Figos cristalizados...





Ela faz doce de figo
despeja a tristeza e as frutas
todas no tacho
Raspa a colher de pau em círculos
Com a delicadeza de quem afaga
Voltas e voltas
também dá seu pensamento
o vapor quente que se desprende
é névoa fina embaçando a realidade
no movimento lento
lembra dos corpos fundidos
nas tardes mornas daquele novembro
perfeitas engrenagens
azeitadas em suor e saliva
aumenta o fogo
incendeiam-se
a pele nunca queima
acelera o ritmo
apura o doce
o aroma da fruta se desprende
seu cheiro a beija em silêncio
seus olhos a descascam inteira
sua boca faz trilha nos montes
suas mãos juram-se no infinito
o ponto final se aproxima
mexe o tacho com mais força e rapidez
mais e mais e mais
derretem-se em um só
derramando-se pelas beiras
apaga o fogo
esfria o tacho
apronta o doce
em finos cristais de açúcar
passa cada figo
cada lembrança
cada arrepio
cada beijo
cada jura
passa também seu coração
cristalizando tudo
nos doces vidros da memória

(Wania Victoria)



CONFIANÇA

Imagem by mail


Pisando em brasas
alinha à terra, caminhos...
abre os braços tal asas
não sente nos pés o ardor.
Na face, o carinho do vento
no peito, emerge o amor
maior do que penso.
Isto se sente, ao abrir
portas, à luz da lua.
Se há lágrima no amor,
há seiva na flor e assim...
insinuo a poesia.
Em mim.

Defronte



E quem é você
para oferecer
conselho?
A ironia
de todo dia
diante do espelho.

Alguém
que já viveu
além do esperado?
O sarcasmo
em pleonasmo
disfarçado.

Ninguém lhe disse
ser tolice
o que pensa?
O desafio
em feitio
de ofensa.

Decerto que não
- respondi secamente -
que não sou de sermão,
mas de ser confidente.


Poema publicado em 10 de setembro no Doce de Lira.

É agora, Maria



e agora, Maria?
não tem mais José
nem teogonia
rompeu-se o anel
da monogamia
e as luas de fel
de parca alegria
( pois é, quem diria...)

você que é tantas
tão cheia de graça,
agarre-se ao tantra
a vida é trapaça
qual queima de estoque
das casas Bahia
avance, tropece
(trespasse, vadia)

sozinha no escuro,
supere, só_ria
a palavra é prata,
silêncio, de ouro,
a lavra te cobre
( te resta a poesia)

bendita Maria
que um raio a parta
conceda alforria
declare-se farta:
liberte-se
(ainda que tardia)

É agora, Maria.

.

* Momentos *


arte : Nanduxa


em momentos absolutamente meus
vejo-me ancorada ás areias do mar
facetas navegam em escunas
sentimentos aportados em dunas

nuvens esculpem no céu
aquilo que reconheço em mim
grãos de areia se agrupam
desenham rostos disformes
que as águas sugam

esquadrinho meu íntimo
encontro-me congelada no tempo
como se fora um ser que as águas salgaram
inerte vida que o mar e o vento emolduraram

Úrsula Avner

Nudez indesejada

.

Jean-Hippolyte Flandrin



Rompo o branco desta paisagem com tinta preta, em gel. Preto e gelatinoso tem sido também o meu pensamento desde que o vi completamente nu, sem o seu cavalo branco. Uma linda e frágil silhueta surgiu: a força, a imponência, a altivez cederam espaço. Onde estaria a  armadura medieval, o aparato de guerra? O que fazer com a ausência de roupas? Eu já não as uso há um bom tempo, sei bem lidar com a minha nudez; não com a sua. Melhor vestir-se! Faz frio - não saberia como protegê-lo, sei apenas rezar.




.

Vaporizada

.
.
Olhos com ranhuras vermelhas
[presente da madrugada.
Ao som de Paco
fecho minhas órbitas oculares
e deixo-as arder no firmamento
[veias irregulares que pulsam
ao redor de minha visão bicolor.

Não é só sede, agonia... é fricção
esfrego-me em suas lembranças
e deixo o resto para o café da manhã
que nem tomo
mas espero você por detrás do vapor
corizando intrigada:
seria eu só mais uma menina
dos seus olhos baços?


Das sentimentalidades e/ou das cartas de amor


Todas as cartas de amor são
ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
ridículas.

Álvaro de Campos,
heterônimo de Fernando Pessoa.
...................................................
E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente
interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria
de um luxo radioso de sensações!

Eça de Queirós,
fragmento textual de O primo Basílio.




Essa não é uma carta de amor. Não é uma expressão de afeto, nem mesmo o provérbio de uma oração parafraseada por minha solidão.
Essa não é uma construção advinda de uma inspiração, nem, tampouco, um soluço, um goto em meu coração.
Essa não é uma escrita de reflexão. Não é objeto da ciência, nem da religião. Essa é o nada, é o tudo, é apenas palavra.
Palavra que tomo emprestada, que revitalizo quando me tomam os ouvidos as vozes sufocadas. Palavra que desmereço: nego, imito, transponho, aqueço.
Essa é apenas palavra ritmada: palavra frouxa, palavra desenfreada. É apenas mais uma das minhas cartas sem causa. Palavra que bebo, vomito, redimensiono quando acordada.
Não é tragédia, não é fábula. Não é conto, não é novela. Não é romance, nem poesia. Não é epopeia, nem libreto de cavalaria. Não é realidade, nem fantasia. Não é letra de música, não é alquimia.
Pois essa carta não é uma carta de amor, nem objeto de estudo. Não é uma expressão de dor, nem mesmo um sussurro desengonçado.
É apenas palava. Palavra que desencaminho ao leitor.
Palavra que me veste os olhos d’alma e se deforma em vale de lágrima.
É apenas palavra, palavra que não se importa com as entrelinhas e se permite sozinha perder-se em curvas-linhas.
É apenas palavra. Palavra que não se cansa de se achar, de se perder, de chorar... Palavra que colore paisagens secretas, que fecha, empurra e abre portas entreabertas.
É apenas palavra. Palavra que se desfigura, não tem medo de sol nem de chuva; nem tem a pretenção de pretender, nem a falsa modéstia de não convencer...
Mas não é uma carta de amor. Não é um sonho, nem a quimérica ideologia de um suposto autor.
É apenas palavra. Expressão reflorescida no corte, na primavera, na dor. Mesmo assim não é uma carta de amor!
É apenas palavra. Palavra que pinta lacunas nas laudas. Palavra sem cauda que ora é notícia, ora vira fumaça.
Por ser nada e ser tudo não necessita de motivo ou de refúgio, apenas de um entretenimento no posfácio e de um sintagma bem elaborado no prefácio.
Por ser nada e, quase, ser tudo, leitor, dispensa referências e glossário, pois essa carta – que não é de amor – só precisa de um bom vocábulo!...



*Um bom vocábulo, texto adaptado pela autora para postagem em o Maria Clara, extraído do livro: “Agá-Efe: entre ruínas e quimeras” (Fernandes, Hercília: 2006, p. 83-85).
**Arte: José Ferraz de Almeida Junior.