Celeste...




No silêncio das tardes
Quando Deus aquarela os dias
Eu sinto a respiração dos Anjos
No sopro das asas dos pássaros

Wania Victoria


Fotografia tirada pela minha amiga Letícia quando fomos à Igreja Sacré-Couer, em Paris.  A placa era o foco, mas a pombinha foi a estrela da fotografia.  Uma tarde dourada de outono emoldurada por um celeste azul.

Rasante



O que tem
no peito?
Uma caixa-preta
em perfeito
estado
que contém
cada dado
(indevassável)
de sua cabine:
o que pensa
(mente),
o que sente
(crença)
e até,
bem provável,
o que você nem define.

O que me soa
mais triste?
É que
(ao que parece)
você só existe
dentro da caixa
e voa,
amiúde,
em altitude
tão baixa,
como quem
desconhece
(incapaz)
a magnitude
(prece)
da asas
que traz.


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 19 de outubro no Doce de Lira.

Dias de Não

Freedom : Menekse Cam



Um triste canto

canta na alma

o des encanto

de um amor

que esperei

des esperei

guardei no

p r a n to.

língua de trapo


( imagem retirada da internet - autoria desconhecida)



o ponto fraco:
falta-me pinto
mas tenho peito
e não me oprimo

tive partos,
gesto pactos
pago e reparto o pato
lavo pratos,
cirzo trapos,
o que vier eu topo
ma non troppo

levo pito,
represo o pranto
despisto
sempre pronta,
disposta
toda prosa

o ponto forte
eu já te conto
está na ponta
- da língua

.

* Caminhante *

imagem : Autumn
autor : Duy Huynh

moça vidente
ia despejando encanto
ao longo da estrada
moinho de vento
afugentava a passarada

entendia de clarear
o caminho
andando descalça
até o pernoite

era sol o que luzia
na face alva
de vagar pela noite

se pudesse
nascer de novo
viria com asas

Úrsula Avner

Das setas


para não me perder do que fui,
abraço a Memória.
para construir o que serei,
alio-me ao Desejo.

Sem título


Não se deveria escrever a toa
a mão é corpo
a caneta só lhe acompanha.
Sem propósito apenas a vida,
enquanto a poesia tem trilha, métrica e rima.

Nerudianas


.

Prefiro que não, amada.

Para que nada nos amarre
que nada nos una.

Nem a palavra que aromou tua boca,
nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem teus soluços perto da janela.

Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se deitam com a morte
no leito do mar.

(Pablo Neruda in Crepusculario)


Seria tua musa desde que
aprendêssemos a roçar
minha língua tua língua
envolvidas nesse mar.

Envolvidas nesse mar
suculentas nerudianas
mil histórias duas bocas
minha língua tua língua

alagadas tateando
aprendêssemos a roçar
enviesadas declarando.

Seria tua musa desde que
duas línguas um destino
soubessem conspirar.

(Lou Vilela in Nudez Poética)
   


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