fim de tarde

aquarela/rafael godoy

É claro que não foi do jeito que eu imaginava. Nem podia ser. Aquela hora em que as pessoas passam voltando para casa, a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada e você ali , sentado , tomando um café e pensando no que vai me dizer. Então eu chego e trago um sorriso meio tímido, meio assustado. Você acende um cigarro e joga a fumaça para o ar e me pergunta o que fazer. Falo sobre o trânsito, da casa velha que ficava perto do Arrudas e de contas a pagar. _Você já viu aquele filme? Ele responde que não e sussurra uma melodia dos Beatles: "I'm so tired".... Pergunto o que ele almoçou hoje e ele me ignora. Raspa a garganta e acende outro cigarro. Disparo na fala, insinuo ciúmes, imito a cena de um filme que vi algum dia. Peço um uísque com gelo. Ele diz que bebo demais, que é cedo pra começar. Não retruco, concordo em silêncio. Ele também pede um, sem gelo. Eu pego um embrulho, guardado na bolsa e entrego pra ele. Ele me olha com os olhos molhados, profundos como a noite que chega. Não consigo ficar parada e peço mais um uísque, vou ao banheiro, molho o rosto na água fria e as lágrimas são quentes . Vejo quando estou voltando que a mesa está vazia. Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão. "I'd give you everything I've got for a little peace of mind". Vamos de mãos dadas para casa.

10 comentários:

Lara Amaral disse...

Sou o garçom a observar essa cena.

Perfeito!

Beijo.

Albuq disse...

Você descrevendo e eu vendo a cena!
Muito legal!

Mirse Maria disse...

Relendo e amando a cada releitura!

DRI! O MÁXIMO!

Beijos

Mirse

Adriana Karnal disse...

Adri Godoy,
Adoro quando vc faz esses roteiros de filme "noir"...

Úrsula Avner disse...

Texto muito bom Adriana ! Você escreve com muita propriedade sobre o cotidiano e suas nuances... As telas do filhão continuam lindas ! Bj com carinho.

Hercília Fernandes disse...

Belíssima aquarela, Adriana!

Sua sensibilidade para compor quadros é fantástica. Paisagismo humano [interior/exterior] que amplia ângulos de visão e remete o leitor à composição de cenas, ressignificando-as.

Mesmo quando se estar cansado, suas composições fazem estabelecer elos com a leitura.

Parabéns por sua riqueza literária. Sempre um enorme prazer lê-la.

Forte abraço,
H.F.

BAR DO BARDO disse...

INSANO!

Marcello disse...

Só faltou a chuva molhando o vidro do café e Billie Holiday cantando.

PERFEITO !!!

Muito bom seu texto.

Wania disse...

Dri

Adoro esta magia que a leitura tem de nos teletransportar... e as tuas palavras conseguem isso com uma facilidade imensa. Mostram o in/out com muita sensibilidade!

Linda prosa,
Bjs

Lou Vilela disse...

Um roteiro tra(n)çado com maestria!

Bjs