Anúncios


Por motivos maiores, o Maria Clara não realizará, neste sábado, a “Postagem Simplesmente Poesia (17)”, ficando para o próximo sábado, 31/10/09.

Todavia, convido os amigos leitores a uma visita ao blog do ilustríssimo poeta "Fred Matos", que se encontra, hoje, festejando data natalícia.


Querido Fred,


receba o carinho e a admiração sincera de todos os amigos e amigas que fazem o Maria Clara: simplesmente poesia.

Felicidades ternas e eternas aos seus muitos "eus" nos caminhos e descaminhos da poesia.


Parabéns,

Hercília Fernandes.


Mulheres tônicas

CÂNDIDA, A MÉDICA

Era a tímida típica, estrábica, pálida e asmática. Espírito ético, pródigo.
Engolia críticas e sapos pétricos. Máscara pacífica.
Apesar da sólida clínica, lágrimas a faziam líquida. Náufraga sem fôlego.
Morreu de cálculo nefrético crônico. Trágica estatística, a propósito.

- * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -* - * - * - *

ÂNGELA, A MÍSTICA

Nasceu católica, cresceu evangélica. Tornou-se esotérica, taróloga e astróloga. Numeróloga, confundia-se nos dígitos, nada econômica em dívidas e dúvidas.
A análise de arquétipos e horóscopo custava uma fábula de cédulas.
Num dia úmido e fatídico, caiu-lhe um satélite no fígado.
Simbólico e meteórico término para uma vida caótica.

- * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -* - * - * - *

EURÍDICE, A MÍTICA

Beleza helênica, âmago hermético.
Métodos esdrúxulos: para escapar do lúgubre ômega mitológico, namorou homens com H maiúsculo: Hércules, Hipólito, Hermócares...
Casou-se com Ícaro.
Eurídice e cônjuge sobrevoaram, como pássaros, o Etna. Vôo panorâmico. Túmulo vulcânico.

- * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -* - * - * - *

FÁTIMA, A MÚLTIPLA

Ótima em Física, Química e Matemática, Fátima era pouco prática.
Optou por Gramática, Semântica, Linguística, sem êxito: péssima retórica.
Estudou Música: voz inelástica e cântico tétrico.
Tráfego célere: um ônibus elétrico atropelou-lhe a sina ilógica.

- * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -* - * - * - *

BÁRBARA, A ÚLTIMA

Romântica e utópica, Bárbara era um fenômeno trágico-cômico, de ímpetos cíclicos, cáusticos e histéricos. Os músculos, flácidos.
A vida passara qual relâmpago, sem Príncipe para preencher seus côncavos. Haja ginástica!
Átila, o personal trainer, era único: rústico, másculo, carnívoro.
A jovem máquina tântrica ressuscitou em Bárbara colágeno e espírito.
Mágica clássica. Melhor que plástica.

- * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * - * -* - * - * - *

* Facetas femininas do Éden *




Fonte da imagem: vidapimentada.blogspot.com ( sem informação de autoria )



O que se entende ser mulher

é gota em abissal oceano

mistério trancado a sete chaves

oculto atrás de véus e panos


a degustação do fruto proibido

lançou a sorte

definiu a direção da libido

de Maria, Ana, Teresa

daquela que tira e põe a mesa


da que ama em desvario

doidivana no cio

da que agoniza

em silêncio de arpão

no breu da solidão


daquela que faz da família

seu porto seguro

da que caminha sozinha

tateando da vida o muro


daquela que é prenhe de ideias

da que contempla numa tela vazia

um campo de azaleias


O salário do pecado é a morte

dor no ventre

sangra o corte

clamor nas entranhas

rasgadura na pele e na alma

reza de benzedeira

agonia de parideira



Úrsula Avner


* O verso "O salário do pecado é a morte" é bíblico

Postagem Simplesmente Poesia (16)


Literatura com sotaque


O sotaque na língua é o traço mais marcado de uma identidade nacional ou local. Ter sotaque é mostrar raízes. Entretanto, não é difícil encontrar aqueles que desejam apagar um sotaque,porque,de fato, ele pode vir cheio de preconceitos.
De acordo com Marcos Bagno, "preconceito linguístico é a atitude que consiste em discriminar uma pessoa devido ao seu modo de falar". Esse preconceito é exercido por aqueles que tiveram acesso à educação de qualidade, à “norma padrão de prestígio”, dos que ocupam as classes sociais dominantes. Na verdade, não é a maneira de falar que sofre preconceito, mas a identidade social e individual do falante. A literatura, contudo, tem lançado mão do sotaque para dar sua voz, para revelar as peculiaridades de algum lugarejo, para desvelar o exótico que há nas diferentes localizações mundo afora. Muito desse sotaque se vê no conto paródico de Fernando Sabino, chama-se O homem vestido e faz parte do livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo. O que se explora no texto é o sotaque carioca do homem:


Estava nu e do lado de fora do apartamento. Situação difícil em qualquer lugar do mundo. Mas aqui não é qualquer lugar. Aqui é o Rio de Janeiro. E no Rio é tudo praia, sol, Cristo, bunda, bala. Homem pelado aqui não é problema.
– Que porra é essa, meirmão?
O corredor vazio. Nove da manhã. Apenas o pelado e um careca.
– Meu senhor, a porta bateu. Fiquei na rua. Compreenda.
O sujeito ajeitou a calça e entrou no apartamento. Minutos depois, voltou com um calção vermelho.
– Agora vê se não vacila.
– Ô amigo, sem palavrash.
Despediram-se com um leve sinal de cabeça.
O dia correu normalmente.

Black English


Podemos ir mais longe, a música negra sempre se utilizou do sotaque para se fazer ouvir. O rap é identificado em seu grupo não tanto pela força da palavra em si, ao contrário, é o sotaque da palavra que a fortalece. A letra de Gansta Rap demostra toda a rebeldia pelos sons das palavras que se contraem especialmente na última sílaba:

Whassup, Whassup?! Westside !!
Time to take you back to the days of old Six-fo Chevys,
big fat go Out throw the West with the Gangstas rollin' South Central L.A. : my home
Ice Cube and them niggaz with the tooth Shown to motherfucker how to blast a deuce
(come on) BLAH !! Dr Dre, NWA, Eazy-E and Ren fuck what you say
**** * *** for them niggaz up north ghettoboys we was like "Fuck the law!
Dubcee nigga **** *** we thought you how to gangbang


Novo acordo ortográfico


Ainda que as novas regras tenham sido introduzidas na escrita da língua portuguesa elas ainda não conseguiram ser incorporadas pelos falantes, muito em razão de a escrita refletir a pronúncia. Carlos Alberto Faraco afirma: A mídia costuma apresentar o Acordo como uma unificação da língua. Há, nessa maneira de abordar o assunto, um grave equívoco. O Acordo não mexe na língua (nem poderia, já que a língua não é passível de ser alterada por leis, decretos e acordos) – ele apenas unifica a ortografia. Algumas pessoas – por absoluta incompreensão do sentido do Acordo e talvez induzidas por textos imprecisos da imprensa – chegaram a afirmar que a abolição do trema (prevista pelo Acordo) implicaria a mudança dapronúncia das palavras (não diríamos mais ou de lingüiça, por exemplo). Isso não passa de um grosseiro equívoco: o Acordo só altera a forma de grafar algumas palavras. A língua continua a mesma.

Na poesia portuguesa de Nilson Barcelli vemos o “c” no meio da palavra porque os portugueses não conseguiram modificar seu sotaque, de fato, será difícil ajustar a escrita à maneira de falar.


À noite, sempre que toco os teus seios,
eles perdem a lisura e ficam mais convexos
ao tacto e à mercê.
Deles e das tuas linhas de cetim e de veludo em feitio violeta,
aconchegantes e côncavas, ficam-me no corpo,
durante o sono, o bordado das formas
e o quebranto dos perfumes.

O Mooquês

Se por um lado falamos do preconceito linguístico, por outro lado há os entusiastas do sotaque. O vereador Juscelino Gadelha (PSDB) entrou com um pedido curioso no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp). Ele quer tombar o ‘ mooquês ’. Trata-se do sotaque cantado e italianado do bairro da Zona Leste fundado em agosto de 1556 por um grupo de jesuítas. Algumas características do Mooquês são: o ‘ r ’ puxado e a falta do ‘ s ’ no plural. A explicação repousa na origem do bairro. Quando imigrantes italianos passaram a habitar a região eles tinham dificuldade em pronunciar essa letra no final das palavras, já que o italiano não prevê essa estrutura. O mooquês aparece nas canções de Adoniran Barbosa:


Voceis pensam que nóis fumos embora
Nóis enganemos voceis
Fingimos que fumos e vortemos
Ói nóis aqui traveis
Nóis tava indo
Tava quase lá
E arresorvemo
Vortemos prá cá
E agora, nóis vai ficar fregueis
Ói nóis aqui traveis


Explicações que ninguém pediu (parodeando a Hercília)


O livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo está disponível para ser baixado gratuitamente e lido no celular, um dos sete títulos – todos inéditos – que a Editora Plus, de Porto Alegre, lançou neste formato.

Para ler mais sobre o tombamento do sotaque da Mooca acesse aqui.

Para ler a bibliografia completa de Marcos Bagno, como o excelente Preconceito lingüístico ou A língua de Eulália, acesse seu site.

Poemaa/Pérola

Vê que sob teu efeito
tenho taquicardia.
Fazem cócegas em meus pés
as flores das pétalas redondas.
Sebo nas canelas!
Ao escorregar dos tamancos
as solas cantarolam
Bem-me-quer-Mal-me-quer
Brinco
Subo nas cadeiras
O amor é uma pérola
raríssima.

Postagem Simplesmente Poesia (15)


por cima de ervas & pedregulhos




ordi(bi)nário


Amavam-se por adição

Na cama subtraíam as diferenças

Dividiam os prazeres

Multiplicavam os gozos


A relação não durou...

Ele se envolveu com a Álgebra

E mudou seu logaritmo


Ela nunca o perdoou por isso

Seu coração ficou partido em frações

Potencializou a raiva por muito tempo

E até hoje não conseguiu extrair a raiz do problema


Wania, in: Encantaventos



amor 4X4


meu coração é 4X4

simples puxadinho em morro

................................................condenado

...........................mesmo quando desmorona

.............................sempre cabe mais um

em vão ensolarado


.............................................amor feijão com arroz...


Hercília Fernandes, in: HF diante do espelho




Camilo quis sinceramente fugir, mas não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo. Fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.


Machado de Assis, in: A cartomante.



Estraga Prazer

(notas de explicação que ninguém pediu...)


Dentre as temáticas que compõem a literatura brasileira destaca-se a trama do “triângulo amoroso”.

Um dos escritores brasileiros que mais desenvolveu o tema foi Machado de Assis (1839-1908), que analisara os conflitos humanos, as máscaras sociais, e os embates entre os valores e convenções da sociedade brasileira no século XIX aos dilemas e apelos do amor sensual.

Essa realidade pode ser observada em o conto-romance Dom Casmurro, onde Machado desenvolve todo um jogo ficcional-narrativo entre os valores cristãos burgueses e os conflitos provenientes do amor romântico.

Através das ânsias e ações das personagens Bentinho, Capitu e Escobar, o escritor coloca em xeque as convenções sociais comuns à sua época; que impunham arranjos de casamento entre famílias por interesses comuns e não por laços de afetividade.

No conto A cartomante, Machado também desenvolve a trama do triângulo amoroso. Por meio das personagens Vilela, Rita e Camilo, o escritor apresenta perfis psicológicos densos e situações intensas acerca das relações entre gênero e, especialmente, da imagem feminina.

Na obra machadiana é comum a aparição de personagens mulheres dissimuladas, interesseiras, traiçoeiras, oblíquas... o que demonstra a visão patriarcal-cristã da época que confere ao feminino os atributos de Eva e/ou serpente...

Para Luft (1991), o escritor transfere às personagens femininas os seus próprios problemas existenciais: ambição, desvencilhamento com o passado, peso da hierarquia social... Esses conflitos se podem observar nas personagens Guiomar e Helena, ambas da primeira fase do escritor: a romântica.

Por outro lado, segundo destaca Bergamini (2008, p. 2), “o escritor via a mulher como um elemento social que maneja e comanda, sendo astuciosa e cerebral, divergente, nesse ponto, da mulher romântica”.

Essa última observação condiz à segunda fase do autor: a do realismo. Nessa fase destaca-se o autor analista, observador, frio no raciocínio, na exposição de fatos que “retrata a mente humana”, analisando-a com ironia e humor (LUFT, 1991, p. 578).

No tocante à temática do triângulo amoroso, Machado em Dom Casmurro e em A Cartomante desenvolve as narrativas sob duas perspectivas. Em Dom Casmurro, o autor deixa à livre imaginação do leitor o desfecho da narrativa: a menina de “olhos de ressaca ou de cigana oblíqua e dissimulada” traiu ou não Bentinho? Eis um conflito que inquieta gerações de leitores!

Para Bergamini (2008), devido Machado desenvolver a trama em uma temporalidade psicológica acaba por provocar a ambiguidade, levando o leitor a dúvidas sobre os fatos; tendo em vista que: “O conto mostra como o desejo pode abrir brechas em situações de opressão. Nada acontece objetivamente entre os dois” [entre Capitu e Escobar]. Todavia, “onde nada aconteceu, tudo pode estar acontecendo subjetivamente” (BERGAMINI, 2008, p. 11).

Já em A Cartomante, o triângulo amoroso é descrito objetivamente por meio da voz de um narrador onisciente que descreve uma situação de adultério entre uma mulher casada que se apaixona pelo amigo de infância do marido. Entretanto, apesar do adultério consistir o centro da narrativa, para Bergamini (2008, p. 11), o triângulo amoroso é mais um pretexto para o escritor revelar os “dilemas da consciência, da relatividade dos valores, bem como das fraquezas morais a que todos estão sujeitos”.

Também na poesia, a temática do triângulo amoroso é bastante explorada pelos poetas. Conforme se pôde ler no poema ordi(bi)nário, da poetisa Wania de Porto Alegre-RS, a relação entre amantes é descrita como harmoniosa até entrada de uma terceira pessoa, ou melhor de uma "Álgebra", no poema-equação surgindo conflitos entre pares que nem sempre podem encontrar “a raiz do problema”...

Em o texto amor 4X4, evidencia-se também a expressão sutil de uma situação triangular, onde a escrita poética acena para os dilemas humanos em razão das intempéries amorosas.

Em ambas as situações, o que se percebe é que os sentimentos, sensações e analogias realizadas pelas vozes líricas apontam para-além das aparências e revelam, “por cima de ervas e pedregulhos”, a própria obliquidade inerente à condição humana.



Referências


BERGAMINI, Denise Lopes. As mulheres no conto de Machado de Assis. In: Darandina Revista Eletrônica. Programa de Pós-Graduação de Letras – UFJF, v. 1, n. 2, 2008, p. 1-17.


LUFT, Celso Pedro. Novo Manual de Português: Redação, Gramática, Literatura, Ortografia Oficial, Textos e Testes. São Paulo: Editora Globo, 1991.


MACHADO, Assis de. A Cartomante. In: ______. 50 contos. Machado de Assis. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das letras, 2007.



*Artes disponíveis no Google Imagens.

**Texto escrito por Hercília Fernandes.


notas de verão sobre impressões de inverno

fotografia Serviluz sem Fronteiras, in: Overmundo


nina rizzi


: mas que direito tenho a aspirar à poesia menor — amores perros, fugidios, quando a minha saga é tão maior e bruta e o que me foge às mãos é um meio de subsistência?


talvez, caso fossem personagens russos, o frio — tão rotineiro —, lhes teria mais sentido. vivem nesse país tropical, na capital-solar, cidade quente da porra. têm o cartão-postal que qualquer rico invejaria, ah, barra do ceará, praia do futuro, ah! que não lhes serviluz.


vêem suas dignidades feridas, ao pedir o terceiro quarto do peixe que voltará ao mar feito lixo, doença de turistas branquelas. mas que remédio? pense na fome, cabra.


também russos se fossem, melancolia que só, não ousariam ostentar esse riso despreocupado, a mendicância displicente feito cabelos levados pela maresia, a mesma que os salva de dia e provoca os tremores noturnos. de frio de fome de vício.


essa moça, atrevida que é, fala em primeira pessoa. é que, ao contrário das outras, não espera num gringo os degraus que a fará galgar os cumes da gula. pós-de-arroz. não. coloca as cinzas inteiras na lata vazia e a-guarda num bocejo. abre a boca bem larga levando as duas mãos à face cerrando os olhos, como numa oração à morte asteca, índia, nordestina.


: nació para morir.


Bilíngue



[e por falar em formigas...]

O que posso dizer...

se tuas palavras não-ditas
vestiram-me, bilíngue, rosa partida
entrelaçada em flor
de sisal?

se há na tua língua um tropel de formigas
onde levantei broquel suicida
capaz de fundir
manancial?

O que posso dizer...

se todas as cores de Monet cegaram-me
a retina, traindo-me as narinas entre
surtos e silêncios
de Chagall?

se depois de vender flores, enfileirar
flamas em frascos de
silêncios assustadores
o resto me parece
completamente
banal?

mais...

por falar em formigas...