Elas cantam amor (4)



O ar frio que entrava pela janela

Adriana Godoy



mais de uma vez ele me disse

que havia solução

que nem tudo estava perdido


mais de uma vez apagou a luz ao sair

me deixou na escuridão do quarto

e pôs Milles Davis para tocar


mais de uma vez me cobriu com o edredon

colocou a mão na minha testa

para ver se eu estava com febre


mais de uma vez me beijou com olhos selvagens

me chamou de vadia de louca de perdida

e deliramos juntos no deserto de nossa cama


mais de uma vez ele chorou

olhando as estrelas


mais de uma vez jurei mudar

era só uma questão de tempo


mas depois de mil e uma noites

depois de apagar a luz do quarto

ele se foi


eu fiquei


e ficou a noite a música

e o ar frio que entrava pela janela



In: Voz




História de pescadores

Nina Rizzi



i-

meu amor me pegou na rede

meu amor pescador

encheu de encher meu ser

palhaços

anêmonas


cheinha de sardinhas era o meu bem a-mar


ii-

meu amor me jogou em alto-mar

me chamava de pescadora

- de ficções


repletamos nossa rede

pintamos palhaças

tudos nosso ser


iii-

meu amor pescava

tudos palhaçarinhas

arrai-ais sardinhas

me enfeitava de outros cheiros


tinha medo do cio de ca-nina


iv-

mandei meu amor pescar

me dava sardinhas

oh, baby, go back

me queria outra

(de fartas carnes

fechada rede)


oh, baby, go back

que de bichos só como

(s)hu(s)-manos


v-

meu amor morreu no mar

não foi afogamento

esbatelamento de agua-rias

bebedeiras


morreu assim

pra mim


In: ellenismos




Fiapo

Líria Porto




um amor cheio de nós

esgarçou-se por inteiro

e depois se emaranhou

desfiou embaraçado

era amor só por um fio

desconfio amo(r)finado

amor sem trilho

sem brilho

sem nós

a sós

d

e

s

a

m

o

r



In: tanto mar



Suicídio

Adriana




Não hei de morrer de tristeza.

Morrerei de amor

que é morte trágica, mas bela.

Reflexo de minha vida tarja preta.

Adeus



In: Adriana Karnal



7 comentários:

Mirse disse...

Adriana, minha grande amiga...como sempre precisa na rotina e no cotidiano do amor. Sublima momentos intocáveis com a sensualidade e um eu lírico voraz!

Aplausos, Adriana Godoy!

Nina rizzi! Linda, meiga, despertou seu amor pescador numa impecável beleza feminina . Não poderia faltar seu humor que encanta.

Nina linda, você é o máximo, para mim!

Doce Líria, canta seu amor em fiapos. Seu eu lírico afinadíssimo
perpassou o amor.

Parabéns, Liria!

Adriana karnal, lançou um eu lírico corajoso e real. Quem não pensa em morte no desespero do amor?

Belíssimo!

Parabéns, Adriana!

Assim, Maria Clara, você presenteou o Simplesmente Poesia
com o mais puro licor do amor feminino.

Parabenizo-a e aplaudo!

Beijos

Mirse

Maria Clara Pimenta disse...

Obrigada, Mirse, pela leitura atenta e farto comentário.

Um abraço.

Adriana Godoy disse...

Nossa, Maria Clara, fiquei encantada com esse trabalho tão especial dedicado às percepções femininas. E orgulhosa de ter um poema meu no meio de tantas poetas maravilhosas. Obrigada por eese mimo. Sucesso ao seu blog tão bem elaborado. Vou ler com mais calma. Beijos.

PS: Mirse, você é quem merece aplausos.Bj

Maria Clara Pimenta disse...

Adriana Godoy,

é uma honra para o Simplesmente Poesia a sua presença.

Sinta-se muito querida entre nós.
Obrigada pelo carinho e palavras de gentileza.

Forte abraço!

Hercília Fernandes disse...

Os nós, a intensidade das emoções e ações humanas a nos acordar para os mistérios e as dores, inclusive as poéticas, que perpassam os relacionamentos.

Este bloco está divino, coisa que a gente se identifica e guarda. Amei "tudos".

Um beijo em todas as poetisas!

H.F.

Cosmunicando disse...

a poesia-força, a intensidade e desprendimento dessas mulheres das quais sou fã: Adriana Godoy, Nina e Líria... agora estou conhecendo também a Adriana K.
Fecharam com chave de ouro essa série =)

adorei!
abraços

Lou disse...

Os poemas deste bloco tematizam turbulências, adversidades, inquietações - como tão bem salientou a Maria Clara na belíssima apresentação da série -, fechando, em grande estilo, o rico trabalho.

Sim... fechando, contudo, poderiam perfeitamente também representar a gênese de "Elas cantam amor" - a sinalização de novos paradigmas, o refazimento a partir do caos, a meta-morfose.

Show, queridas poetisas!

Abraços!