar

aquarela/ rafael godoy
nego a existência de deus
me apego ao diabo

o mal se desprende do homem
como das veias o sangue
ao impacto de um corte

talvez a morte
seja uma dança louca
ou a deusa de quem a espera

seu canto
uma cantiga de ninar
suave e forte

um sono enfim
desatormentado

Quer dançar comigo?




Renoir: imagem Google


Sonhei que dançavas comigo

Como se presa fosse, ao desejo

De enlaçar-te no doce sabor

Que a dança se faz no ensejo


O ritmo, não mais importa

O coração a bater, abre a porta

No frenético ritmo de estar

Colada ao teu corpo, te abraçar


Conduz meu corpo com tem calor

Sigo a trilha que mais te agradar

Vem, dança comigo, só essa vez

Pode ser a última dança,... talvez



Paisagens & Perspectivas do Maria Clara: simplesmente poesia


Mulheres no Jardim

Claude Monet



Todas as prendas que me deste, um dia,

Guardei-as, meu encanto, quase a medo,

E quando a noite espreita o pôr-do-sol,

Eu vou falar com elas em segredo...


Mas de todas as prendas, a mais rara,

Aquela que mais fala à fantasia,

São as folhas daquela rosa branca

Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...


Duas estrofes de Folhas de Rosa,

Florbela Espanca.



Como é do conhecimento da maioria dos nossos leitores, o blog Maria Clara: simplesmente poesia tornou-se Projeto de Poesia Feminina idealizado por Hercília Fernandes, em razão dos estudos voltados à compreensão do fenômeno criador, particularmente do universo poético feminino. E conta com a preciosa colaboração de mais duas vozes poéticas da Blogosfera: Mirse Souza e Lou Vilela.

O maior objetivo do espaço é promover a interação entre autores e textos, de modo a viabilizar, para um futuro próximo, um livro coletivo composto com as escritas das poetisas atuantes no espaço - sejam colaboradoras diretas e/ou convidadas.

Tendo em vista a boa receptividade da proposta e, sobretudo, das composições, o Maria Clara irá introduzir algumas mudanças em seu espaço. O blog permanecerá semanal, porém será composto por “oito” vozes que se distribuirão em duas postagens por semana, sempre as segundas e quintas-feiras. A cada semana será introduzida uma nova colaboradora para compor o espaço conjuntamente às poetisas já existentes.

Além das novas aquisições, o quadro “Postagem Simplesmente Poesia” se ampliará, tornando-se postagem permanente, cuja finalidade é sugerir leitura, preferencialmente de voz poética masculina. O quadro é assinado por Maria Clara - personagem-título do blog - e consistirá programação de sábado.

Considerando as informações apresentadas, convidamos a todos os leitores a irem acompanhando, semanalmente, a introdução das novidades, especialmente através da apreciação das escritas poéticas das vozes femininas que passarão a integrar o Projeto.

Um abraço em todos os Amigos que visitam o Simplesmente Poesia,



Hercília, Mirse e Lou

(Amigas da Maria Clara).


A poética [inacabada] de Mirse Souza


Hoje, 26 de julho, a Blogosfera tem grande motivo para comemoração: é o aniversário de nossa querida amiga e poetisa Mirse Souza.

Mirse Souza – residente na cidade do Rio de Janeiro, mulher, esposa, mãe, avó, profissional em contabilidade - é uma das vozes poéticas femininas mais atuantes na Web. Além de publicar, diariamente, em seu espaço poético “Meu Lampejo”, a poetisa mantém sempre atualizadas as visitas e os comentários aos blogs dos amigos poetas, incentivando a todos os que se lançam à produção literária. Ademais, Mirse oferece contribuições em mais dois espaços literários: O gato da Odete e, aqui, no Maria Clara: simplesmente poesia.


A voz poética de Mirse Souza se destaca pela fusão entre paisagens da memória, onirismo e espiritualismo. Realismo, sonho e transcendência se interpõem em suas linhas; onde, por vezes, se evidencia um certo descontentamento temporal presente, mas, simultaneamente, um crescente otimismo na redenção da palavra.

De forma equivalente à obra inacabada de Mondrian, Mirse Souza monta o mosaico de sua criação poética. De poema em poema, as idéias e os estados emotivos da autora vão oferecendo forma a sabores, tons e conteúdos linguísticos. Essa realidade demonstra uma sensibilidade imagística e técnica em evolução contínua e aponta para a visão holística da autora que aglutina uma diversidade de contextos e, ao mesmo tempo, se refaz ao nascer de novo dia.

Tais qualidades contribuem para remeter o leitor à reflexão das coisas transitórias da existência humana e abre perspectivas para a contemplação profunda dos mistérios que permeiam a eternidade: a alma.

Em seleta de textos extraída do blog pessoal da poetisa, o leitor pode observar algumas das características então mencionadas de sua criação poética. Passemos à voz [inacabada] de Mirse Souza:




Candura



Quando criança, em meio a dúvidas

Sempre achava que sabia. Tudo!

Pensava que sabia dos ruídos,

Dos amigos, das rosas, do dinheiro,

Dos silêncios, daquele vazio que sentia...

Só agora, no outono da vida aprendi

Que quanto mais procurava, menos sabia

Agora eu sei que no dia em que alguém

te ama faz um tempo muito bonito

Permeia o mundo uma extrema candura


Assim a gente esquece noites de tristeza

Mas jamais esquece uma noite de ternura.



Manhãs de tempo



Agonizo a contento,

a hora de terminar

o implacável tempo.


Absorta no silêncio, vejo.

A essência do que se foi,

o tempo não transporta

do agora para o depois.



Auto Retrato



Sou a lágrima furtiva,

o engano em forma de vida

Da fotografia, sou o negativo

Na natureza, sou o desvio,

Não sou sombra, sequer o abrigo

Do destro, sou a mão esquerda

Na companhia, sou a ausência

Das palavras, sou o silêncio

Sou o ápice da dor

Sou o espinho que feriu

em forma de coroa, o Criador

Sou a mãe que não vingou

Borboleta sem cor

Perdida num mundo

Imundo de Amor?

Sou a obra inacabada

De Mondrian,

Sou o que ele não acabou.



Mirse, querida amiga e poetisa,


receba os sinceros cumprimentos de respeito, afeto e admiração de todos os que fazem o Maria Clara: simplesmente poesia.


Muitas Felicidades: hoje & sempre. Parabéns!



Ainda carnaval

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O Carnaval de Arlequim - Joan Miró.



O luxo e o lixo

compõem a fantasia

do folião mascarado


As sapatilhas puídas

enquanto o baile não finda

exibem seus passos


Nostálgica alegoria:

a vida se esvai

em ritmo de frevo

num baile de carnaval




Lou Vilela in Nudez Poética



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Renúncia


Cortarei as asas das borboletas

para que fiquem imóveis.

Para que não pousem levianas,

fazendo ciranda, em alheios móveis.


Cortarei as asas das borboletas

para que não percam a cor e a beleza.

Para que não busquem néctar nas flores;

para que não vivam por vãos amores.


Cortarei as asas das borboletas

para que definhem até a morte

para que mudem seu destino, sua sorte.


Cortarei as asas das borboletas

para que morram sentindo as dores

pela ausência que jaz, o néctar das flores.




by Hercília Fernandes

in: Retrato de Helena, 2005.

Arte disponível no Google Imagens.