Poesia na escola
Postagem Simplesmente Poesia (19)
Poesia na escola
Tempo (quando eu fizer 40 anos)
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.
Este poema é de Adélia Prado. Achei muito oportuno para essa semana
que completo a idade emblemática dos 40 anos. Não tenho problema algum, aliás, em revelar minha idade. Estou entrando naquele momento de vida em que não se tem mais vergonha do mundo.
Era uma vez...
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido
(Ferreira Gullar)
Cedo ou tarde
me seria necessária.
Quero um vestido
de manhãs ensolaradas
e sapatos alados.
destilei cicuta
um cretino
instigando, dis.puta!
Era tarde, chorei...
exorcismos, re.versos
ao avesso me vi
divino-perverso.
Mergulhei em esgoto
quebrei o mosaico,
uma vida fingida.
Cedo ou tarde, parti...
na mala um uivo
e um punhal
de saudades.
Postagem Simplesmente Poesia (18)
Per Augusto & Machina:
tumulto e racionalidade em intimidade
1. é louco ser solene.
....é lúcido ser louco!
2. se tenho, como última morada
....o som caleidoscópico da vida
....carrego matrizes, almas sombreadas.
3. meu coração de cavalo, meu ato de terra
....surrado dos demônios, ímpio em desvario.
4. quando surge de mim, fiquei varrido.
....e meu estado de coisa correu solto!
5. qualquer ambiguidade tem um tônus
....que corta toda a alma pelo avesso!
6. a dor fecunda das hostes:
....vou retomar meus laços com a vida.
(Romério Rômulo in: Abertura 1, p. 13, 2009).
Esta semana, ao retornar de breve viagem, pude sentir a agradável emoção de ter em mãos o livro Per Augusto & Machina, do poeta mineiro Romério Rômulo, lançado recentemente pela editora Altana.
O livro me fora oferecido pelo próprio poeta, que, além de me ofertar a obra com uma deliciosa dedicatória, me encaminhou mais uma de suas criações poéticas: o livro Matéria Bruta, lançado também pela Altana, em 2006.
As obras apresentam notória excelência literária e evidenciam a grandeza imagística e estilístico-semântica do poeta na captação e reverberização dos fenômenos que permeiam a existência humana e a atividade poética.
Além disso, os livros comportam excelência na apresentação visual e gráfica, incluindo ilustrações que, além de enriquecerem o suporte material, contribuem para inquietar o espírito dos leitores durante a apreciação e ressignificação textual. O que demonstra o zelo e o respeito do artista, igualmente da editora, para com a arte poética; apresentando, aos leitores, um suporte de qualidade, criativo e arrojado, compatível à beleza intrínseca à criação literária do artista.
No tocante ao Per Augusto & Machina, o livro apresenta-se composto por poemas que se distribuem em 127 páginas e conta com belíssimo prefácio, intitulado “Uma poética implacável”, escrito pela professora, crítica literária e poetisa Maria da Conceição Paranhos. Leiam-se algumas das falas da literata voltadas ao processo de criação do Per Augusto & Machina:
Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. [...] Desde o título, Per Augusto & Machina, o poeta des-capitaliza os vocábulos, quer rendê-los, observá-los e indagá-los sem mistificação, des-convencionando o arbitrário da língua. Por augusto e sua máquina, em favor de uma realidade mais real, em favor do homem-augusto, que assim grafado, adjetivado, nos remete a um ser humano restaurado à sua dignidade (in: Prefácio, 2009, p. 7).
Na obra, Romério Rômulo dialoga com o poeta Augusto dos Anjos e desenvolve, segundo Maria da Conceição Paranhos: “Temas recorrentes como a loucura, a corruptibilidade do corpo físico, a solidão, a morte buscam sua existência na linguagem, onde ganharão consistência e força de ataque, homem e cavalo” (in: Prefácio, 2009, p. 7).
Em abril deste ano tive o prazer de entrevistar Romério Rômulo em café literário virtual no Novidades & Velharias, cuja entrevista se desenvolveu, basicamente, em torno do Per Augusto & Machina; que, na época, encontrava-se em processo final de editoração. Na ocasião, uma das questões abordadas girou em torno da loucura. A partir dos versos “de quantas nuvens se faz uma loucura? / é construída a mão que bate o prego?”, pertinentes ao poema Uma bravura regenera a noite, interroguei Romério sobre a dialética loucura-racionalidade durante o instante criador, onde o poeta argumenta:
O criador, ou criativo, é aquele que foge do tom, que surpreende. Então, a loucura é um dado. Mas, e se eu consigo organizar essa loucura? O Oscar Niemeyer não organiza, faz prédios e cidades? Parece um contra-senso, um absurdo, e é. Mas, é real. Daí termos situações como o Rimbaud, que aos 19 anos se sentiu esgotado, ou o Niemeyer que, centenário, continua operando. Mananciais e construções, no caso, são diversos. Tumulto e racionalidade, aqui, são íntimos (in: Novidades & Velharias, 19 abr. 2009).
Hoje, lendo os poemas do Per Augusto & Machina em material impresso, a ideia central que me vem à mente, e, que de certa forma confirma minhas primeiras impressões de leitura, é que se delineia, no curso da obra, uma constante intimidade. Intimidade capaz de unir mundos aparentemente opostos, porém complementares: sonho e manualidade, vida e morte, imagística e historicidade, devaneio e intencionalidade; enfim,
[1] Para saber mais sobre o poeta visite o blog Romério Rômulo e/ou leia a entrevista concedida ao Novidades & Velharias, em abril do ano corrente.
[2] Texto também postado em o blog Novidades & Velharias.
Referências
- RÔMULO, Romério. Matéria bruta. São Paulo: Altana, 2006.
- ______. Per Augusto & Machina. São Paulo: Altana, 2009.
hommo erectus
entre olhos a brilhar e o queixo caiado.
os cabelos, carapinha em exuberância,
pôs-se a moça, largos dentes a umbigar.
único
Arte: Francielle
Ele inda longe...
mas não é ponte apartheid
distância é somente abismo geográfico
inalienável é esse amor sem fim
- poço profundo.
Postagem Simplesmente Poesia (17)
Sem chegar...
Maré imunda,
encardida,
de infortúnios –
onde eu navego
e navego,
sem a nenhum lugar
chegar.
Eita, maré de azar.
caminho o mundo feito caranguejo
eternas são as voltas ao ângulo de partida
onde o porvir nasce lateral e arcaico
não é fácil destituir ponto determinado
não é fácil enfrentar feras e feridas
não é fácil tornar luxo pardieiro
às vezes, sinto-me sem chão, sem seio
e meus dias, espero contados...
(fragmento)
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro.
Estraga prazer
(notas de explicação que ninguém pediu...)
A lírica moderna tem raízes no Romantismo, cujos poetas estavam convictos de que a vida não poderia ser explicada unicamente pela “mecânica do relógio”.
A história do movimento romântico coincide com o surgimento das grandes revoluções como a Revolução Francesa; embora tenha sido na Alemanha, por volta de 1800, que o termo “Romantismo” tenha recebido as primeiras acepções artísticas com Schiller (1759-1805) e, sobretudo, Goethe (1749-1832).
Ao invés da lógica e da estética reinante inspirada na tradição clássica, os artistas desejavam a plena liberdade da criação, evocando a espiritualidade e o sentimento profundo. O romantismo criticava a primazia da razão do pensamento ilustrado do século XVIII e postulava a prioridade do subjetivismo do eu individual em oposição ao conhecimento objetivo e as verdades absolutas, fazendo apelo “[...] ao élan da imaginação, às forças do sonho e da paixão” (MUCCI, 1999, p. 118).
No Brasil, o movimento romântico foi se definindo a partir de 1836 com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves Magalhães, e coincidiu com grandes eventos da História, dentre eles a vinda da Família Real Portuguesa, em 1808.
A literatura romântica brasileira fora impregnada por ideais nacionalistas. A natureza selvagem, o índio como símbolo nacional, o sertão, o regionalismo, a vida urbana e o recente episódio da independência contribuíram para manter aceso o espírito romântico que convergia com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa.
Entretanto, nas últimas décadas do século XIX, acentuam-se na poesia romântica as influências de Byron e Musset, dentre outros, modeladas dentro da essência mórbida do “mal do século”, configurando a segunda geração romântica.
Um dos poetas brasileiros que absorvera o espírito pessimista do mal do século foi Álvares de Azevedo que desenvolvera temas mórbidos, angustiantes, melancólicos; expandindo em versos o individualismo e subjetivismo comum à sua época que, além da imaginação criadora, expressavam o mal-estar dos artistas e intelectuais diante a nova ordem social estabelecida pós-revolução industrial.
Na atualidade, o avanço tecnológico, a globalização, a complexidade dos meios de comunicação e produção, bem como das relações humanas, têm contribuído para formar uma nova subjetividade pautada no individualismo exagerado, no acúmulo de saberes e habilidades técnicas, que, por sua vez, geram novas exigências à condição humana; originando um clima de "incertezas" perante o caos que a racionalização pós-moderna, ou melhor, a "sociedade do conhecimento" produz (MORIN, 2003).
Porém, conforme se pôde ler nos versos da poetisa carioca Bina Goldrajch, destaca-se na Blogosfera uma produção poética que exprime certo pessimismo e descontentamento diante este estado de coisas, que por sua vez resiste à mecanização dos sujeitos e à bipolarização da natureza humana; questionando, além do curso do eu-subjetivo, o próprio destino da humanidade.
Referências
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1972.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Repensar a reforma, reformar o pensamento. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
MUCCI, Latuf Isaias. A concepção romântica de arte. Ipotesi: revista de estudos literários, Juiz de Fora, v. 3, n. 1, 1999, p. 117-131.
*Imagem extraída do blog Deglutição de pensamentos,
da poetisa Bina Goldrajch.
não quero nem ver
não quero nem ver a hora em que ele chegar
e perceber que os objetos de que mais gostava
estão amontoados no canto da sala
que os seus cedês preferidos
estão empilhados sem ordem
e seus livros adormecem
numa caixa de papelão sem cor
que os seus quadros tristes
estão encostados na parede
não quero nem ver quando ele perguntar
de suas camisetas desbotadas
que usava para ficar em casa
e se deitar na cama comigo
que meus lençóis estão com outro cheiro
o travesseiro tem outra forma
e na geladeira nova marca de cerveja
não quero nem ver quando ele perguntar do nosso gato
e souber que está aninhado em outro colo
não quero nem ver quando ele descobrir
que os meus olhos brilham mais
e que minha boca tem um outro sorriso


