Era uma vez...



Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido

(Ferreira Gullar)




Melhor assim!
Cedo ou tarde
me seria necessária.
Quero um vestido
de manhãs ensolaradas
e sapatos alados.



Naquela noite
serviram-se do melhor vinho da adega.

Era cedo, muito cedo para embriaguês.
E tarde - indiscutivelmente tarde -
para qualquer barulho.

Balbucios distraídos renderam-se
a Baco e a noite, silente e cálida,
pariu suas estrelas, testemunhas
de mundos distintos sem chão.




Espantei os fantasmas
destilei cicuta
um cretino
instigando, dis.puta!


Era tarde, chorei...
exorcismos, re.versos
ao avesso me vi
divino-perverso.


Mergulhei em esgoto
quebrei o mosaico,
uma vida fingida.


Cedo ou tarde, parti...
na mala um uivo
e um punhal
de saudades.



Era uma vez...




Lou Vilela in Nudez Poética
.



15 comentários:

Adriana Karnal disse...

Lou
Sua poesia é altamente feminina.
"Melhor assim!
Cedo ou tarde
me seria necessária.
Quero um vestido
de manhãs ensolaradas
e sapatos alados"
Gostei especialmente desse verso, mais do q FErreira Goulart q adoro.
Você arrasou mesmo,amiga!!!Sapatos alados é uma metáfora incrível pra voar.

BAR DO BARDO disse...

Senti no peito, Lou: "na mala um uivo e um punhal de saudades".

Hercília Fernandes disse...

"na mala um uivo
e um punhal
de saudades".

Estes versos, Lou, são de uma preciosidade que nos tocam diretamente as ideias, representações e afetos. Como disse o Bardo, senti no peito!

Bravíssimo, minha cara. Parabéns por esse excelente diálogo com o Ferreira Gullar.

Obrigada por nos proporcionar essa maravilhosa viagem ao universo feminino com seus vestidos de manhãs ensolaradas e sapatos alados. Essas imagens nos fazem sonhar.

= lindo demais!

Beijos :)
H.F.

Fred Matos disse...

Delícia, Lou.
Parabéns
Beijos

Adriana Godoy disse...

Excelente! Um poema definitivamente maduro e emocionante. Parabéns. bj

Lou Vilela disse...

Dri Karnal,

Sapatos alados são muito confortáveis. ;)

Lisonjeada com o comentário.


Beijos

Lou Vilela disse...

Henrique, caro poeta, uma honra tocar o teu peito.

Beijos e obrigada pela leitura!

Lou Vilela disse...

Eu que agradeço, Hercília, pelo generoso comentário, pelo carinho e pela oportunidade de figurar, aqui no Maria Clara, ao lado de tantas poetisas que admiro.

Beijos

Lou Vilela disse...

Delícia é você nos brindar com a sua presença, Fred!

Um grande abraço!

Lou Vilela disse...

Dri Godoy,

Vindo de você, o comentário me é bastante significativo.

Beijos

Wania disse...

Lou,

Ficou muito afinado este teu diálogo com Ferreira Gullar!

Tua escrita é sempre intensa... aqui mostra-nos uma mulher que tem garra, sem jamais perder a feminilidade!

Ficou muito bonito, parabéns!

Bjs,
Wania

Úrsula Avner disse...

Oi Lou,

lindos poemas num linguajar repleto de elementos oníricos e existencialistas que interagem harmonicamente. Bela postagem ! Bj,

Úrsula

Lou Vilela disse...

Wania, minha cara, agradeço pelas considerações. ;)

Um grande abraço!

Lou Vilela disse...

Úrsula,

Esses feedbacks sempre agregam valor.

Beijos

Vera Y. Silva disse...

Num fado de Amália Rodrigues diz-se a certa altura:
"Já não temos fome nem vontade de não a ter".
Mas 40 anos é muito cedo para isso suceder!