até ontem

 estudo para tela/ rafael godoy



vim como não quer nada
e entrei na noite como se dela tivesse nascido
até ontem não gostava das pessoas do dia
não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia

entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
encontrava gente com essa mesma cara
às vezes muito maquiadas
e pareciam artistas de cinema-mudo
olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
podia pensar que eram felizes
suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.

e eu vim com a noite e nela me escondia
e me encantava com a vida desse seres
e fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos

até ontem gostava desses seres
e podia ser um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria

29 comentários:

Mirse Maria disse...

Nossa DRI!

Estou arrepiada como todo ser que vive no dia e lê, sente a noite nos seus versos, e até o cheiro do pão com mortadela. Pão de nobres, pobres...

D+++++++

Você vai sempre além da minha imaginação.

Beijos

Mirse

BAR DO BARDO disse...

mais uma boa execução

sem dó

Léo Santos disse...

É... Eu também já fui de noites;
Hoje sou dos dias!
Em verdade sou de ambos!
Ando em busca é de alegria.

Que gravura bacana! Pelo amor de Deus! O cara é demais!

Um abraço!

Fabio Rocha disse...

Dri, detonante sua fase atual!

líria porto disse...

a ilustração, os versos, o fato de também morares em belô - querer mais o quê????

besos

Marcos Satoru Kawanami disse...

um poema que emerge para um dia melhor.

e fala pro Rafael que amei a Betty Boo dele, na versão andava na contra-mão quando topei de frente com aquela carreta e...

Úrsula Avner disse...

Oi Adriana,

sua linguagem leve e despojada traz neste poema, aspectos importantes do cotidiano humano, além de propor uma reflexão analógica sobre os contrastes, mistérios e também semelhanças entre o dia e a noite,a luz e as trevas, o brilho e o ofuscamento, o branco e o negro e outros termos dialéticos. O fechamento foi brilhante ! Mais uma vez a tela do filhote ilustrou com riqueza o poema. Bj,

Úrsula

Hercília Fernandes disse...

"Até ontem...
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria".

Simplesmente divino, Godoy!

A poesia mesmo entre brumas busca a claridade do dia.

Lindo demais!

Mais um belíssimo poema. Parabéns!

Beijos,
H.F.

Daniel Moraes disse...

Poema bem construído e reflexivo. Gostei do blog de vocês, voltarei mais vezes. Um abraço.

http://submundosemmim.blogspot.com

Wania disse...

Dri querida

Até ontem eu entrava na noite e nela me perdia, hoje eu me perdi no dia e adorei sua companhia!

Muito lindo o desenrolar do teu poema e o final é demais... brilha tanto que acaba com a escuridão!

Bjssss

evandro mezadri disse...

Bela poesia, esse blog nos presenteia com grandes momentos inspiradores.

Akhen disse...

Passei por acaso e gostei.
Pode ir, se o entender, ao meu blogue e ler "As Sombras".
Voltarei.

Paz e Luz no seu caminho

Adriana Godoy disse...

Agradeço a todos que marcaram presença. É muito importante esse retorno, faz a gente continuar. Beijos.

Adriana Godoy disse...

Agradeço a todos que marcaram presença. É muito importante esse retorno, faz a gente continuar. Beijos.

José Carlos Mendes Brandão disse...

Pensávamos que podíamos mudar o mundo...
Mudamos? Mudaria o mundo ou mudei eu? A vida segue seu fluxo.
Beijo.

Albuq disse...

"até ontem gostava desses seres
e podia ser um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria".

Linnnnnnnnnnnnndo, essa sensação de luz é muito forte, de reviver, renascer... ohhh perfeito!
Lindo mesmo!
bjs

pianistaboxeador21 disse...

MARAVILHOSO. NÃO SEI SE É UM POEMA RECENTE, TENHO A IMPRESSÃO DE JÁ TÊ-LO LIDO OUTRA VEZ.
TOCANTE.ACERTOU.
BEIJO

Lou Vilela disse...

Dri, você sempre me emociona!

Fala para o Rafa que admiro muito o trabalho dele.

Beijos

Ricardo LAF disse...

Pérola. Emocionante. Cáustico, docemente.

Renata de Aragão Lopes disse...

Dri Godoy,

aprecio muitíssimo
essa sua poesia
meio boêmia...

Lá no "Voz",
já havia reparado
em como fala da noite
com propriedade.

A surpresa
veio recentemente:
já teve um bar! : )

Que delícia, não?

Um beijo
e parabéns pelo poema,

Joe_Brazuca disse...

extraordinário como é cinematográfico...

e...a gente muda mesmo.Não há como não...

muito bom !

bj

tonhOliveira disse...



até ontem gostava desses seres
e podia ser um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria

BO-NI-TO!
...

Eu era de pele quase verde (limo da noite)
hoje ao sol meu sorriso coloRIU!

Muito bom reencontrar a LUZ!

Beij☼s Adriana!

Lara Amaral disse...

A vida muda, da noite para o dia.

Muito bom, Dri!

Parabéns pelo seu aniversário e pelos elaborados versos.

Beijos.

sopro, vento, ventania disse...

Um filme, Adriana. E, pra variar, me vi em várias cenas. O seu-eu-nosso-lírico.
O último verso é arrebatador e dá um certo conforto, ai, como dá.
um beijo,
Cynthia

Adriana Godoy disse...

Agradeço mais uma vez os comentários tão sensíveis e expressivos. É uma honra a presença de vocês. beijo.

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

Resiliência para transitar entre mundos, tribos, para perceber que somos mudança constante - ainda que, no fim, algo sempre fique [aquilo que define quem somos, mesmo que sequer saibamos o que seja]...

Belíssimo poema... confesso sou meio cativo da forma [fôrma]... o soneto me encanta mais que outras... mas me enveredo também pelo sendal da liberdade poética e [creio] sei discernir quando vejo um bom poema livre... o seu vai além da expectativas... belo, cadenciado, musical e descreve o quadro das coisas sem esgotar, permitindo ao leitor uma brecha para o imaginar...

Bjaum, Dri!

Adriana Karnal disse...

Adriana,
Ja tinha lido esse poema, e acho pura imagem, consigo ver essa noite das caras do cinema mudo...e vc amiga, se modificou? a luz do sol faz bem, mas a lua, ai, que linda!

Vinícius Paes disse...

Um dos melhores que eu já li, Adriana. Realmente a noite é a nossa casa, porém, o sol pode ser atraente, é tudo questão de ponto de vista.

Lindo. Beijos.

Batom e poesias disse...

Sei exatamente do que está falando, Adriana.

Andei muito tempo pelas noites, mas a claridade do dia me venceu e convenceu.
De qualquer forma, vez ou outra, passeio pelo sedutor escuro vez ou outra.
Poema dos bons!

bjs
Rossana