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Figos cristalizados...





Ela faz doce de figo
despeja a tristeza e as frutas
todas no tacho
Raspa a colher de pau em círculos
Com a delicadeza de quem afaga
Voltas e voltas
também dá seu pensamento
o vapor quente que se desprende
é névoa fina embaçando a realidade
no movimento lento
lembra dos corpos fundidos
nas tardes mornas daquele novembro
perfeitas engrenagens
azeitadas em suor e saliva
aumenta o fogo
incendeiam-se
a pele nunca queima
acelera o ritmo
apura o doce
o aroma da fruta se desprende
seu cheiro a beija em silêncio
seus olhos a descascam inteira
sua boca faz trilha nos montes
suas mãos juram-se no infinito
o ponto final se aproxima
mexe o tacho com mais força e rapidez
mais e mais e mais
derretem-se em um só
derramando-se pelas beiras
apaga o fogo
esfria o tacho
apronta o doce
em finos cristais de açúcar
passa cada figo
cada lembrança
cada arrepio
cada beijo
cada jura
passa também seu coração
cristalizando tudo
nos doces vidros da memória

(Wania Victoria)



Sobrei

Iman Maleki


Meu amigo me esqueceu

Ele é invisível como eu

mas conversamos, brincamos..... e,

em inaudíveis vozes nos encontramos

Conversamos, porque sozinho,

não tem graça jogar aviãozinho

meu amigo esqueceu que é invisível

como eu. Seu nome muda conforme o dia

à noite contamos medos e agonias,

mas agora que ele me esqueceu...

sobrou-me eu.