: mas que direito tenho a aspirar à poesia menor — amores perros, fugidios, quando a minha saga é tão maior e bruta e o que me foge às mãos é um meio de subsistência?
talvez, caso fossem personagens russos, o frio — tão rotineiro —, lhes teria mais sentido. vivem nesse país tropical, na capital-solar, cidade quente da porra. têm o cartão-postal que qualquer rico invejaria, ah, barra do ceará, praia do futuro, ah! que não lhes serviluz.
vêem suas dignidades feridas, ao pedir o terceiro quarto do peixe que voltará ao mar feito lixo, doença de turistas branquelas. mas que remédio? pense na fome, cabra.
também russos se fossem, melancolia que só, não ousariam ostentar esse riso despreocupado, a mendicância displicente feito cabelos levados pela maresia, a mesma que os salva de dia e provoca os tremores noturnos. de frio de fome de vício.
essa moça, atrevida que é, fala em primeira pessoa. é que, ao contrário das outras, não espera num gringo os degraus que a fará galgar os cumes da gula. pós-de-arroz. não. coloca as cinzas inteiras na lata vazia e a-guarda num bocejo. abre a boca bem larga levando as duas mãos à face cerrando os olhos, como numa oração à morte asteca, índia, nordestina.
ratos cinzas e inquietos passeiam nos porões de minha infância acordo e vejo um sorriso meio pálido e uma mulher quase velha no espelho nas pequenas rugas escondidas sob o creme muitas histórias esquecidas e várias vidas ávidas por juventude não tem mais corpo não tem mais volta mas a moça de tempos atrás diz que ainda vale a pena
Quando mergulhei no silêncio dos gestos senti que pairava no ar a essência do poema E foi pela intenção oculta, ritmada... dos versos que, urgentemente, desejei o cessar das palavras
Sou planta de raiz profunda caule cravado em terra úmida o que sei de mim é mera especulação gotas que caem no cochicho das folhas na aridez do chão na fluidez do vento da incerteza no salivar da imaginação
À espera de um momento de luz retorno, sem hesitar, ao itinerário secreto do silêncio e cultivo a solidão multiplicando as sombras. Peregrina de outras luas, resgato a música que me restou da infância, como um sobressalto, ou uma canção de embalar, ou água fresca a ferir-me a boca, de tanta sede.
Estraga prazer : notas de explicação que ninguém pediu:
Caros(as) Leitores(as),
O objetivo da presente postagem, longe de pretender uma análise literária dos textos apresentados, é propiciar uma reflexão sobre a influência das manifestações psíquicas do inconsciente na linguagem poética feminina, à luz da psicanálise e da própria poesia, observando a interlocução entre os textos e as imagens da postagem .
Na piscanálise, entende-se que a linguagem do inconsciente se dá por meio de expressões metafóricas, observadas nos sonhos, chistes, atos falhos, entre outras manifestações psíquicas, que possibilitam a emergência de conteúdo latente. Na criação poética, a linguagem também é metaforizada e transmuta a realidade através das entrelinhas, das figuras ou símbolos linguísticos.
O(a) poeta(isa) deixa vir à tona aspectos de sua subjetividade, permitindo, assim como na psicanálise, que seja expresso, parte do que está oculto, submerso, tal qual o corpo de um iceberg, em que apenas uma pequena parte é vista sobre as águas, enquanto, a maior parte do bloco de gelo está oculto. Dentro de tal analogia, a parte maior é o inconsciente, enquanto a parte menor é a consciência.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, entendia a poesia , entre outras formas de expressão artística, como "um domínio intermediário entre a realidade que nos nega o cumprimento de nossos desejos e o mundo da fantasia que procura sua satisfação." Gaston Bachelard, filósofo, poeta, epistemólogo, tendo se aproximado da fenomenologia e da psicologia , considerava que a imaginação é a própria força criadora do psiquismo que se expressa por meio de um devaneio poético que exige disciplina : "poeta é aquele que fala no âmago".
Apesar das diferenças conceituais entre Bachelard e Freud, talvez se possa afirmar que ambos concebem a poesia como um modo específico de acesso ao inconsciente, ao lugar mais íntimo e misterioso do ser.
Na linguagem poética da notável escritora e poetisa mineira Adélia Prado, por exemplo, podemos contemplar a relação nítida entre a poesia e as questões do psiquismo no viés da psicanálise :
" Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo... Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado. " ( In: Quero minha mãe - Rio de Janeiro: Record, 2005 )
" Aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim " ( Sigmund Freud )
Bibliografia: * FREUD, Sigmund. Obras Completas. Ed. Standart Brasileira, 1974.
* GASPAR, Ana Maria Mendes. " O lugar da psicanálise na obra de Gaston Bachelard. " Lisboa: CFCUL. Tese de Mestrado em História e Filsofia das Ciências, 2008.
obra: mulheres negras de barro escultor: Irineu Ribeiro
Olha a negra descendo o morro cabelo sarará desgrenhado casa de joão-garrancho pixaim ninho de guacho negra fulô negra do andor negra do despacho
rebola a negra barriga de fora cheiro de alho e cebola lá vai a negrinha e mais ninguém mexe as ancas vai e vem
negra do beco negra do morro Lourdes, Sebastiana Joana, Maria do Socorro apanha do marido apanha da vida cozinheira lavadeira faxineira parideira vida sem eira nem beira
Lá vai a negra feinha arrasta as chinelas a caminho da feira
só anda sozinha mastiga casca de canela a negrinha brejeira
sofre a negra mas não se entrega no esmeril da vida se esfrega esquece que não é de ferro é de barro
Amanda Cass nasceu em Auckland, Nova Zelândia, porém reside em Marlborough. É uma artista bastante criativa que se dedica à pintura em acrílico, arte digital e fotografia.
As artes que compõem esta postagem integram a série “coração-balão”. Na série, a artista se inspira no amor, na liberdade dos sentimentos e ações, na própria vida.
A personagem que acompanha as pinturas é uma menina que vê o amor em todos os lugares por onde anda. Sua alma é lúdica, poética, livre... como os pássaros que a seguem e os balões que flutuam em seus sonhos.
Estraga prazer
(notas de explicação que ninguém pediu...)
Existem poemas que não são poemas: são “brincos”. Mais parecem jogos de construção, pois o poeta brinca com as palavras, os sons, os sentidos... Explora possibilidades sígnicas, acentuando o movimento dos versos, das batidas rítmicas. Tudo isso serve para conferir maior ludicidade ao poema, tornando-o jogo estilístico-semântico prazeroso de se ler, ouvir, brincar, descobrir.
Uma das figuras de construção sintática que mais atribui movimento e ludicidade aos versos é a “aliteração”. A aliteração, segundo Sarmento (2005), consiste na “repetição” de um mesmo fonema para realçar determinado som ou conferir maior ritmo à oração. Ela pode ocorrer a partir da repetição de sílabas tônicas, como nesses versos de Manuel Bandeira: “Sino de Belém, pelos que inda vêm! / Sino de Belém bate bem-bem-bem-bem” (apud SARMENTO, 2005, p. 582); como também por meio de “encontros consonantais”.
No último caso, a aliteração, além de promover maior movimento aos versos, estimulando a dicção, também dificulta a pronúncia de algumas palavras, sendo uma figura sonora bastante utilizada em trava-línguas.
Nos textos poéticos acima, as aliterações se expandem a partir de fonemas consonantais. Em os poemas Partilha, Insípido e Chama se destacam aliterações através das combinações com a consoante “r”, que incentivam a dicção e produzem um efeito humorístico, contribuindo para acentuar o sentido lúdico dos conteúdos de significação. Mas há, ainda, a aparição de outras espécies de aliteração nos textos expostos, como as construções fonéticas combinadas às consoantes "n" e "m".
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