Postagem Simplesmente Poesia (16)


Literatura com sotaque


O sotaque na língua é o traço mais marcado de uma identidade nacional ou local. Ter sotaque é mostrar raízes. Entretanto, não é difícil encontrar aqueles que desejam apagar um sotaque,porque,de fato, ele pode vir cheio de preconceitos.
De acordo com Marcos Bagno, "preconceito linguístico é a atitude que consiste em discriminar uma pessoa devido ao seu modo de falar". Esse preconceito é exercido por aqueles que tiveram acesso à educação de qualidade, à “norma padrão de prestígio”, dos que ocupam as classes sociais dominantes. Na verdade, não é a maneira de falar que sofre preconceito, mas a identidade social e individual do falante. A literatura, contudo, tem lançado mão do sotaque para dar sua voz, para revelar as peculiaridades de algum lugarejo, para desvelar o exótico que há nas diferentes localizações mundo afora. Muito desse sotaque se vê no conto paródico de Fernando Sabino, chama-se O homem vestido e faz parte do livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo. O que se explora no texto é o sotaque carioca do homem:


Estava nu e do lado de fora do apartamento. Situação difícil em qualquer lugar do mundo. Mas aqui não é qualquer lugar. Aqui é o Rio de Janeiro. E no Rio é tudo praia, sol, Cristo, bunda, bala. Homem pelado aqui não é problema.
– Que porra é essa, meirmão?
O corredor vazio. Nove da manhã. Apenas o pelado e um careca.
– Meu senhor, a porta bateu. Fiquei na rua. Compreenda.
O sujeito ajeitou a calça e entrou no apartamento. Minutos depois, voltou com um calção vermelho.
– Agora vê se não vacila.
– Ô amigo, sem palavrash.
Despediram-se com um leve sinal de cabeça.
O dia correu normalmente.

Black English


Podemos ir mais longe, a música negra sempre se utilizou do sotaque para se fazer ouvir. O rap é identificado em seu grupo não tanto pela força da palavra em si, ao contrário, é o sotaque da palavra que a fortalece. A letra de Gansta Rap demostra toda a rebeldia pelos sons das palavras que se contraem especialmente na última sílaba:

Whassup, Whassup?! Westside !!
Time to take you back to the days of old Six-fo Chevys,
big fat go Out throw the West with the Gangstas rollin' South Central L.A. : my home
Ice Cube and them niggaz with the tooth Shown to motherfucker how to blast a deuce
(come on) BLAH !! Dr Dre, NWA, Eazy-E and Ren fuck what you say
**** * *** for them niggaz up north ghettoboys we was like "Fuck the law!
Dubcee nigga **** *** we thought you how to gangbang


Novo acordo ortográfico


Ainda que as novas regras tenham sido introduzidas na escrita da língua portuguesa elas ainda não conseguiram ser incorporadas pelos falantes, muito em razão de a escrita refletir a pronúncia. Carlos Alberto Faraco afirma: A mídia costuma apresentar o Acordo como uma unificação da língua. Há, nessa maneira de abordar o assunto, um grave equívoco. O Acordo não mexe na língua (nem poderia, já que a língua não é passível de ser alterada por leis, decretos e acordos) – ele apenas unifica a ortografia. Algumas pessoas – por absoluta incompreensão do sentido do Acordo e talvez induzidas por textos imprecisos da imprensa – chegaram a afirmar que a abolição do trema (prevista pelo Acordo) implicaria a mudança dapronúncia das palavras (não diríamos mais ou de lingüiça, por exemplo). Isso não passa de um grosseiro equívoco: o Acordo só altera a forma de grafar algumas palavras. A língua continua a mesma.

Na poesia portuguesa de Nilson Barcelli vemos o “c” no meio da palavra porque os portugueses não conseguiram modificar seu sotaque, de fato, será difícil ajustar a escrita à maneira de falar.


À noite, sempre que toco os teus seios,
eles perdem a lisura e ficam mais convexos
ao tacto e à mercê.
Deles e das tuas linhas de cetim e de veludo em feitio violeta,
aconchegantes e côncavas, ficam-me no corpo,
durante o sono, o bordado das formas
e o quebranto dos perfumes.

O Mooquês

Se por um lado falamos do preconceito linguístico, por outro lado há os entusiastas do sotaque. O vereador Juscelino Gadelha (PSDB) entrou com um pedido curioso no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp). Ele quer tombar o ‘ mooquês ’. Trata-se do sotaque cantado e italianado do bairro da Zona Leste fundado em agosto de 1556 por um grupo de jesuítas. Algumas características do Mooquês são: o ‘ r ’ puxado e a falta do ‘ s ’ no plural. A explicação repousa na origem do bairro. Quando imigrantes italianos passaram a habitar a região eles tinham dificuldade em pronunciar essa letra no final das palavras, já que o italiano não prevê essa estrutura. O mooquês aparece nas canções de Adoniran Barbosa:


Voceis pensam que nóis fumos embora
Nóis enganemos voceis
Fingimos que fumos e vortemos
Ói nóis aqui traveis
Nóis tava indo
Tava quase lá
E arresorvemo
Vortemos prá cá
E agora, nóis vai ficar fregueis
Ói nóis aqui traveis


Explicações que ninguém pediu (parodeando a Hercília)


O livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo está disponível para ser baixado gratuitamente e lido no celular, um dos sete títulos – todos inéditos – que a Editora Plus, de Porto Alegre, lançou neste formato.

Para ler mais sobre o tombamento do sotaque da Mooca acesse aqui.

Para ler a bibliografia completa de Marcos Bagno, como o excelente Preconceito lingüístico ou A língua de Eulália, acesse seu site.

16 comentários:

Úrsula Avner disse...

Oi Adriana,

interessante postagem que traz uma leitura literária crítica sobre o sotaque e maneirismos regionais, os quais, frequentemente contemplamos em poesias, prosas, contos, crônicas e tantos outros gêneros literários da nossa língua portuguesa.
" Gostei desse troço uai sô... " Rs rs. Bj e bom fds.

Melo disse...

Além daqueles 7 livros de estréia, a Editora Plus já tem mais 13 e-books em catálogo. Todos gratuitos.

Essa semana, lançamos um e-book totalmente escrito por crianças de uma escola da periferia de Porto Alegre, no âmbito de um projeto chamado "Faça um E-book na Escola".

Abraço!
Eduardo

Adriana Karnal disse...

Úrsula,
Esses sotaques são o de melhor q a literatura pode produzir. Não sei como alguém ainda tem vergonha do seu...obrigada pelo comentário.bj

Adriana Karnal disse...

Melo,
Obrigada pela visita e a informação. Legal saber q tem uma editora interessada em e-books que é de grande auxílio para um público tantas vezes excluído.

Graça Pires disse...

Gostei de ler o teu texto, Adriana. O preconceito linguístico existe sem razão para existir. O sotaque de cada região só não é respeitado pelos "puristas" da língua.
Eu gosto de ler e ouvir com os regionalismos próprios.
Um beijo.

Adriana Karnal disse...

Graça,
Obrigada pelo comentário, vc sempre um anor de poeta.

Hercília Fernandes disse...

Adriana,

amei seu artigo sobre literatura e preconceito linguístico. Você está contribuindo, abundantemente, para qualidade do blog Maria Clara e do quadro Postagem Simplesmente Poesia. Meu muito obrigada!

Adoro os trabalhos do Marcos Bagno, especialmente pela perspectiva sociolinguística de seus livros; que aponta para um entendimento político da língua e compreensão crítica da problemática da variedade linguística e da dialética língua falada e gramática normativa.

Por isso lhe parabenizo pelo tema escolhido e, sobretudo, pelo desenvolvimento sensível, bem fundamentado e excelência na articulação entre concepções e textos literários.

Como diz a me-Nina Rizzi amei "tudos", dos seus argumentos teóricos aos textos analisados. Gostei tanto, tanto, que fiz uma divulgação de seu belo post lá no Novidades & Velharias.

Além de falar dos pontos principais de sua postagem, acrescentei, para reflexão do leitor, o texto "Português ou caipirês?" de Dad Squarisi, disponível no livro de Bagno. Quando poder passa lá...

http://novidadesevelharias-fernandeshercilia.blogspot.com/2009/10/literatura-com-sotaque-portugues-ou.html

Mais uma vez, parabéns pelo excelente estudo de estreia no quadro!

Um forte abraço,
H.F.

Mirse Maria disse...

Lindo e oportuno, Adriana!

The accent, ou sotaque, é a riqueza e distinção de cada lugar.
É até um tipo de preconceito, uma crítica pelo lugar onde se nasce, ou pelo sotaque.

Muito bom!

Beijos

Mirse

Wania disse...

Na verdade, não é a maneira de falar que sofre preconceito, mas a identidade social e individual do falante. O preconceito social sempre embutido, tirando o brilho da autenticidade!

Que delícia de ler este teu post, Adriana!
Quanto aprendizado, quanta dica gostosa!



Essa blogosfera é fera!

Beijinho doce procê!

Adriana Godoy disse...

Uma aula de excelente qualidade. Parabéns, Karnal, vc soube passar certinho e com requinte sua mensagem. Que bom eu ter vindo até aqui e achado essas pérolas. Beijo.

Adriana Karnal disse...

Hercília,
Fico feliz que tenhas gostado do post. Marcos Bagno é impagável, e dá muito o que refletir mesmo...Como sempre, generosa que és, me deixas constrangida com tanto apreço. Não mereço tanto. Vc é que é uma doçura.

Adriana Karnal disse...

Mirse,
Que bom vê-la por aqui ,amiga. Fico feliz com a tua apreciação. Sempre um afago a mais.

Adriana Karnal disse...

Wania,
Obrigado pela gentileza,aprendemos todos aqui. Eu, principalmente com tantas poetas maravilhosas como tu.

Adriana Karnal disse...

Adri Godoy,
Valeu pelos comentários. Gosto do tema do preconceito linguístico pq toca a todos nós q lidamos com a palavra.bj, amiga.

Lou Vilela disse...

Adoro sotaques!

Parabéns pela escolha do tema, dos exemplos, bem como pelo ensaio!

Beijos,
Lou

Fatima Cristina disse...

Adriana,
este seu estudo em post ficou MUITO BOM MESMO!Parabéns!
E salve as diferenças de nossos sotaques!

Beijos!