ma-grittando

texto de nina rizzi. todas imagsn de renèe magritte.

i-





há homens chovendo
num quadro
e há infinitos quadros
de crianças que chovem
abandonadas em estações.




uns trocados ao acaso;
a recipientalização;
umas tantas e biodiversas
de várias que não mais são
[e flores orientais num diário escolar]



há um cachimbo que é um cachimbo
- ah, a cidade não dorme
e as máquinas não param
e a fumaças no cais
e em mim
e em tudos

ii-





homens beijam mulheres
que chamam suas mulheres
e eles têm as cabeças cobertas
e elas têm vendas nos olhos
que foram vendidos por fissura.



pombas transmissoras de doenças voam
aterrisam voadoras
e as alimentam nuvens
nuvens minhas mãos
: mão esquerda do estado.



uma mulher querendo abortar
o homem invadido em si
invasora mão direita do estado.



olhamo-nos ao espelho
e as carteiras estão vazias
não temos cabeças
e os pássaros de nós
enclausurados em desespero-âmago
: gaiolas que fizeram a chamar de
minhas, meus, tuas, deles, vossas.

iii-



e há consciências
incooptáveis
incorruptíveis
utópicas
que bradam e sonham e distribuem
: esperanças que duram
não mais que um dia;
pronomes revolucionários;
onomatopéias insurgentes;
sujeitos livres
a cantar bailar gritar girar
chover
pelas fumaças
por todos os lados,
estações e cais e tudos
: resistimos
produzimos
existimos
à margem esquerda do estado.



15 comentários:

Graça Pires disse...

Uns poemas fabulosos em diálogo com as pinturas de Magritte. Muito belo e bem conseguido.
Beijos

Hercília Fernandes disse...

Nina,

que beleza de álbum!? Estréia fantástica, minha amiga.

Veio com "tudos": poesia, arte visual, conhecimento, denúncia. Um mar de coisas se tropa e ondas agitam nossos sentidos e idéias.

Maravilhoso painel a denunciar - com diversidade de linguagem e riqueza de conhecimentos - mesmices, violências simbólicas, anomias e as destruições que o Homem e suas Instituições têm provocado a si mesmo e ao todo social.

No entanto, como caldeirão de coisas, em seu mar também navega o “otimismo” e “mecanismos de resistência” dos que, estando à margem, operam modos de reinventar a vida através da arte e da cultura.

Por fim, destaco a simplicidade e beleza intrínseca a linguagem poética que, embora trabalhe com um tema profundamente denso, se permitiu externalizar com vasta fluidez a subjetividade, como fazendo parte do sistema de resistência, a expressão artística de Nina Rizzi.

Meus parabéns, Nina. A sua presença no Maria Clara: simplesmente poesia a todos enriquece. Sinta-se mais do que bem vinda entre nós!

Forte abraço,
Hercília.

Mirse disse...

Que beleza, Nina!

O surrealismo de Magritte, no primeiro quadro é fantástico!
Os homens de chapéu coco, representando a queda. Queda do homem que vem brincar com a realidade da terra.

E em janelas belgas e figuras femininas , acrescidas da interteztualização que deu, ganhamos nós, suas leitoras.

Belíssimo!

Grandiosa estréia!

Parabéns, Nina!

Beijos

Mirse

Úrsula Avner disse...

Oi Nina, poemas de temática forte, reflexiva, ilustrados por figuras igualmente expressivas, brindaram com ênfase sua estréia no blogger. Um diálogo consistente e envolvente entre escrita poética e imagens. Um abraço.

nina rizzi disse...

olá, meninas :)

obrigada pelas boas vindas, leitura e comentários.

um obrigada especial a hercília, com sua leitura sempre tão atenta e afi(n)ada.

sim, e é um prazer pra mim estar aqui entre vcs, visse ;)

bijins com tônicas :)

Maria Paula Alvim disse...

pois é, são tão múltiplos os tentáculos do estado que só (ma)grittando mesmo. Todos os poemas são mto bons, e as imagens caem como luvas - favorito o primeiro ( oh, no, it's not raining men - aleluia). Parabéns pela bela estréia, Nina.

Adriana disse...

Nna,
você dá show de posia, me-nina!

Adriana Godoy disse...

Nina, que beleza de estreia. Um turbilhão de palavras e imagens que mobilizam. Parabéns a você e ao blog. beijos. Tá muito bom isso por aqui. Beijos.

Adriana Godoy disse...

Nina, que beleza de estreia. Um turbilhão de palavras e imagens que mobilizam. Parabéns a você e ao blog. beijos. Tá muito bom isso por aqui. Beijos.

Hercília Fernandes disse...

Nina, brevemente você terá uma surpresa [grittando] lá no Novidades & Velharias.

Estou cada vez mais encantada com seu post intertextual...

Beijos :)
H.F.

Lou Vilela disse...

Os paradoxos de Magritte contracenando com os da natureza humana. Sensível e inteligente construção, Nina! Gostei bastante! ;)

Batom e poesias disse...

Versos belíssimos e imagens impiedosamente coerentes.

É Nina! Não seria outra.

Grandestréia.
Adorei

bjs
Rossana

Hercília Fernandes disse...

Amigos,

escrevi um artigo, conforme já havia anunciado, sobre as atmosferas poéticas e conceitos em "ma-grittando", poema da Nina Rizzi.

O texto encontra-se disponível no blog de estudos Novidades & Velharias:

http://novidadesevelharias-fernandeshercilia.blogspot.com/2009/08/ma-gritte-nina-ri-se.html

Visitas e comentários são sempre bem vindos.

Beijos em todos e todas,
H.F.

Ale Guerra disse...

Desculpa aí. é realmente genial.

nina rizzi disse...

mp alvim, lou, drizes (rsrs), rossana e alê: o texto foi bem conseguido (graça!)graças às imagens de magritte que me grita o que vejo todos os dias. é pintura do que vemos todos os dias em todos cantos, infelizmente.

as temáticas são, como está no marcador e no excelente artigo da hercília, todas embasadas nos conceitos de bourdieu, este sim, mais que recomendado!

um beijo a todas e valeu pela leitura ;)