Elas cantam amor (3)



Vazio

Lou Vilela



A mesa posta o choro da vela

um cheiro almiscarado

dois corpos ladeados

lençóis em desalinho:


lembranças que destoam daquele lugar vazio.


Saudades da paixão que gotejava sobre o telhado

escorria pela bica fertilizava a terra.


Mãos tombam sobre a mesa, impotentes.

Abraçam-se os dedos:


- “Seja feita a Sua vontade”...


In: Nudez Poética



Da tua ausência

Graça Pires



Voltarei sempre às paisagens da tua sombra

enfeitada de madressilvas.

Gravarei o teu nome em todas as árvores,

sem marginalizar as razões da tua ausência.

Cantarei palavras sem espessura,

como moinhos de vento,

ou o frágil sabor da chuva.

Dançarei contigo na periferia da manhã

e direi onde começa e acaba

o secreto destino do silêncio.


In: Ortografia do Olhar



Amor maior

Hercília Fernandes



Cantarei a esse amor

(sempre, quando)

Cantarei a ele, amor maior,

conspiração minha e desengano.


Cantarei nas tardes serenas

e nas águas turvas também.

Cantarei com extrema doçura

a esse amor que só vai e vem.


Cantarei se preciso for

para ninar a dor e o silêncio.

Não sufocar tamanho amor

nem a tarde e o firmamento.


Cantarei sem que mereças

ou, mesmo, que me peças.

Cantarei para que não esqueças

a lua, a chama e a promessa.


Mas calarei quando preciso

(sem choro, sem vela)

Fragmentos do meu riso

fina-flor-estampa na aquarela.


In: HF diante do espelho



6 comentários:

Mirse disse...

O eu lírico de Lou Vilela, vai preciso docheiro dos lençóis, ao lugar que acolhe os amantes, e Fecha o poema numa oração. Magnífico, Lou!

Graça Pires, tauou árvores em nome da ausência do amor. Seu eu lírico, cantou, dançou e silenciou!
Divino e próprio do feminino lirismo. Parabéns, Graça Pires!

Hercílio, seu eu lírico entoou um canto que se faz ouvir pelos ares de toda a terra. Maravilhoso!
Parabéns, Hercília!

Como vê, Maria Clara, sua flecha foi certeira onde eros alcançaria.

Parabéns, amiga!

Beijos

Mirse

Úrsula Avner disse...

Lindos poemas, lindas canções femininas ! Bjs a todas.

Maria Clara Pimenta disse...

Mirse e Úrsula,

obrigada pela presença, apreciações e gentis palavras.

Um beijo :)

Hercília Fernandes disse...

O poema da Lou e da Graça Pires são de uma elegância, de um apurado lirismo que nos aquecem as lembranças e os sentidos.

Lindos demais +++

Um abraço, queridas poetisas!
H.F.

Cosmunicando disse...

a beleza da saudade, a ausência... a transmutação da dor em poesia.
aqui também um deleite =)

Lou disse...

Como bem observou a Mê, saudades e ausências transmutadas em poesia - Um canto apesar de..., tão próprio ao feminino.

Mais um trecho da sinfonia “Elas cantam amor”, tão bem executada pelo “Maria Clara: simplesmente poesia”.

Não poderia deixar de enfatizar a minha satisfação de fazer parte de tão bela seleta, ao lado de pessoas que tanto admiro.


Beijos para todas!