- As Vanguardas Européias e o Modernismo Brasileiro: As correspondências entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira (SANTOS; SOUZA, 2007).
- Línguas que roçam a língua: o fazer metalinguístico das poetisas na Blogosfera (FERNANDES, 2009).
SIM PLES MENTE POESIA
William Turner, pintor inglês
Maria dos morros dos velórios
das sacadas das calçadas
dos achados dos perdidos
da Maria-vai-com-as-outras
e da outra, a que fica
Daquela Maria que almeja
paixão preguiçosa
que mexe remexe acomoda
(não se atreve ir embora)
traveste-se em amor
Também da Maria-abismo
antro de perdição
Maria-bordô!
Da Maria de encantos mil...
Maria-rosa chocolate
branco neve algodão doce
Maria-espinho
Importada nacional
acadêmica analfabeta
executiva piloto de fogão
Maria do príncipe
(futebolístico ou não)
Maria que ama Maria...
Daquela que crê que reza que implora
que vai à igreja que despacha na esquina
que não dá bola
Maria da fome, dos talheres de prata
erudita popular
(“ir-me-ei...; toma lá da cá!”)
Maria boêmia abstêmica
avião balão
Maria, Maria...
Bruta lapidada
peçonhenta panaceica
(dese)equilibrada
puta indissoluta
(r)evolução estelar
Todas belas, todas manias
com ou sem cria
Marias emoção!
Sim, todo dia é dia de Maria!
que tomba levanta que sonha
que cala, das vozes-maria
Maria (im)perfeição
Maria poesia
- Ave, Maria!
Lou Vilela
* Adaptação de imagem by Lou Vilela
NOTAS:
- Salve, salve Marias! - às novas [vozes do Maria Clara] e às nossas de todos os dias.
- Cordiais saudações aos Josés que leem as Marias!
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"O mundo é grande, mas em nós ele é profundo como o mar" (Rilke).
Mar revolto: José Cavaliere
Há um mar em mim.
Um mar de águas revoltas.
Nuvens pesadas circulam passageiras
Areias, em fileiras, atiram-me ao fundo
quase sempre certeiras.
Há um mar em mim
E eu tantas vezes nada entendi:
da cor que me veste olhos d'agua
e do vento que me sopra à maré baixa.
Pois há um mar em mim
E eu não tive sequer escolhas
Não pude dizer (ao mar)
que parasse com esses cantos sombrios
Nem que me deixasse a não-mercê de tais desafios.
Por que esse mar é fora da lei
Não sabe o que é sorte, nem teme solidez
Tudo sente, nada sofre e me move à embriaguês.
Por que esse mar é poço sem fundo
Quanto mais arrasta, mais revira tão doce mundo
Secando-me as águas claras em tons cinza profundos.
Isso tudo porque esse mar é vagabundo...
*Mar vagabundo também em o Balaio Porreta.
ou...
"Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda”...
Vênus - Diego Velázquez
Desejo, por um anjo, o que me é dado:
a morte do desejo que se doa,
um anjo que por mim foi desejado.
Não seja, porque esbanjo o dom à toa.
Eu tanjo o meu cordame de coitado,
com o peito condoído, que destoa
do tom, em desacordo ao acordado.
Da corda vem o sangue que me escoa.
É a pena angelical que me depena
do bem e de meus bens, e já não tarda
não prive mais do mal que me condena.
Eu creio que me resta com que eu arda
solando nos infernos, numa cena
ao anjo do desejo, que me guarda.
Estraga prazer
(notas de explicação que ninguém pediu...)
O conflito entre o eu e o mundo, a intensidade nos apelos da carne, a brevidade da vida, a fugacidade do sonho, os embates dualísticos e as inquietações humano-existenciais são algumas das temáticas que a Literatura Barroca (XVI-XVIII), sobretudo em suas formas poéticas, desenvolvera dentro do gênero lírico.
No Brasil um dos maiores representantes do Barroco fora o baiano Gregório de Matos (1633-1696), “o Boca do Inferno”, que proponha, em sua lírica amorosa, a plenitude dos desejos em contraposição a lírica idealizada da Renascença.
Segundo Pellegrini, em sua vertente amorosa, o poeta “louva a mulher, conforme a tradição lírica anterior, só que trata da mulher desejada, não apenas platonicamente idealizada, de quem se solicita a companhia para aproveitar os prazeres da vida” (in: Palavra e Arte, 1996, p. 264).
Essa argumentação pode ser vislumbrada em o soneto A mesma D. Ângela, onde Gregório de Matos desenvolve, metaforicamente, duas imagens referentes à mulher, realizando trocadilhos entre nomes e estabelecendo antíteses entre Anjo e Demônio - embora esta última imagem não apareça claramente explicitada.
A profanidade na imagem feminina se percebe exposta em o soneto Angélica, do poeta Henrique Pimenta. No texto, o eu-lírico desmistifica a divinização do feminino e evoca a plena satisfação dos desejos; propondo uma inversão de valores ao afirmar em versos que tanje o seu “cordame de coitado”, considerando que é “a pena angelical que [lhe] depena”, por isso mesmo não mais lhe seja privado “o mal que [o] condena”...
No próximo sábado, o quadro "Postagem Simplesmente Poesia", assinado pela Maria Clara, será realizado pela poetisa Nina Rizzi.