i-
há homens chovendo
num quadro
e há infinitos quadros
de crianças que chovem
abandonadas em estações.

uns trocados ao acaso;
a recipientalização;
umas tantas e biodiversas
de várias que não mais são
[e flores orientais num diário escolar]

há um cachimbo que é um cachimbo
- ah, a cidade não dorme
e as máquinas não param
e a fumaças no cais
e em mim
e em tudos
ii-

homens beijam mulheres
que chamam suas mulheres
e eles têm as cabeças cobertas
e elas têm vendas nos olhos
que foram vendidos por fissura.

pombas transmissoras de doenças voam
aterrisam voadoras
e as alimentam nuvens
nuvens minhas mãos
: mão esquerda do estado.

uma mulher querendo abortar
o homem invadido em si
invasora mão direita do estado.

olhamo-nos ao espelho
e as carteiras estão vazias
não temos cabeças
e os pássaros de nós
enclausurados em desespero-âmago
: gaiolas que fizeram a chamar de
minhas, meus, tuas, deles, vossas.
iii-

e há consciências
incooptáveis
incorruptíveis
utópicas
que bradam e sonham e distribuem
: esperanças que duram
não mais que um dia;
pronomes revolucionários;
onomatopéias insurgentes;
sujeitos livres
a cantar bailar gritar girar
chover
pelas fumaças
por todos os lados,
estações e cais e tudos
: resistimos
produzimos
existimos
à margem esquerda do estado.