
À noite

Musa
Faça-me atemporal!
habilmente, pinta-me musa
insana, orgástica, passional:
óleo [em ebulição] sobre tela.
Assim, o tempo será inócuo aos olhares
apesar da carne apodrecida.
Lou Vilela in Nudez Poética
Postagem Simplesmente Poesia (11)
Arte digital de Fátima Queiroz.O guizo da serpente, um idioma
A foto mal batida como toma-
É sino que badala sem aviso,
FRIEDA. FRIDUCHITA. FRIDUCHA. MAGDALENA CARMEN. FRIDA KAHLO, por nina rizzi
“E no entanto, embora cada um tente fugir de si mesmo como de uma prisão
que o enclausura em seu ódio,
faz parte do mundo um grande milagre:
eu o sinto: toda vida é vivida.”
Rainer Maria Rilke, Le livre du pèlerinage
Nome: FRIDA
Sobrenome: KAHLO
PINTORA
1907-1954
Nacionalidade: mexicana
Esposa de Diego Rivera
Admiradores dela: Trotski, Breton, Berggruen, Duchamp, Kandinsky, Murray, Picasso...
O primeiro quadro dela que vi foi Alguns piquezinhos. Fiquei estática diante da obra, tamanha era sua violência. A violência que eu vivi e vivo em cada amor, em cada dia. Eu era aquela moça assassinada; a moça assassinada era a mulher que abandonei. Soube depois que teve origem numa notícia de jornal: um homem esfaqueou a esposa e diante do juiz disse que deu “apenas alguns piquezinhos”...
Oswald de Andrade disse que a poesia está nos fatos, certamente os quadros de Frida Kahlo também. Poesia em telas. O cotidiano nas telas. Ela transforma o seu sofrimento em poesia, a poesia que se vê em seus quadros. Melhor que qualquer biografia é a sua própria obra, já que pinta o que vive, o que sente. Uma pintora original e fiel à sua originalidade, ao estilo que desenvolveu. Sua obra evolui conforme ela própria. De um “menino frustrado” a grande mulher mexicana em busca de suas raízes (ainda que para satisfazer um homem, o homem que ama), sem nenhum traço de estrangeirismo, nem mesmo influências de seu marido, também pintor, Diego Rivera.
Quando ainda era criança enfiou o pé em galhos e ficou manca, com o passar dos anos a perna foi se atrofiando. Aos Dezessete anos está num ônibus com seu então namorado Alejandro quando um trem lentamente vai esmagando o ônibus em que está Frida. Um ferro entra-lhe pelo quadril e sai de seu sexo. A coluna quebrada. Dores por toda a vida. A bailarina pintada de ouro. O ouro que cai em seu corpo ensaguentado.“Meu corpo é um marasmo. E não posso mais escapar dele. [...] Meu corpo vai me soltar, a mim, que sempre fui sua presa. Presa rebelde, mas presa. Sei que vamos nos aniquilar um ao outro, a luta portanto não tem vencedor.”
Há quem diga que ela era muito narcisista (quem não o é?), devido aos seus inúmeros auto-retratos. Mas não é bem assim. Logo após o acidente ela teve que ficar de cama, pois estava com a coluna engessada. A mãe pensando em agradar a filha colocou um enorme espelho no teto do quarto. Frida odiou, mas nada disse à mãe para não magoá-la. Foi nesse período que começou a pintar. E ela pintava o que via. Seu rosto e busto, a barriga e as pernas não saíam debaixo das cobertas...
“O espelho! Carrasco dos meus dias, das minhas noites. imagem tão traumatizante quanto os meus próprios traumas. A impressão incessante de ser apontada com o dedo. “Frida, olhe para você.” [...] Eu perscrutava meu rosto, meu gesto mais insignificante, a dobra do lençol, seu relevo, as perspectivas dos objetos espalhados que me cercavam. Durante horas e horas, sentia-me observada. Eu me via. Frida dentro, frida fora, frida por toda parte, Frida ao infinito. [...] Mas de repente, ali sob aquele espelho opressor, tornou-se imperioso o desejo de desenhar. [...] A maneira clássica para aprender, eu utilizei um modelo: e mesma.”
O primeiro amor de Frida aconteceu aos quinze anos, antes do seu fatídico acidente. Conheceu Alejandro Gomez Arias na Escola Preparatória Nacional, a melhor do México. Depois de seu acidente a família deu um jeito de mandá-lo pra Europa com a desculpa de ampliar seus estudos, mas a verdade é que Frida Kahlo não era uma boa influência para o garoto, além de ser aleijada.
Abaixo uma das anotações dela sobre o seu amor distante:
“A distância torna as coisas fictícias... Sim... Não... quanto mais uma coisa se afasta, mais ela se aproxima ao mesmo tempo, pois passa a pertencer somente a nós, ao nosso próprio mundo. A cada um dos seus passos, meu coração estava com ele, menos pesaroso. E, entre ele e mim, não estava mais o oceano, mas sim meus quadros que pouco a pouco se criavam no meu espírito.”
Eu troco “meus quadros”, por meus escritos. Novamente, assim como os poetas, Frida externa sentimentos tão comuns a todos nós e, melhor: sem rebuscar.
Casou-se com Rivera, pintor mexicano.

“[...] Apaixonei-me por Diego e isso desagradou meus aos meus pais porque Diego era comunista e parecia, diziam eles, um Breughel gordo, gordo, gordo. Diziam que parecia o casamento de um elefante com uma pombinha.”
Se quanto à poesia podemos nos dizer Frida, eu, exteriormente digo-me o próprio Rivera, o macaco libertino!
“[...] Para mim, era um monstro. No sentido sagrado do termo, mas também no sentido próprio. Tudo nele era feito em tamanho grande. Produtivo, prolífico, transbordava de vida, de euforia, de idéias, de pintura. [...] Cobriam-no tanto de elogios como de insultos.”
O museu Frida Kahlo no México fica em Coyoacán. Na “casa azul” onde Frida morou.Stálin havia “jurado” o permanente revolucionário Leon Davidovtch Trotski, então ele obteve asilo político no México, mais exatamente na “casa azul” de Frida Kahlo.
Como todos sabem, ela teve um romance com ele, mesmo este sendo casado com a Sra. Natália Trotski. Eles tiveram um romance quase adolescente. Escondiam-se não só de Natália, mas também de Rivera, que mesmo não escondendo suas proezas amorosas, era demasiado ciumento. Trocavam cartas que circulavam dentro dos livros que eles se emprestavam e perto de Natália falavam em inglês. Dizem que eles se separam por razões políticas já que as coisas não andavam fáceis pra o velho vermelho, um romance só poderia piorar a situação. Mas como em todos os casos de amor, nunca saberemos quem largou quem e porquê, e, na verdade, que importa isso diante da obra de ambos?
Frida chama Trotski, carinhosamente, de “velho” já que ela tinha vinte e poucos anos e ele cinqüenta e oito. Sabendo agora desse “apelido” e o nome da mulher dele, o que nos remete ao poema do Leminski:
o velho leon e natália em coyoacán
desta vez não vai ter neve como em petrogrado
aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado
aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando com em
petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado
aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo
Frida, ao contrário da maioria das mulheres e principalmente homens, sabia que todo ser humano é bissexual por natureza, e não procurava esconder o fato dos outros menos ainda de si mesma, dava vazão a todos os lados.
“Tlazolteotl, a deusa do Amor, deve ter estado sempre comigo. Fui amada, amada, amada – não o bastante, porque uma vida não é o suficiente. E eu amei sem cessar. Com amor, com amizade. Homens, mulheres. [...] a mulher goza com todo o corpo, e que esse era o privilégio do amor entre mulheres. Um conhecimento mais profundo do corpo da outra, sua semelhante, um prazer mais total. O reconhecimento de uma aliada. [...] não havia medidas, só podia ser tudo ou nada. Da vida, do amor, tenho uma sede inesgotável. E, depois, quanto mais meu corpo estava ferido, mais necessidade eu tinha de confiá-lo às mulheres: elas o compreendem melhor. Espera tácita, doçura imediata.[...] Creio que somos múltiplos: acho que o homem traz o sinal da feminilidade, que a mulher traz o elemento homem, que os dois trazem neles a criança.”Frida morreu em 1954, sua saúde piorara muito e ela para tentar dissipar a dor se entupia de álcool e remédios, já não tinha mais aquela força da sua juventude, já não tinha mais vontade de viver. Estava cansada.
Suas últimas palavras? Uma frase em seu diário: “Espero que a saída seja feliz e espero não voltar nunca mais.”
Por fim, um poema de Frida>>
Eu sorria. Nada mais. Porém a claridade se fez em mim, e no mais pro-fundo do meu silêncio.
Ele, ele me seguia. Como minha sombra irrepreensível e leve.
Dentro da noite um canto soluçou...
Os Índios pareciam alongar-se, sinuosos, nas ruelas da aldeia.
Iam ao baile, envolvidos em sarapes, depois de beberem
mezcal. ma harpa e uma jarana por toda música, e por
toda alegria, as morenas sorridentes.
Ao longe, por trás do Zocalo, o rio cintilava. E ele se escovava, como
os minutos da minha vida.
Ele, ele me seguia.
Acabei chorando. Encolhida a um canto do pórtico da igreja,
protegida por meu rebozo de bolita, alagada em lágrimas.
E eu, alagada de mim, alagada de Frida Kahlo.
E pra quem quiser saber mais sobre Frida Kahlo o melhor é observar minuciosamente cada um de seus quadros, em ordem cronológica. Aí está sua autobiografia.
Para os mais sedentos:
- Frida Kahlo, de Rauda Jamis (em espanhol)
- A biography of Frida Kahlo, de Hayden Herrera (em inglês)
Pra quem não quer ler, veja no youtube (em inglês, mas melhor que o filme de Julie Taymor).
construção
imagem capturada na internet sem indicação de autoria. mas lembro de tê-la visto nos jornais lá pelos idos do doismilicinco... nina rizzi
ura na queda, desafiei o malandro e fiz
mas tem mais samba rei de ramos!
ana de amsterdam
palavra de mulher! fui todas as mulheres de atenas!
mas essa minha canção, o meu último blues
Perdição
Adão e Eva: Gustav Klimt
........................Afã!
................se fez
.........compota
....quando lua
............inteira
............-mente
..................torta
.....................maçã...
(07/09/09)
Pedra na lua*
Quando digo que não mais te quero
É a ti que eu venero.
Quando finjo um meio sorriso
É porque meu riso ainda é sincero.
Quando rasgo o véu e digo:
― O mel de tão doce virou fel.
Não me estranhes!
É porque ainda cobiço o teu céu.
Quando te escandalizo
E devoro o mito
Deformando Narciso
É para, logo depois, cometer suicídio.
Quando te esqueço,
E aquela voz velada aqueço
Me comprometo, rezo um terço
E me converto ao teu desejo.
Quando não te digo nada
E faço do silêncio a minha causa
É porque as palavras têm cauda
E já não me resta nenhuma lauda...
Quando me enfeito de diva
E repito: ― Sou eu tua Marília.
Não acredites, é tudo mentira!
Apesar do nome me fazer bem à rima.
Quando não sei quem sou
E te peço socorro
Não me dê a mão
Porque não te quero morto
Em meu coração.
Quando estou naqueles dias
A ponto de jogar pedra na lua
Me leves a sério, me leves pra rua
Me faças mulher, me deixes ser tua.
Mesmo que eu diga: ― Não!
Deixe a chuva cair
Pra lua reluzir de paixão.
Quando o tempo mudar:
― Me esqueças! E desapareças!
Porque o vento levou a contemplação...
Anúncio:
A poetisa e professora universitária Adriana Karnal deixou-me abundantemente emocionada com o ensaio crítico: A poesia subjetiva de Hercília Fernandes. Aproveito o post para agradecer o belo gesto da poetisa e a convidar os amigos à leitura do artigo.
*Poema extraído do livro: Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 61).
Postagem Simplesmente Poesia (10)
Às vezes
não sei por que motivo
afogo o olhar
em trágicos silêncios.
Para encontrar a luz
me bastava enfrentar
a noite, porque possuo
nos olhos o apelo
errante das sombras.
Pequenas traições
tatuadas na pele
são apenas pretextos
para disfarçar os medos.
Um remorso
germinando na lembrança
devolve-me o temor
de múltiplas solidões.
by Graça Pires
Doce pecado*
um doce pecado
um favo de mel
uma estrela que caiu do céu
- do céu
uma rosa que desabrochou
um beija-flor que a beijou
um nome para eu chamar de amor
- de amor
o meu amor
não é meu namorado
não é um caso é um mar agitado
onde ondas vem e vão
onde as pedras tristes sangram de solidão
Minha Querida,
Vim até ao Mar. Brevemente, mas vim. Até si!
Não disse uma única palavra. Apenas a senti em silêncio.
E beijei-a, terna e apaixonadamente, aconchegado na lembrança.
O meu peito rebenta em emoção. Anseia pela sua voz, por essa sua suave expressão, que me estremece completamente.
Transbordo em sentir por saber o que pulsa incontrolável dentro de mim. Tenho tanto medo de a perder! Por isso, agarro-me à esperança.
É assim que de novo vejo o Mar. No mesmo lugar de ontem.
Hoje, as águas estão amenas e a luz é outra.
O instante da origem ocorreu e fui recriado. Foi um tsunami que me varreu!
Não foram apenas as águas que me preencheram. A sua voz abalou-me.
Há uma menina do Mar em si. Que voz doce e meiga! Nunca tinha ouvido uma sereia!
Ainda estou envolvido nas palavras incorporadas em silêncio.
Tudo ou nada? Respondi tudo. Recebi, nada.
Como desejava essa resposta!
Só se alcança o todo se este for formado pelo tudo e pelo nada.
Sabe, o amor tem que ser intenso e permanentemente rasgado por instantes de paixão!
E por si, sou arrebatado sem resistência. Em coerência com o sentir, pois não sei ser de outra maneira.
Se não me quiser, serei lágrimas desgarradas. E todas elas a amarão.
Mas continuarei a ser! Mesmo em cristalinos, que entregarei ao correr dos tempos como flores de luz azul que nos guiarão ao reencontro eterno.
Que inevitavelmente acontecerá!
Sei-o porque sou Multiverso. Dele criador e nele autor do tempo.
Mas acima de tudo, aqui, neste instante gerador de futuro, sou esperança.
E amor. Em azul!
Novos mares nascem, mas nós permaneceremos e criaremos em Luz.
Não pense. Sinta-o!
Um beijo terno, doce alma
*Canção composta em parceria com Marcus Vinícius há longínquas águas...
**Fotos disponíveis no Google Imagens.
possuída
o sol aparece depois de tanta chuva
acontece que o mofo se instalou nas minhas veias
nos meus cabelos nas minhas unhas
o mofo está cobrindo meus olhos
e criou musgo na minha boca
os sons que chegam são quase inaudíveis
tenho medo de ouvir minha voz
e perceber não ser minha
os gritos da guerra estão próximos
e não os ouço
o coração está úmido e verde
o lodo que cobre as paredes e os muros
tomou conta definitivamente de mim
Ah! Se.......
Gostaria de ter a engenhosidade métrica de João Cabral,
Ou proclamar pedras e a natureza como Manoel de Barros.
Um pouco de sensualidade, também não me faria mal
Inspirar em meus poemas as inquietações de Clarisse
Voltaire, Bachelar, Balzac, Pessoa, Mário de Andrade...
No entanto, seria apenas um sonho a se tornar realidade.
Talvez pudesse cantar estrelas, invadir o mar com rosas
Ter em mim um pedacinho que fosse de Guimarães Rosa.
Mas simples em meu dizer, contradigo o reverso e vivo
No adverso do eu que pretendia ser, como uma pedra
Que dilata a solitude, a tristeza e ofusca a luz , onde crivo
Poemas que crio e revejo o que não queria dizer e digo.
Creio em mim como um ser nativo no mar, mas ainda
Envolta em concha, teima em não abrir e arder à palma.
Em metáforas, metonímicas, na semântica que fico a dever
àqueles que meus versos lêem e só encontram uma alma
que ao escrever um poema, acalanto ou prosa, acalma
o espírito, que existe na poeira cósmica de um centrado ser,
Me comovo demais e me perco de mim. Assim sou eu.



