Ao pé da letra
um urro único
ultrapassa umbrais,
ulcera úvulas,
urge
um uivo último
ultraleve, ultrassônico
usurpa ultramares,
ultima
um ulo unívoco
une umbigos,
universaliza usos,
urde utopias
usufruto, uai.
* * * * * * * *
sequela
consequência tinha trema
quando ele se foi, sequioso
tremi
na sequência
sigo só
ô sequidão
* * * * * * * *
tentação
Teresa não-me-toques
torce o terço:
tanto tato, tanto tino,
tanta trava...
ô tristeza!
Tire o atraso, Tetê
tempo é tudo
destempere,
atreva, tropece
Se toque.
* * * * * *
Gênese da escrita
Feliz Ano-Novo
Com uma lente côncava esperando a outra convexa
Um sol por nascer.
É só quando o caminho filtrar as cores
Que o desconhecido se abrirá.
O ano é novo ainda
A foto não secou.
...mas é com a retina que prefiro refletir.
Um 2010 muito colorido a todos!
Múltiplos cais
desde o primeiro olhar, oceano:
alumbramento,
perdição.
Sim, soube-te!
boca, tato, narinas,
múltiplos cais.
Duo, ouvidos,
referência em signos.
Lunáticos sentidos,
mananciais.
Eu, bicho do asfalto,
quedei-me, esquisito,
entre flores e atos,
estrelas, afins.
Refiz o caminho,
anagramas per versos,
aceso estopim.
.
Arte de Milo Manara, 1997.saltos & anéis
Passei os dias
sem consultar astros e anais
sem rever afáveis linhas
sem colar e degolar figurinhas
sem usar saltos e anéis.
Passei os dias
sem admirar postais
sem chover caleidoscópios
sem mentir que nem Pinóquio
sem lavar mãos e pés.
Passei os dias
alimentando pausas
nas entrelinhas: hi ber nan do...
passei os dias
com saudade
de sua poesia
passei os dias
com cheiro de barro
com terra entre as unhas
sem nenhuma grandiloquência
sem nenhum excesso
passei os dias
entre sorrisos mútuos
a experimentar os lábios
nas palavras iorubás
passei as noites
a contar estrelinhas
a descobrir reticências
a destituir pontos finais
passei aqui
para me saciar
neste salto
em que anelo
o meu olhar
2009 consistiu solo fecundo à atividade poética. Alguns poemas existentes em o HF diante do espelho motivaram olhares e novas composições; como os versos, in resposta, do poeta mineiro Fernando Cisco Zappa ao texto “Saltos e anéis”.
Aproveito o post para agradecer a todos os poetas e poetisas da Blogosfera pelas interações vivenciadas neste ano e desejar que 2010 nos chegue ainda mais abundante em imagens, versos e múltiplas criações.
Feliz 2010 a todos e todas!
Névoa
Busquei a essência do teu grito
Inaudível ao meu ouvido
Buscavas a amiga invisível
Busquei a pureza do pássaro
Que ascende em direção ao céu
Buscavas a companheira silenciosa
Era primavera, havia névoa e véu
Mirse Souza
in Meu Lampejo
___uniVersos femininos
Ela já não chora mais...
Seus olhos sempre marejados
Não verte a lágrima precisa.
Acha que a vida não vale nada
E segue em passos apressados
tentando antecipar a reta concisa
para decerto converter em óleo,
sagrado, a lágrima que cairá furtiva.
Se houver tempo...
se houver premissa.
by Mirse Souza
Lena Gal: Terra de brisa perfumada
Que mulher jamais aturou
reclamação de chefe mal humorado,
cantada de bêbado atormentado,
bronca de motorista mal educado
ou ciúme doentio de um namorado?
Que mulher nunca sentiu dor
do bife tirado da cutícula,
de cotovelo, parto mental,
por ter feito papel de ridícula
ou pelo fim do caso virtual?
Que mulher jamais ocultou
lágrimas de felicidade,
a sua verdadeira idade,
excesso de adiposidade
ou passar fome por vaidade?
Que mulher nunca teve que dar jeito
numa meia desfiada,
numa amiga bandida,
numa relação falida
ou numa unha lascada?
Que mulher jamais se culpou
pelo filhinho na escola menosprezado,
pela atitude do namorado safado,
por não ter ficado com o bico calado,
por bisbilhotar o celular do amado?
Que mulher nunca
quis vir monge na próxima encarnação,
nem clamou estar farta de chateação?
Lá no fundo, pronta pro que der e vier
sente orgulho por se chamar Mulher.
by Maria Paula Alvim
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