Um causo 'cem' motivos

 


I

....................Minha boca se perdeu da tua
....................no momento da fusão.
....................Não era para causar furor ou dúvida
....................mas gerir a ebulição.

II

....................Tal foi o meu espanto
....................foste a tua indignação.
....................Não se sabia se branca ou escura
....................a causa da indisposição.

III

....................E ali ficamos sem notícias
....................à mercê do jogo de adivinhação.
....................Com pouco apareceu a polícia
....................a prova final da humilhação.

IV

....................O soldado da milícia
....................pôs maior fogo na confusão.
....................Ousando fazer malícia
....................da quizila e má reputação.

V

....................Como toda farta fadiga
....................tem também fim a narração.
....................E essa durou deveras deriva
....................por cem motivos de opinião.

VI

....................Eu, a pobre heroína,
....................não quis ficar na contramão
....................Fui-me com o soldado de polícia
....................para não perder a ocasião.

VII

....................Tu, o moço descontente,
....................compensaste a solidão.
....................Dedicastes à Virgem Santíssima
....................teu novo amor, guia, proteção.

VIII

....................Assim se deu nosso causo:
....................Cem motivos de espanto e aversão.
....................Tu vestiste farda bata abatida
....................Eu, laranja-lima da região.

IX

....................E como preza boa cantiga
....................foste, tu, benfeitor da união...
....................Deste a bênção Divina
....................ao casal motivo de expiação.

X

....................Agora só nas horas altíssimas
....................trocamos os credos de devoção...
....................Confesso-te as asas partidas
....................Tu alivias a dor da desilusão:

....................Cem Salve Rainha, Cem Padre Nosso,
....................Cem Ave Maria...

....................Aleluia, Senhor, Amém!...



*Causo em ão narrado no dia 26 de maio de 2008, no HF diante do espelho.
* Imagens de cordéis disponíveis no Google.

Celeste...




No silêncio das tardes
Quando Deus aquarela os dias
Eu sinto a respiração dos Anjos
No sopro das asas dos pássaros

Wania Victoria


Fotografia tirada pela minha amiga Letícia quando fomos à Igreja Sacré-Couer, em Paris.  A placa era o foco, mas a pombinha foi a estrela da fotografia.  Uma tarde dourada de outono emoldurada por um celeste azul.

Rasante



O que tem
no peito?
Uma caixa-preta
em perfeito
estado
que contém
cada dado
(indevassável)
de sua cabine:
o que pensa
(mente),
o que sente
(crença)
e até,
bem provável,
o que você nem define.

O que me soa
mais triste?
É que
(ao que parece)
você só existe
dentro da caixa
e voa,
amiúde,
em altitude
tão baixa,
como quem
desconhece
(incapaz)
a magnitude
(prece)
da asas
que traz.


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 19 de outubro no Doce de Lira.

Dias de Não

Freedom : Menekse Cam



Um triste canto

canta na alma

o des encanto

de um amor

que esperei

des esperei

guardei no

p r a n to.

língua de trapo


( imagem retirada da internet - autoria desconhecida)



o ponto fraco:
falta-me pinto
mas tenho peito
e não me oprimo

tive partos,
gesto pactos
pago e reparto o pato
lavo pratos,
cirzo trapos,
o que vier eu topo
ma non troppo

levo pito,
represo o pranto
despisto
sempre pronta,
disposta
toda prosa

o ponto forte
eu já te conto
está na ponta
- da língua

.

* Caminhante *

imagem : Autumn
autor : Duy Huynh

moça vidente
ia despejando encanto
ao longo da estrada
moinho de vento
afugentava a passarada

entendia de clarear
o caminho
andando descalça
até o pernoite

era sol o que luzia
na face alva
de vagar pela noite

se pudesse
nascer de novo
viria com asas

Úrsula Avner

Das setas


para não me perder do que fui,
abraço a Memória.
para construir o que serei,
alio-me ao Desejo.

Sem título


Não se deveria escrever a toa
a mão é corpo
a caneta só lhe acompanha.
Sem propósito apenas a vida,
enquanto a poesia tem trilha, métrica e rima.